Inovação Tecnologia

Dados há muitos, a ciência é saber como os usar

Inovação, reinvenção, tecnologia, digitalização, são expressões que mais do que nunca fazem parte do dia a dia do setor agrícola. Nos últimos anos a agricultura nacional entrou na era da digitalização, com a vantagem competitiva gerada pelo conhecimento.

Seja por necessidade, empreendedorismo ou investimento, as explorações agrícolas têm mudado a forma de fazer agricultura e ainda recentemente o Ministério da Agricultura desenvolveu um roteiro para auscultar agricultores e empresas no sentido de criar uma Agenda de Inovação, com objetivo, lá está, de estimular uma agricultura mais inovadora, sustentável e competitiva.

O Professor Manuel Ângelo Rodrigues – do Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança – dá-nos a sua opinião sobre esta Agenda (ver páginas 36 e 37), assente em quatro linhas orientadoras: alterações climáticas; gestão sustentável dos recursos naturais; competitividade e digitalização da agricultura; e reforço do tecido socioeconómico dos territórios rurais. Em seu entender, “as quatro linhas orientadoras para a agenda de inovação do Ministério da Agricultura não estão mal. Apenas falta a primeira e a mais relevante, a que permita o aumento de conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico dos processos de cultivo. E claro, que depois seja dotada de recursos para que se possa efetivar”.

A questão, seja na inovação, seja nas tecnologias (…) reside muitas vezes na forma, ou dificuldade, em levá-la ao utilizador final – o agricultor – e responder aos seus reais problemas. Foi nesta linha que há cerca de um ano foi constituída legalmente a Associação SFCOLAB – Laboratório Colaborativo para a Inovação Digital na Agricultura – que se preconiza um centro gerador de soluções digitais inovadoras para a agricultura, orientada para as tecnologias de ponta (ver página 34).

Se falarmos em tecnologia na agricultura há um sem número de soluções e muitos agricultores já estão familiarizados com termos como GPS, SIG, VRT, sensores, drones, monitores, automação (….) e não é apenas na exploração agrícola propriamente dita, é em toda a cadeia de abastecimento alimentar, como se pode ver nos vários exemplos ao longo das páginas seguintes.

Veja-se o caso de Jorge Silva, responsável por uma empresa familiar – a Vacaria do Valado -, situada na freguesia de Alfeizerão (Alcobaça). Iniciou a atividade com nove animais da raça Holstein-Frísia, em 1989, mas com o passar dos anos foi crescendo e adaptando as infraestruturas às respetivas necessidades. Com 31 anos de experiência a produzir leite, conta agora com um efetivo total de 550 animais, estando cerca de 220 em produção leiteira. Em 2014 apostou na transformação de parte do leite próprio, dando origem à Queijaria Flor do Vale. Atualmente transforma cerca de 35% do leite (produz 2,5milhões de litros por ano) na queijaria e entrega o restante à Cooperativa Pingo de Leite. O empresário explica-nos que até início de 2019 trabalhava de uma forma mais tradicional, através de uma sala de ordenha com 2 x 8 pontos, em espinha, com três ordenhas diárias. Este sistema, já sendo informatizado, disponibilizava variada informação sobre a saúde e produção animal, sendo possível ter acesso de forma computorizada ao histórico individual de cada vaca. Já em março do ano passado avançou para uma ordenha voluntária feita por quatro Robots (ver caixa ao lado).

São tecnologias emergentes e temos agricultores extremamente sensíveis e recetivos a novos desafios, que se forem devidamente estimulados, reagirão positivamente, Jorge Camilo

Também o Engenheiro Técnico Agrário e Consultor Agrícola Jorge Camilo não tem dúvidas de que numa agricultura moderna, onde cada vez mais são solicitadas políticas de conservação e preservação ambiental, o uso de tecnologia pode ajudar a atingir esses objetivos. Por outro lado, a “revolução agrícola no sul do país”, com o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva e o aumento exponencial da área regada, trouxe consigo uma “revolução tecnológica imensa ao setor agrário nacional. A evolução é real e tem influenciado outras zonas mais tradicionais”.

No entender do técnico, hoje em dia são desenvolvidos esforços por toda a comunidade técnica, universidades, institutos tecnológicos (…) na criação de algoritmos que facilitem a interpretação dos dados e a respetiva aplicação prática nos mais variados campos agronómicos.

Mas, a dimensão do país e uma agricultura ainda um pouco tradicional e conservadora, aliada a falta de formação agrícola, sobretudo de nível intermédio e formatada para dar resposta ao agricultor, assim como mais intervenção no desenvolvimento de Projetos I+D no desenvolvimento de ferramentas e aplicações informáticas que possibilitem a maior agilização na transmissão dos resultados ao consumidor final – o agricultor – serão o principais entraves à digitalização da agricultura. “Em resumo, penso que o maior entrave é a falta de informação e falta de canais de acesso aos agricultores”, conclui.

Todas estas soluções tecnológicas remetem-nos para o lato conceito de agricultura de precisão. Mas, mas, citando José Rafael Marques da Silva, Professor Associado com Agregação da Universidade de Évora, num artigo para ler mais à frente nesta reportagem e que se assume “farto de agricultura de precisão”, esta significa “praticar bons atos agronómicos, suportados por conhecimento intensivo, tecnologia validada e resiliente, perseguindo sempre o bem-estar real do meio ambiente e da sociedade. A prática de uma má agricultura de precisão poderá fazer ainda maiores danos que a própria agricultura convencional”.

“O avanço tecnológico será inevitável com a entrada de gerações mais novas no negócio”

Uma das razões que levou Jorge Silva a investir numa maior automação da sua exploração leiteira foi dificuldade em encontrar mão de obra, “quer pela disponibilidade, quer pela qualidade da mesma”. Por outro lado, avança ainda, a vantagem de não ser necessário estar sempre junto do Robot, uma vez que incorpora um sistema de alertas via telefónica. “O trabalho do Robot é confiável e constante e, com emissão de alertas quando há hipótese de falha, é uma grande vantagem no controlo de qualidade de leite e saúde do úbere”.

No entender de Jorge Silva todas as otimizações de processo carecem de um (grande) investimento e só valem a pena se se souber utilizar a informação.

A tecnologia que o Robot aporta também é uma mais-valia para o produtor, uma vez que passou a ter acesso a informação detalhada não só do animal como um todo, mas por quartos (teto a teto). “Além de fazer a medição da condutividade elétrica do leite, comprámos um sistema de laboratório OCC (Online Cell Counter) incorporado, que faz a contagem efetiva das células somáticas, que quando ultrapassa o valor que estabeleci como máximo nos envia um alerta, permitindo também verificar a tendência evolutiva desse animal”.

Conhece realidades que ainda trabalham com menos meios tecnológicos e que continuam a funcionar bem, mas acredita que o avanço tecnológico será inevitável com a entrada de gerações mais novas no negócio. Mas, a concluir, o empresário reforça que o maior entrave que vive o setor leiteiro desde há uns anos é a situação financeira. “Infelizmente vemos o custo de produção a aumentar a cada ano, esmagando a margem que se deveria destinar a investimentos, não só para inovação mas também para manutenção do que já existe.”

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo, edição de maio 2020.