Hortofruticultura

A polinização das figueiras

A cultura da figueira é tradicional e uma das mais antigas no mundo, devido à riqueza nutricional dos figos e ao seu efeito benéfico na saúde e até na cosmética.

Os figos podem ser consumidos em fresco ou em seco tendo estes uma grande facilidade de conservação e de transporte e de fácil ingestão. Têm ainda uma infinidade de possibilidades de transformação e apresentação.

A figueira tem flores? Certamente que alguns dos leitores desconhecem que as figueiras também produzem flores, tal como as outras fruteiras, e algumas cultivares também necessitam que o pólen seja transportado de umas flores para outras através de um inseto polinizador para que os frutos vinguem e se desenvolvam até à maturação. Esta operação, nas figueiras, designa-se por caprificação.

As flores da figueira não estão visíveis nem são coloridas, encontram-se no interior de um recetáculo que vulgarmente designamos por figo. As flores da figueira são unissexuais, muito pequenas, pediceladas, apétalas, hipóginas e com um perianto dividido em cinco partes. Os figos comestíveis têm dois tipos de flores, as flores femininas longistilas (estilete longo), que são em maior número e as flores masculinas que são em reduzido número e que estão no interior do figo junto ao ostíolo, vulgarmente designado por olho do figo. Nos figos não comestíveis a flores femininas são brevistilas (estilete curto) (figura 1).

Será que o figo é um fruto? Não, o figo não é um fruto, é uma infrutescência denominada sícone. Este, é formado por um tecido vegetativo carnudo que no seu interior contem centenas de flores originando cada uma delas um fruto que designamos por aquénio e que vulgarmente se denomina por grainha, estes sim, são os frutos da figueira.

Figura 2 – Figo lampo e figos vindimos da ‘Lampa preta’.

O que são figos lampos? Algumas cultivares de figueiras produzem duas “camadas” de figos, os figos lampos, que amadurecem em junho, pelo S. João, e os figos vindimos, que amadurecem a partir de finais de julho início de agosto dependo das regiões do país. Os figos lampos iniciam a sua formação no final de setembro/outubro, param o seu desenvolvimento durante o Inverno, devido ao abaixamento das temperaturas e à diminuição das horas de luz. No início de março reiniciam o desenvolvimento até à maturação. Estes figos, situam-se na madeira “castanha”, logo abaixo das primeiras folhas dos ramos (Figura 2). Os figos lampos não necessitam de caprificação, são sempre partenocárpicos. Quando comparados com os figos vindimos são mais ricos em água, têm menor quantidade de sólidos solúveis totais, têm a epiderme mais fina e em geral são consumidos em fresco, devido ao seu calibre.

O que são figos vindimos? Os figos vindimos iniciam o seu desenvolvimento em finais de abril, início de maio, no crescimento do ano, na axila das folhas, ou seja, formam-se na madeira do ano, e amadurecem em final de julho, início de agosto (Figura 2). Algumas cultivares de figueira para produzirem os figos vindimos não necessitam de caprificação, como por exemplo a ‘Pingo de mel’, outras necessitam, como por exemplo a cultivar ‘Lampa preta’, se esta não ocorrer, os figos caem (pecam) não atingindo assim a maturação. Os figos vindimos podem ser consumidos em fresco, em seco, transformados em compotas, cristalizados, confitados, desidratados, em pasta, etc. Podem ainda ser destilados para a produção de álcool, aguardente e licores. Os figos vindimos contêm menos água que os lampos e têm maior teor de sólidos solúveis totais.

O que é a caprificação? Dentro da espécie Ficus carica L. temos dois tipos de figueiras, as que produzem figos comestíveis (figueiras domésticas), que podem ser bíferas (produzem figos lampos e figos vindimos) ou uníferas (só produzem figos vindimos) e as que produzem figos não comestíveis, também designadas por figueiras bravas ou baforeiras ou figueiras de toque. Só as flores masculinas das figueiras baforeiras é que produzem pólen.

Nas cultivares de figueiras que necessitam de caprificação é necessário que ocorra a fecundação das flores, pelo que é necessário que o pólen seja transportado das flores masculinas das figueiras baforeiras para as flores femininas das figueiras que produzem figos comestíveis e das baforeiras (polinização entomófila). O agente especializado no transporte do pólen é um inseto, um himenóptero, denominado Blastophaga psenes Cavolini, que “vive “ no interior dos figos das figueiras baforeiras (Figura 3).

As figueiras baforeiras produzem três camadas de figos (lampos, vindimos e boloitos), enquanto, as figueiras domésticas produzem duas (lampos e vindimos). O inseto polinizador tem o ciclo de vida coincidente com as camadas de figos da figueira baforeira. É no interior dos figos boloitos (que amadurecem em março) que o inseto polinizador “passa” o inverno.

