Desenvolvimento Local Grande Entrevista

Idanha quer ter um papel dianteiro na construção de um mundo mais sustentável

Nos últimos anos Idanha-a-Nova foi criando uma estratégia de produção diferenciadora para se distinguir nos mercados local, nacional e mundial, com um conceito inovador, focado na qualidade, investigação e sustentabilidade.

Diz-nos o presidente da autarquia, Armindo Jacinto, que Idanha pretende assumir um papel dianteiro na construção de um mundo mais sustentável.

São vários os projetos que estão a ‘florescer’ no concelho que se alavancou no mundo rural para definir a sua estratégia que, entre muitos outros resultados, tem permitido ganhar notoriedade, captar investimento e fixar população. Em entrevista o autarca explica-nos alguns destes conceitos e ao longo das próximas páginas damos a conhecer alguns dos projetos que escolheram Idanha-a-Nova para se instalarem.

Que balanço pode fazer do Projeto ‘Recomeçar’?

O projeto Recomeçar em Idanha é emblemático da estratégia que temos para o concelho de Idanha-a-Nova. Lançado em 2015, é um projeto definido a médio prazo (2015-2025) que visa o desenvolvimento sustentado do território, através da melhoria das condições de vida dos cidadãos idanhenses, da criação de riqueza e emprego e da atração de novos residentes e investimento. Os resultados têm sido positivos. Nos últimos três anos, Idanha-a-Nova assegurou 59,2 milhões de euros de investimento direto e indireto para o desenvolvimento de projetos de base rural. Podemos ainda referir a criação de mais de 350 projetos empresariais, os quais traduzem-se já hoje em mais de 300 novos postos de trabalho no concelho.

Além disso, os méritos do Recomeçar têm sido amplamente reconhecidos. A nível nacional Idanha-aNova ganhou o Prémio de Município do Ano 2018 na categoria “Região Centro – Menos de 20 mil habitantes”, atribuído pela Universidade do Minho. Já a nível mundial, Idanha surpreendeu ao vencer o 2º Prémio de Marca Territorial do Ano 2018, patrocinado pelo The New York Times e recebido em Londres. Nesse troféu internacional – os City Nation Place Awards – Idanha e o projeto Recomeçar bateram finalistas como Barcelona, Escócia, Estónia ou Salinas (na Califórnia), sendo apenas superada por Eindhoven (Holanda).

Há 55 empresas instaladas no Green Valley Food Lab – o “Silicon Valley” do Mundo Rural

Green Valley Food Lab. O que é? Quantas empresas e que projetos o integram?

Green Valley Food Lab é uma área de acolhimento empresarial de base rural, em Idanha-a-Nova, que é uma evolução da nossa premiada Incubadora de Base Rural. Podemos dizer que é o “Silicon Valley” do Mundo Rural. Dispõe de uma área de acolhimento empresarial de 800 hectares, que inclui as propriedades do Couto da Várzea, do Ribeiro do Freixo e das Lombas, bem como o Centro Logístico Agroalimentar do Ladoeiro.

Em termos de empresas, há 55 empresas instaladas no Green Valley Food Lab (22 produtores de mirtilos, é a maior área contínua de produção biológica de mirtilos na Europa; 60 hectares de produção de figo da índia; melhoramento genético de produção animal; ervas aromáticas; sementes; frutas e hortícolas). Estamos a desenvolver parcerias com entidades nacionais e internacionais para trazer para Idanha investigadores que ajudem a desenvolver novas formas de produzir alimentos em Modo de Produção Biológico a preços mais competitivos. No Green Valley vai operar, por exemplo, o Laboratório Colaborativo (CoLAB) Idanha Food Lab, que junta 14 entidades da academia e do meio empresarial e é gerido pela Food4Sustainability – Associação para a Inovação no Alimento Sustentável. Com o Governo português estamos a trabalhar a integração de Idanha na rede de “Quintas Ciência Viva”, espaços de educação para a Ciência, abertos ao público, e a nossa quinta será dedicada à agricultura biológica.

“Estamos a desenvolver parcerias com entidades nacionais e internacionais para trazer para Idanha investigadores que ajudem a desenvolver novas formas de produzir alimentos em Modo de Produção Biológico a preços mais competitivos” Armindo Jacinto, presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova

Idanha está a mudar de paradigma e hoje assume-se como uma “economia verde”, o que é que está a mudar em concreto? Onde se pretende chegar?

Idanha pretende assumir um papel dianteiro na construção de um mundo mais sustentável, um movimento inevitável para a salvaguarda do nosso planeta, do futuro dos nossos filhos e netos, das próximas gerações. Toda a estratégia para desenvolvimento do Município de Idanhaa-Nova está alinhada com os princípios da economia verde: sustentabilidade ambiental, economia circular, circuitos curtos de comercialização, biodiversidade e preservação dos recursos naturais (desde a qualidade da água aos solos). Onde se pretende chegar? Idealmente à criação de um forte ecossistema de empreendedorismo, inovação e conhecimento que promova o desenvolvimento sustentado de Idanha, podendo depois ser replicado noutros territórios e contribuir para um futuro mais saudável e mais sustentável.

O Laboratório Colaborativo FoodLab, com sede em Idanha, preconiza colocar Portugal na vanguarda da produção alimentar sustentável e com potencial de sequestro de carbono. O que está a ser desenvolvido?

