Agrociência

Pré-melhoramento – uma estratégia para o uso eficiente dos recursos genéticos vegetais

A investigação agrária deve adotar diversas estratégias, definir diferentes linhas de trabalho que tenham como foco principal contribuir para o fornecimento de alimentos para a população mundial em crescimento, i.e., deve contribuir para o aumento da produção de alimentos de qualidade com um consumo de fatores de produção não renováveis tão reduzido quanto for possível e tendo sempre em consideração as alterações climáticas em curso.

O melhoramento genético de plantas tem um importante impacto na produção de alimentos e continuará a desempenhar um papel vital na segurança alimentar mundial (Tester e Langridge, 2010), já que tem como objetivo principal disponibilizar aos agricultores plantas/variedades com elevada capacidade de adaptação ao ambiente e com características adequadas a um itinerário técnico eficiente.

Duma maneira geral, a obtenção de uma variedade vegetal/de uma variedade melhorada é um processo que deve respeitar várias fases:

1) Obtenção e caraterização da variabilidade genética;

2) Seleção de genótipos ou populações superiores, assim designadas porque possuem caraterísticas vantajosas;

3) Avaliação da adaptabilidade do material vegetal selecionado;

4) Inscrição no Catálogo Nacional de Variedades.

O pré-melhoramento vegetal compreende a identificação de características e genes de interesse em germoplasma exótico ou em populações que não foram submetidas a qualquer processo de melhoramento, e sua posterior incorporação em material vegetal de elite, i.e., em novas variedades para os agricultores. Faz, portanto, a ponte entre os trabalhos de obtenção de variabilidade genética e de estudos dos recursos genéticos e os programas de melhoramento de plantas.

Para o sucesso desta atividade o melhorador de plantas deve colaborar/estar coordenado com o Curador do Banco de Germoplasma.

Pré-melhoramento em Trevo-da-pérsia s.l. (sensu lato, incluindo Trifolium resupinatum e Trifolium suaveolens)

 O trevo-da-pérsia (Trifolium resupinatum L.) é uma leguminosa anual de ressementeira natural frequentemente utilizada em misturas para pastagens temporárias ou permanentes e também em misturas forrageiras, tanto em sequeiro como em regadio. Adaptado a solos sujeitos a encharcamento temporário e eutrofizados (Monteiro et al., 2014). Espécie adaptada a climas mediterrânicos. Cresce em diferentes tipos de solos. É uma espécie muito palatável e que pode fornecer elevados conteúdos em proteína e apresentar elevada digestibilidade.

Na Estação de Melhoramento de Plantas do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), no ano agrícola de 2016/17, procedeu-se à caracterização e avaliação da variabilidade genética existente nos acessos/ecótipos de Trifolium resupinatum L. (Tres) recoletados em Julho de 2016 nos distritos de Portalegre e Beja e pertencentes à coleção de germoplasma do INIAV para selecionar potenciais progenitores. Assim, conseguir-se-á integrar nova variabilidade genética nos programas de melhoramento desta espécie.

Caraterizaram-se 11 plantas individuais de 14 acessos/ecótipos. Os acessos foram designados:

– Tres 1 a Tres 6 –  são seis, originários do distrito de Beja;

– Tres 7 a Tres 14 – são oito, originários do distrito de Portalegre.

Utilizaram-se para o efeito 22 descritores específicos para esta espécie, construídos com base nos descritores Bioversity (Quadro 1).

Considerando que o trevo-da-pérsia é uma espécie alogâmica, i.e., que realiza preferencialmente polinização cruzada e que se pretendeu evitar intercâmbio de pólen/informação genética entre plantas e acessos, o ensaio experimental foi instalado no INIAV-Elvas numa estufa de rede anti insetos polinizadores.

Os dados foram tratados estatisticamente recorrendo ao programa SPSS para análise de variância e teste de separação de médias (teste Tukey).

Principais resultados

Evidenciou-se grande variabilidade entre acessos e dentro de cada acesso no germoplasma estudado. Para a maioria das variáveis estudadas, as diferenças entre acessos são altamente significativas (p<0,001).  


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– Valores da mesma coluna seguidos de letras diferentes apresentam diferenças estatisticamente significativas.

Parâmetros fenológicos

– Tres 1, Tres  2 e Tres 6 têm plantas muito vigorosas tanto no inverno como na primavera, ao contrário de Tres 7 e Tres 13.

– A diferença de dias entre o acesso mais precoce (Tres 3) e o mais tardio (Tres 8) é de 13 dias. O acesso mais precoce foi também o que apresentou um período de floração maior (54 dias).

Parâmetros morfológicos

– Os parâmetros comprimento, espessura e pigmentação do caule apresentaram muita variabilidade entre os acessos caraterizados. As duas características referidas em primeiro lugar podem condicionar o tipo de uso preferencial desta espécie, i.e., uso pratense ou forrageiro.

– Quanto ao tipo de folha e folíolo médio identificam-se dois grupos extremos: Curto e Estreito correspondente a Tres 1, Tres 5 e Tres 8 e Comprido e Largo correspondente a Tres 7 e Tres 10.

Tres – Inflorescência madura

Parâmetros Agronómicos

– Considera-se que a média da produção de semente por planta da maioria dos acessos foi muito interessante. A variação registada pode ser resultado da diferente percentagem de alogamia entre estes acessos.

 

Considerações preliminares

Os resultados revelaram material genético promissor para diferentes tipos de utilização. Por exemplo: Tres1 e Tres5 para misturas pratenses e/ou revestimentos: vigor invernal e primaveril elevados, ciclo precoce, folíolos curtos e estreitos, caules compridos e Tres7 e Tres 10 para misturas pratenses e/ou forrageiras: plantas vigorosas no inverno e primavera, ciclos intermédios, folíolos compridos e largos, caules compridos. Na perspetiva da realização de trabalhos de melhoramento genético, será necessário analisar a descendência destes genótipos.

Autoria: Teresa Carita Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. – Estação de Melhoramento de Plantas

Referências Bilbiográficas:

Monteiro, A., Ribeiro, S., Vasconcelos, T., Costa, J. C., Simões, M. F., Falcão, L., Martins, C, Freire, J. B., 2014. Plantas Forrageiras de Pastagens de Altitude. Lisboa: ISA Press.

Tester M., Langridge P.(2010). Breeding technologies to increase crop production in a changing world. Science, 327:818–822.