Agrociência Hortofruticultura

Efeito de práticas agronómicas inovadoras nas características nutricionais e fitoquímicas de produtos e sub-produtos de amendoeira (Prunus amygdalus L.)

A agricultura enfrenta sérios desafios, como as mudanças climáticas que contribuem para a escassez de água devido ao aumento da temperatura média, fenómenos irregulares como secas e inundações, crescimento da população que leva ao aumento do consumo de água e alimentos e, consequentemente, geram uma quantidade substancial de agro-resíduos.

A amêndoa (Prunus dulcis (Mill.) D.A. Webb) é o fruto seco mais produzido a nível mundial, seguindo a tendência crescente de procura de produtos resultantes da transformação da amêndoa, devido às suas propriedades nutricionais serem reconhecidas como benéficas para a saúde.

As espécies fruteiras cultivadas nas zonas semiáridas da bacia do mediterrâneo são grandemente afetadas pelas mudanças climáticas, existindo a necessidade de aumentar a sustentabilidade e competitividade do setor da amêndoa. Neste sentido, o objetivo geral deste trabalho foi delineado de maneira a dar um importante contributo para impulsionar a cadeia de produção de amêndoa nas zonas semiáridas, focando-se na sustentabilidade de subprodutos de amêndoa como fonte dos compostos bioativos, de forma a obter uma completa valorização destes produtos.

Para tal, será necessário compreender o efeito de diferentes regimes hídricos no comportamento fisiológico e bioquímico da amendoeira, de forma a melhorar a qualidade da amêndoa, sustentabilidade ambiental e viabilidade económica desta cultura em zonas semiáridas.

Neste sentido, esta experiência consiste em tratamentos baseados na evapotranspiração da cultura (ETc): regime ideal de exigência de água T100 (aplicação de 100% de ETc); défice de irrigação T70 e T30 (aplicação de 70% e 35% de ETc, respetivamente); défice de irrigação controlado: T100-T35 (100% durante o desenvolvimento do fruto, reduzindo a aplicação para 35% de ETc durante a maturação); ausência de rega T0 (sequeiro); aplicação de caulino em árvores em sequeiro (T0caulino), durante as estações de 2015 e 2016, em amendoeiras da variedade ‘Ferragnès’, com 15 anos de idade, e localizadas no Norte de Portugal.

O impacto dos tratamentos nos subprodutos da amêndoa, na qualidade do miolo e no comportamento fisiológico da árvore foi avaliado através da determinação de parâmetros fitoquímicos, microbiológicos, nutricionais, fisiológicos e bioquímicos. A extração fenólica de subprodutos da amêndoa foi otimizada com sucesso usando a Response Surface Methodology (RSM), onde se estudou a variação de pH, diferentes concentrações de solvente e de tempos de extração, com o objetivo de reduzir os subprodutos da amêndoa gerados quer à colheita, quer durante o processamento industrial.

De forma a valorizar os subprodutos, foi estudada a sua composição fenólica em material proveniente de amendoeiras sujeitas aos diferentes regimes hídricos e durante os dois anos de estudo.

Os resultados sugerem que a composição fenólica dos cascarões é mais influenciada pela dotação de rega, enquanto que na película o maior efeito é obtido pelo ano. No entanto, a síntese de compostos fenólicos individuais parece ser mais influenciada pelo ano. Estes resultados contribuem para o conhecimento sobre o efeito da rega e da estação na composição fenólica dos vários subprodutos, permitindo eleger as melhores práticas agrícolas que contribuirão para o incremento dos compostos bioativos.

Os cascarões e a película da amêndoa exibiram ainda atividade antibacteriana contra estirpes bacterianas potencialmente patogénicas resistentes a múltiplos fármacos, mostrando um interesse potencial para estes subprodutos serem futuramente investigados e confirmados como agentes antibacterianos.

Certamente, será um passo em direção a novas alternativas de valor acrescentado para estes resíduos agroindustriais. Relativamente à produção e à qualidade de amêndoa, a maior variabilidade foi observada entre anos, sendo que a produção diminuiu em média 70% entre 2015 e 2016, enquanto o stresse hídrico influenciou a qualidade.

Mesmo que alguns parâmetros de qualidade da amêndoa aumentem nas árvores não regadas, as diferenças na produção do segundo ano de estudos revelaram o principal problema dos amendoais de sequeiro nas zonas semiáridas: produção irregular quando em condições aumente nas árvores não regadas, as diferenças na produção do segundo ano de estudos revelou ser o principal problema dos amendoais de sequeiro nas zonas semiáridas, i.e. produção irregular quando em condições de campo não controladas. Por outro lado, a aplicação de caulino não conduziu a uma melhoria do estado hídrico das amendoeiras; e, apesar de apresentarem um comportamento similar às árvores não-regadas, o caulino não mostrou ser prejudicial.

Ao abordarmos o objetivo de desenvolvimento de metodologias de monitorização da qualidade da amêndoa para ser usada na industrial alimentar, as regiões de near infrared (NIR) e mid infrared (MIR) foram avaliadas para produzir modelos quantitativos para a previsão de proteína bruta e conteúdo em aminoácidos no miolo de amêndoa.

O melhor modelo de previsão foi obtido com o NIR e FTIR, que mostrou ser usado com sucesso na determinação do conteúdo em proteína e aminoácidos em amêndoas. Finalmente, em relação às respostas fisiológicas e bioquímicas aos tratamentos, todos os parâmetros foram influenciados pela redução de água de rega, contudo, as árvores não exibiram stresse hídrico severo, mas apenas stresse hídrico moderado. O encerramento estomático é a principal limitação à realização da fotossíntese na amendoeira.

As diferenças observadas mostram a importância da água na produção de amêndoa comparativamente ao sequeiro. Dentro dos tratamentos da rega, os tratamentos do défice da rega não reduziram a produção e a qualidade geral comparativamente às plantas T100, não tendo um impacto negativo no desempenho global das amendoeiras.

Este trabalho foi financiado pelo Projeto “Estratégias Integradas para o aumento da produtividade da amendoeira em Trás-os-Montes, nº 54611, 2014 a 2018 e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, com o projeto UID/AGR/04033/ 2019.

  • Autoria: Iva Prgomet,1 Ana Paula Silva,1 António Castro Ribeiro, 2 Núria Pascoal-Seva,3 Berta Gonçalves,1 Ana Novo Barros1*
  • 1 Centro de Investigação e de Tecnologias Agro-Ambientais e Biológicas, UTAD, Portugal
  • 2 Centro de Investigação de Montanha, Instituto Politécnico de Bragança, Bragança, Portugal
  • 3 Departamento de Produção Vegetal, Universidade Politécnica de Valencia, Valencia, Espanha abarros@utad.pt