Editorial

A imprevisibilidade é cada vez mais um fator a ter em conta

É sabido que toda a economia regista determinados picos de trabalho tradicionalmente localizados em certas épocas do ano, situação que cria inevitavelmente algumas dificuldades de gestão, mas que já nos acostumámos.

“O que não estamos entretanto tão habituados é ao surgimento de determinados fenómenos que por não conseguirmos controlar tornam a imprevisibilidade cada vez mais um fator a ter em conta nos dias de hoje. O setor agrícola apesar destas e de outras condicionantes, tem vindo a acompanhar a evolução dos tempos e tem sabido responder cabalmente à grande procura mundial de alimentos quer em quantidade quer em qualidade. Por incrível que possa parecer, hoje produz-se mais e melhor, com menos gente nos campos agrícolas, um cenário que reflete bem desde logo, o grande investimento tecnológico que tem vindo a ser feito no setor, apesar de também não conseguir fugir à regra, acabando naturalmente por “sentir na pele” os efeitos da imprevisibilidade.

Nunca é demais sublinhar que o setor primário tem características muito próprias, pois ao contrário de muitos outros, este ao desenvolver-se essencialmente a céu aberto, vive inevitavelmente com muitas variáveis difíceis ou mesmo impossíveis de controlar, como é o caso do clima por exemplo, que pode deitar tudo a perder quando as suas irregularidades se acentuam sobretudo com determinados fenómenos atmosféricos.

Refira-se também que a falta de mão de obra é hoje em dia muito sentida fundamentalmente pela típica sazonalidade de alguns trabalhos agrícolas, sendo uma das causas apontadas o facto do trabalho no campo não ser suficientemente apetecível para muita gente, sobretudo para os mais jovens.

É verdade que tem havido toda uma preocupação, com resultados visíveis na adaptação de culturas e formas de produção por parte dos empresários agrícolas no sentido de mitigar esta situação. As culturas intensivas estão a proliferar cada vez mais, e não obstante serem alvo de algumas críticas vindas de determinadas organizações de defesa do ambiente, são sem dúvida uma forma de contornar o problema graças à evolução tecnológica.

Sabendo entretanto que o avanço da mecanização não evitará de todo a necessidade de trabalho assalariado, é importante que as políticas de emprego sejam alvo de revisão, para que as motivações venham ao de cima e os jovens passem a ver o setor primário com outros olhos, considerando-o como elemento fundamental na alavancagem da economia de um país. Não sendo para já, pelo menos que o seja para as gerações vindouras.

Paulo Gomes, Diretor / Edição (nº 239 – Julho 2020).