Agroindústria Hortofruticultura

Indústrias que trabalham com a Torriba manifestam uma gradual apetência pelo produto nacional

São entre 6500 e 7000 hectares e uma centena de produtores que tornam a Torriba uma organização de produtores quase exclusivamente vocacionada para a o setor agroindustrial. Sobre a campanha no terreno, é de registar que os meses de abril e maio registaram uma precipitação muito anormal, o que dificultou o escalonamento das culturas com a oportunidade de instalação.

A vasta área de culturas agroindustriais com que a Torriba trabalha pode ser dividida em três grandes grupos, enumera o responsável pela OP, Gonçalo Escudeiro. O primeiro, mais representativo em termos de área e da atividade da Torriba, é o tomate de indústria, que aliás esteve na génese da organização. Serão entre 50 a 60 agricultores que produzem na ordem dos 2300 hectares de tomate de indústria. O segundo grande grupo de produção reporta-se às culturas hortoindustriais cujo destino é o mercado de produto congelado e aqui a lista é extensa, desde o pimento, ervilha, brócolo, curgete, beringela (…) e mais recentemente a batata-doce. Um mercado onde se tem registado um crescimento significativo e bastante representativo para a Torriba. Há ainda um terceiro grande grupo ligado a produtos para transformação que funcionam como snacks, como a batata, para a indústria de batata frita, e o amendoim.

Estes agricultores produzem essencialmente para indústrias sediadas na região, para além de uma sediada no Alentejo e outra na região de Aveiro e todas têm vindo a verificar uma crescente apetência pelo produto nacional, admite Gonçalo Escudeiro. E a escolha do produto nacional prende-se com várias razões distintas, “desde logo porque dentro da Europa é das regiões mais precoces na produção de hortoindustriais. Depois, fruto de estarmos próximos da região atlântica, os produtos entram em processo de maturação de uma forma muito equilibrada, que leva a que tenham características intrínsecas muito interessantes – cor e sabor. Outra razão é a diversidade de solos, que permite trabalhar durante uma grande parte do ano e que é um atrativo para as indústrias, verificando-se que todas elas cresceram em capacidade de transformação e a congelação”. Outra nota é que, sendo uma das regiões mais precoces da Europa regista-se também o interesse por estes produtos por parte de empresas estrangeiras, nomeadamente espanholas, belgas e italianas.

Antes de cada campanha há um intenso trabalho de cooperação entre a indústria, a OP e o produtor

As decisões sobre o que plantar e que variedades utilizar resultam normalmente de um intenso trabalho de cooperação entre a indústria, a OP e o produtor. É a partir dessa avaliação que são definidos os programas de plantação, num plano muito ajustado entre as necessidades de ambas as partes. A cada campanha há sempre novidades, seja a nível de variedades, dos próprios produtos, ou até no modo de produção (…), fruto de uma dinâmica que a cada ano se ajusta em função daquilo que os mercados querem, mas adaptado do ponto de vista agronómico.

Como cerca de 95% da produção dos associados da Torriba se destina ao mercado da transformação, as várias campanhas são todas contratadas e definidas antes do processo de instalação, pelo que, as culturas que estão agora a ser colhidas (maio), como é o caso da batata para indústria, ervilha e brócolo já estavam definidas antes ter começado este momento que atravessamos (pandemia). Gonçalo Escudeiro também vê alguma vantagem nestes produtos em relação aos frescos face ao atual momento que vivemos porque aquilo que se pretende com a sua transformação é dar-lhes longevidade (mais tempo de vida). Todavia, a “situação pode vir a ser diferente, porque se há um determinado produto que vai para transformação e não é consumido nos próximos meses, nas campanhas seguintes haverá necessidade de a indústria fazer correções tendo em conta a perceção do que o mercado vai pedindo e do que está em stock”.

Chuvas de abril e maio condicionaram o bom desenrolar da campanha no terreno

Sobre a campanha no terreno, é de registar que os meses de abril e maio registaram uma precipitação muito anormal, o que dificultou o escalonamento das culturas com a oportunidade de instalação. Assim, por exemplo a cultura da ervilha, “que apresentava um potencial extraordinário até ao final do mês de março, com as chuvas de abril e de maio perdeu-se produção em virtude do excesso de humidade e será um dos anos mais fracos de ervilha nos últimos anos”.

À data desta entrevista a chuva causava também apreensão relativamente às culturas em fase de instalação, porque não estava a ser possível avançar para o terreno, tal como já se antevia dificuldade no controlo de infestantes e preocupação com possíveis doenças do solo e asfixia radicular nalguns campos em resultado da impossibilidade de fazer as intervenções necessárias.

Um ano muito exigente para os produtores

“Está a ser um ano exigente para o produtor, por várias razões e tanto as organizações como as indústrias devem estar bastante orgulhosas do seu tecido produtivo porque num momento de grande ansiedade e incerteza para toda a sociedade, não baixou os braços e avançou”, afirma ainda assim Gonçalo Escudeiro, que se refere aos produtores associados da Torriba como extremamente profissionais. “Estes produtores são o ‘cartão de visita’ da Torriba”.

Mas, esta resiliência não invalida que paire uma grande preocupação no setor dado que são culturas de grande investimento e obrigam a uma grande capacidade de resposta, quer seja financeira quer seja técnica e neste momento, na visão de Gonçalo Escudeiro, não tem ao seu dispor todos os instrumentos de gestão de risco. “Quando trabalhamos com produtos com alto investimento por hectare, todos os instrumentos de gestão de risco que estão previstos na Europa devem ser colocados à disposição da atividade agrícola nacional. Esses instrumentos estão previstos, muitos deles financiados pela União Europeia e se viermos a necessitar não temos como recorrer, o que confere uma enorme fragilidade ao setor agrícola e nomeadamente ao das agroindústrias.

Dentro das organizações que integra a Torriba tem vindo a fazer pressão para que, enquanto Estado-Membro, Portugal veja esses instrumentos de risco refletidos na Política Agrícola Comum, mas até agora com pouca resposta”. O dirigente reporta-se a outras situações que carecem de reajuste à agricultura nacional, nomeadamente os seguros de colheita, do ponto de vista dos riscos que contemplam.

O responsável avança que neste momento há também uma grande preocupação sobretudo com os produtos que se destinam ao mercado HORECA – restauração. Já os produtos mais dependentes da compra direta dos consumidores nos supermercados, admite que o impacto nesta fase não é tão grande. “O futuro vai depender muito da evolução desta pandemia e de como irão decorrer os próximos anos. Mas, acredito que passada esta crise, e o mais rapidamente possível, vamos continuar a crescer, como temos vindo a crescer com praticamente todos os produtos de transformação, porque trabalhamos com produtos muito controlados e cuja qualidade é reconhecida quando chegam à mesa dos consumidores e pela própria comodidade que estes produtos lhe levam”.