Efetivamente, o Laboratório Colaborativo (CoLab em inglês) FoodLab tem a sua sede em Idanha-a-Nova e visa colocar Portugal na vanguarda da produção alimentar sustentável e com potencial de sequestro de carbono. O projeto prevê um investimento de cerca de oito Milhões de Euros nos próximos cinco anos e a criação de mais de 20 postos de trabalho altamente qualificados. Com o apoio do Município de Idanha-a-Nova, o CoLab junta 14 parceiros do meio académico e do meio empresarial que estão a testar várias tecnologias para melhorar os processos de produção alimentar em termos de mitigação de CO2, no impacto ambiental, no combate às alterações climáticas, no uso nulo de químicos artificiais, na gestão da água, na preservação da biodiversidade e na eficiência de toda a cadeia de valor.

A criação deste laboratório resulta do trabalho desenvolvido nos últimos três anos pela Câmara Municipal de Idanha-a-Nova em parceria com a aceleradora de empresas BGI, nomeadamente no programa de aceleração i-Danha Food Lab, com vista a elevar os níveis de empreendedorismo, inovação e sustentabilidade no Mundo Rural.

O Laboratório Colaborativo FoodLab tem sede em Idanha-a-Nova e visa colocar Portugal na vanguarda da produção alimentar sustentável e com potencial de sequestro de carbono. O projeto prevê um investimento de cerca de oito Milhões de Euros nos próximos cinco anos e a criação de mais de 20 postos de trabalho altamente qualificados.

Com o estatuto de “primeira Bio-Região Portuguesa”, o que é que diferencia Idanha-a-Nova? Porque é que Idanha aderiu?

A Bio-Região de Idanha-a-Nova, uma distinção em que fomos pioneiros em Portugal, em 2018, abrange todo o concelho de Idanha (1.417 Km2) e envolve toda a nossa comunidade, desde as creches à Universidade Sénior. É uma estratégia de eficiência coletiva que vai ao encontro das atuais necessidades de criar sistemas alimentares mais sustentáveis, atendendo a problemas como as alterações climáticas, os desafios da gestão da água, dos solos ou dos resíduos. Idanha aderiu à Rede Internacional de Bio-Regiões (Eco-Regions) por entender que esse é o caminho da sustentabilidade e do desenvolvimento.

Para contextualizar, uma Bio-Região resulta de uma intervenção territorial em que agricultores, consumidores, operadores turísticos, associações e poder local estabelecem um acordo para a gestão sustentável dos recursos locais, tendo por base o modelo biológico e agroecológico de produção e consumo; assenta ainda em circuitos curtos de comercialização, economia circular, valorização das produções locais e fomento de hábitos de consumos saudáveis. No caso de Idanha posso adiantar que estamos a trabalhar na implementação de cantinas e de mercados biológicos, dois projetos que serão estratégicos neste domínio.

Sendo um concelho rural, do interior, periférico que vive com todas as condicionantes que isso acarreta, como é que a própria comunidade local vem vivenciado esta transformação, até porque têm sido muitos os estrangeiros a instalarem-se no concelho?

Embora o concelho de Idanha-a-Nova seja marcadamente rural, a comunidade local é muito aberta a novas realidades e a novos desafios. Sempre recusámos a ideia do “campo” como sinónimo de isolamento ou subdesenvolvimento, como tal, Idanha é um lugar onde coabitam pacificamente a tradição e a inovação. “Semear tradição para colher inovação” é, aliás, um slogan que tem sido associado à cultura empreendedora de Idanha-a-Nova. Temos no concelho vários residentes, investidores e trabalhadores portugueses e estrangeiros – grande parte altamente qualificados – que chegam para acrescentar valor ao território. Inserem-se perfeitamente na comunidade, inspiram-se nos nossos saberes e recursos, e trazem consigo novos conhecimentos, abordagens e oportunidades.

Paralelamente a esta estratégia também é pública a instalação de grandes grupos internacionais no município, como vê estes investimentos?

Os grandes grupos internacionais e os grandes investimentos são muito bemvindos ao nosso concelho. O importante é que se revejam na estratégia de desenvolvimento sustentável deste território, uma realidade que tem acontecido em projetos empresariais de grande dimensão como os amendoais, nogueiras, sementes, mirtilos, figo-da-índia e outras explorações que temos em Idanha-a-Nova.

“Provavelmente, um autarca nunca se sente totalmente realizado, porque há sempre mais e melhor a fazer; há sempre problemas por resolver; há sempre novos desafios no horizonte. Há uma luta inerente às responsabilidades que temos. Mas, posso dizer que motiva-me a entrega à causa pública, ao serviço de Idanha e dos Idanhenses. Nessa medida tem sido um desafio muito gratificante, uma vez que acredito no projeto que temos para o concelho de Idanha-a-Nova, sinto que os Idanhenses estão connosco, e os indicadores de desenvolvimento económico e social mostram que Idanha está no bom caminho”

Fazendo uma retrospetiva desde que iniciou funções autárquicas até agora, quais são as principais mudanças que identifica no município?

A estratégia de desenvolvimento que criámos para Idanha-a-Nova, muito assente em valores como a inovação, a sustentabilidade e a qualidade de vida, temnos permitido ganhar notoriedade, captar investimento e fixar população. A nossa maior ambição é inverter um processo de despovoamento do Interior com longas décadas e demonstrar que os territórios do Mundo Rural são territórios de oportunidade e de desenvolvimento. O indicador mais expressivo é que, pela primeira vez em 70 anos, Idanha está à beira de atingir resultados positivos nos fluxos migratórios, ou seja, começam a mudar-se mais pessoas para o concelho do que aquelas que saem. Isso é uma conquista tremenda que demonstra que Portugal só tem a ganhar em combater as assimetrias regionais e promover a coesão territorial, para que todo o território nacional possa colaborar na criação de riqueza, de emprego e de desenvolvimento.

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo.