Grande Entrevista

Projeto INCREASE quer tornar as leguminosas mais acessíveis

O INCREASE – projeto de investigação sobre recursos genéticos de leguminosas para sistemas agroalimentares europeus – envolve 28 instituições de 14 países europeus e em Portugal é conduzido pelo Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), laboratório associado da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Em entrevista à Voz do Campo a coordenadora das atividades do projeto no CBQF, Marta Vasconcelos, detalha o projeto.

Marta Vasconcelos, coordenadora das atividades do projeto no Centro de
Biotecnologia e Química Fina (Escola Superior de Biotecnologia) da Universidade
Católica Portuguesa, no Porto

Como é que se caracteriza o projeto INCREASE?

Os bancos de recursos genéticos são locais onde podemos encontrar milhares de variedades das nossas culturas agrícolas que podem ter características muito importantes não só para os agricultores (por serem, por exemplo, mais produtivas ou resistentes a fatores ambientais), como também para os consumidores (por terem, por exemplo, mais nutrientes) ou para a indústria alimentar (por guardarem variedades que podem ter características de processamento e qualidade muito interessantes).

Mas, tradicionalmente, estes bancos de recursos genéticos trabalham um pouco distantes dos cidadãos comuns, estando mais direcionados para a comunidade científica. O projeto INCREASE pretende aproximar os cidadãos (agricultores, consumidores, estudantes, etc.) a estes recursos genéticos, desenvolvendo coleções “inteligentes” de leguminosas mais acessíveis aos utilizadores e criando uma nova forma de valorizar e distribuir as variedades de quatro leguminosas na Europa: o grão-de-bico, a lentilha, o tremoço e o feijão.


Qual é o papel do CBQF neste projeto?

A Universidade Católica Portuguesa (Porto), no seu Centro de Biotecnologia e Química Fina, contribuirá para a avaliação da qualidade nutricional e tecnológica das leguminosas, para a compreensão das bases bioquímicas e fisiológicas da absorção, transporte e armazenamento de nutrientes e para o delineamento de programas de melhoramento genéticos que visarão produtos de qualidade e alimentos mais saudáveis. A UCP-CBQF será, ainda, responsável pela organização, dinamização, e implementação de uma experiência de Ciência do Cidadão.

Esta atividade testará a viabilidade de uma abordagem participativa e descentralizada para a conservação da biodiversidade, através da distribuição de mil variedades de feijão a mil participantes na Europa. Estes participantes receberão um “kit” que incluirá a descrição de algumas destas variedades, instruções em como plantar as sementes e uma aplicação de telemóvel, onde poderão registar todas as suas observações e experiências ao crescer estas variedades. Planeamos começar a selecionar os participantes no outono deste ano, para que as sementes possam começar a ser distribuídas no início de 2021.


Qual é o principal foco da investigação nas quatro culturas, ou seja, quais as “deficiências” que vão ser colmatadas?

As leguminosas merecem muito mais atenção nos programas de investigação nacionais e europeus. São culturas importantíssimas para a preservação da biodiversidade, para a alimentação humana e animal (nomeadamente na promoção de dietas mais sustentáveis) e podem reduzir a necessidade de aplicação de fertilizantes, ajudando a responder a várias metas europeias que visam a boa utilização dos nossos recursos. No entanto, devido a vários fatores sociotecnológicos, têm sido bastante negligenciadas nas dietas europeias e em programas de melhoramento, o que levou a uma redução no seu cultivo e consumo. O facto de nos termos focado em quatro culturas de leguminosas foi estratégico. O projeto vai beneficiar dos resultados e recursos de outros projetos europeus anteriores onde estas culturas foram trabalhadas e onde se identificaram as necessidades de colmatar algumas deficiências, nomeadamente a nível da sua caracterização a fundo em termos nutricionais ou do desenvolvimento de programas de melhoramento que as tornem mais competitivas face aos cereais, por exemplo. Estas quatro leguminosas estão muito bem posicionadas para servirem como estudo de caso.

NOTA: Os potenciais interessados em colaborar neste projeto podem entrar em contacto com a investigadora. Não estão definidas áreas mínimas ou máximas de cultivo.