Inovação

Novas estratégias para combater os problemas de sempre

“… as alterações climáticas apenas constituem uma das muitas pressões a que a agricultura está sujeita.

Perante o crescimento da procura e da competição pelos recursos, a produção e o consumo de alimentos na UE têm de ser inseridos num contexto mais vasto, interligando agricultura, energia e segurança alimentar.” (retirado do site da Agência Europeia do Ambiente, publicado em 2015-09-24, modificado pela última vez 2019-12-10).

Se este era um assunto atual em 2015, pois continua a ser em 2020, e seguramente continuará a sê-lo no futuro.

Todos sabemos que a produção agrícola é fortemente afetada pelo clima, o que a torna um dos setores mais vulneráveis. No sul da Europa, por exemplo, as vagas de calor e a diminuição da precipitação, influenciam a produtividade das culturas e o rendimento agrícola, causando perdas económicas significativas devido a fenómenos meteorológicos extremos, cada vez mais frequentes.

Estas alterações também podem influenciar a proliferação de espécies infestantes, pragas ou doenças, que serão uma variável no rendimento das culturas.

O crescimento demográfico previsto para as próximas décadas e a alteração dos hábitos alimentares, são também apontados como mais uma responsabilidade “às costas” da agricultura. Aumentar a área agrícola à custa de um elevado impacto ambiental, também não parece ser a solução. Na Europa, as terras com aptidão agrícola já estão a ser utilizadas e, tal como no resto do mundo, terras férteis, são um recurso limitado.

Portanto, a agricultura da União Europeia tem de ser capaz de produzir alimentos que cumpram as exigências de segurança alimentar, em quantidade suficiente para responder ao aumento da população, de uma forma sustentável e respeitando o ambiente.

Felizmente, graças ao desenvolvimento e investigação, vão surgindo soluções que podem fazer parte da resposta a estes problemas de sempre.

O melhoramento, desde os primórdios da “domesticação” das plantas, tem sido o principal responsável pelo aumento de produtividade das culturas agrícolas. Num contexto de produção sustentável num clima em constante mudança, aliado a restrições quanto à utilização de fitofármacos e fertilizantes, surgem ferramentas passíveis de ajudar na produção de alimentos, capazes de revolucionar as metodologias aplicadas no melhoramento de plantas.

As chamadas Novas Técnicas de Melhoramento (NBT abreviatura inglesa para “New Breeding Techniques”), têm vindo a ser implementadas com o objetivo de desenvolver novas variedades de plantas mais adaptadas às condições do meio onde serão cultivadas. Estas NBT permitem também acelerar o programa de melhoramento, tornando possível a obtenção de variedades em muito menos tempo e com menos recursos.

Outro aspeto a ter em conta para conseguir contornar todas estes desafios que a agricultura enfrenta, é a importância da valorização do nosso património genético. As nossas variedades autóctones, que como tal, pressupõem melhor adaptação, sob o ponto de vista agronómico às nossas condições edafo-climáticas, poderão ser valiosas ferramentas no combate às alterações climáticas. Esta riqueza genética, só fará sentido quando chegar às mãos dos nossos agricultores para que possam tirar o máximo proveito das suas potencialidades.

Para valorizar todos estes recursos genéticos, é fundamental termos à disposição meios que possibilitem a aplicação destes recursos para obtenção de variedades adaptadas, para que as empresas portuguesas possam criar soluções que encaixem perfeitamente nas medidas apresentadas recentemente pela Comissão Europeia, no âmbito do Pacto Ecológico, relativamente às alterações climáticas.

A crise que atualmente atravessamos com a pandemia, deveria fazer-nos refletir sobre a importância de todas as medidas que possam contribuir para a redução de dependência do exterior em termos de fatores de produção (como as sementes), para o aumento das exportações agrícolas (que é sem dúvida, de extrema importância para o setor) e para a valorização do produto nacional.

Porque o maior desafio da humanidade permanece igual desde a sua origem: a produção de alimentos.

Autoria: Silvia Benquerença

ANSEME