Quando as flores femininas dos figos vindimos das figueiras domésticas e das baforeiras estão recetivas, libertam um aroma que atrai as fêmeas do inseto polinizador. Estas, que estão no interior dos figos lampos da figueira baforeira, saem pelo ostíolo. Como as flores masculinas estão em redor do ostíolo do figo os insetos polinizadores são “obrigados” a passar pelo labirinto das flores masculinas ficando com o pólen aderente ao corpo (Figura 4). Ao serem atraídos pelo aroma das flores dos figos vindimos elas entram para o interior desses figos para fazer a postura dos seus ovos e dar continuidade ao seu ciclo de vida e indiretamente também fazem a polinização com o pólen que está aderente ao seu corpo. Os machos do inseto polinizador nascem e morrem dentro do mesmo figo. Eles nascem primeiro que as fêmeas, “ajudam” as fêmeas a eclodir, acasalam e morrem.

Então os figos que comemos têm no seu interior larvas? As flores femininas dos figos vindimos das figueiras baforeiras são brevistilas, ou seja, têm o estilete curto, enquanto as flores femininas das figueiras domésticas são longistilas (Figura 1). Para que a postura do inseto polinizador tenha sucesso é necessário que o ovo do inseto seja depositado junto do ovário da flor. A larva quando nasce vai-se alimentar do ovário da flor da figueira. No caso das flores da figueira baforeira o inseto consegue fazer a postura junto do óvulo da flor e como tal o ciclo continua, no caso das flores da figueira doméstica o estilete é longo e o oviscapto do inseto não consegue chegar junto do óvulo da flor pelo que o ciclo não tem continuidade porque a larva não tem alimento e morre. Assim, os figos polinizados não têm no seu interior larvas do inseto polinizador. Também não tem “os restos” do inseto que fez a postura porque a figueira contém na seiva uma enzima proteolítica, chamada ficina, que decompõe qualquer anticorpo que esteja no interior do figo. Esta enzima é a mesma que provoca queimaduras na pele quando deixamos cair uma gota de latex.

Qual a época de caprificação? A caprificação, em geral, ocorre na primeira quinzena de junho, dependendo das regiões do país. Para que esta ocorra é necessário existirem figueiras baforeiras no pomar ou em alternativa e o mais usual, é distribuíremse colares de “figos de toque” pelas árvores que pretendemos caprificar. Estes colares são compostos por 5 ou 6 figos lampos da figueira baforeira que são furados junto ao pedúnculo e enfiados num arame ou num junco (Figura 5). O número de colares por figueira depende do tamanho da mesma. Os colares devem ser substituídos uma a duas vezes de oito em oito dias. Devemos ter presente que na feitura dos colares nunca se deve furar o interior dos figos lampos para que o inseto polinizador saia unicamente pelo ostíolo caso contrário sai sem pólen e não é eficaz (Figura 6).

Devemos ter ainda em atenção que o inseto não consegue voar mais do que 5 ou 6 metros e que é atraído por um aroma. O inseto polinizador depois de entrar dentro de um figo já não consegue sair porque perde as asas no “labirinto” das escamas protetores do ostíolo do figo. Por esta razão em todas as figueiras a polinizar devem ser colocados colares com “figos de toque”.

Porque caprificar? Nas cultivares que necessitam de caprificação é a única forma de se obter produção de figos vindimos, como é o caso da ‘Lampa preta’(Figura 7), nas cultivares que não necessitam de caprificação tem o efeito de aumentar o peso dos figos devido a formarem-se grainhas, aumenta o calibre e provoca a antecipação da maturação em alguns dias. Os figos caprificados também ficam com um sabor diferente, ligeiramente mais ácido. Em contrapartida estamos dependentes das condições climáticas na época de caprificação. O vento dissipa o aroma e arrasta os insetos e a chuva impede a saída ou caiem para o chão.

O que plantar? As principais regiões produtoras de figo em Portugal, por tradição, são o Algarve, a região de Torres Novas e a região de Mirandela, nestas regiões o objetivo principal da produção era o figo seco com cultivares adaptadas a cada uma das regiões. No Algarve predominava a cultivar ‘Côtia’ que era caprificada, na região de Torres Novas a cultivar ‘Mulata’ ou ‘Preto de Torres Novas’ que não era caprificada e na região de Mirandela o ‘Branco do Douro’ que também não era caprificado. Uma das variedades comum a todas as regiões e mais interessante para a produção de figos vindimos para consumo em fresco é a ‘Pingo de mel’ que não necessita de caprificação.

Assim, se está a pensar produzir figos em zonas que induzam precocidade pode ser vantajoso caprificar porque antecipa um pouco mais a maturação. O mesmo pode acontecer a quem tem plantado cultivares que necessitam de caprificação.

No geral, existe um vasto leque de cultivares que não necessitam de caprificação e que produzem figos de qualidade sem estarem muito dependente das condições climáticas e do inseto polinizador.

Bibliografia:
Galil, J. & Neeman, G, 1978. Pollen transfer and pollination in the common fig (Ficus carica L.. New Phytol. 79, 167-171 Sousa, R. M., 1988. Contribuição para o estudo da figueira. Trabalho de final de curso. Évora.
  • Autoria: Rui M. Maia de Sousa
  • rui.sousa@iniav.pt
  • INIAV, I.P. Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade | 2460-059 Alcobaça – Portugal.

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo, edição de maio 2020.