Cereais

Paiva – uma variedade de trigo mole do Programa de Melhoramento Genético de Cereais do INIAV

Figura 1: Aspeto geral da variedade de trigo mole Paiva

Os fatores ambientais que poderão afetar tanto a produção como a qualidade do grão, são diversos, desde a disponibilidade de nutrientes, aos stresses térmico e hídrico, tão frequentes em climas mediterrânicos como o do nosso país, em que a ocorrência de situações extremas (temperaturas elevadas com acentuados constrangimentos hídricos) é bastante comum.

A irregularidade do clima mediterrânico é a principal responsável pela dificuldade em garantir estabilidade ao nível da produção, gerando também, frequentemente inconsistência na qualidade do trigo.

O melhoramento genético de cereais desenvolvido pelo INIAV-Elvas tem procurado sempre criar e selecionar as combinações genéticas mais adequadas para satisfazer dois objetivos: produtividade e qualidade na vertente valor de utilização.

A variedade de trigo mole Paiva é exemplo disso, possuindo um padrão de qualidade adequado às necessidades da indústria moageira, sendo classificada na LVR (Lista de Variedades Recomendadas) como trigo semi-corretor.

Metodologia Experimental

A variedade Paiva, foi avaliada em ensaios nos campos experimentais do INIAV-Elvas e do IPBeja/ESA, durante cinco anos, com o intuito de compreender a sua capacidade de resposta, em termos de produção e qualidade panificável, face à variabilidade interanual do clima mediterrânico das principais zonas produtoras de cereais (Alto e Baixo-Alentejo). Utilizou-se uma densidade de sementeira de 350 grãos viáveis/m2, seguindo-se um itinerário técnico, nos dois locais, adequado ao ano: 165 unidades de azoto anual, distribuídas em fundo e em 3 ou 4 aplicações de cobertura; fungicida, herbicida e sempre que necessário inseticida. O recurso a regas suplementares ocorreu de forma a manter a cultura em conforto hídrico.

Avaliaram-se diversos parâmetros relacionados com a produção e a qualidade do trigo mole, nomeadamente, Produção, Peso de mil grãos (PMG), Peso do Hectolitro (Hec), Proteína (Prot), Glúten Húmido (GH), Força (W), Tenacidade (P)e Extensibilidade do alveógrafo (L).

Clima

As Figura 2 e 3 apresentam os padrões climáticos dos cinco anos agrícolas em que decorreram os ensaios (Elvas e Beja, respetivamente): 2014/15 – A precipitação total durante a campanha foi de 377 mm em Elvas e 263 mm em Beja, ocorrendo de forma irregular, com bastante incidência no mês de novembro, nos dois locais e em abril, apenas em Elvas. As temperaturas máximas nos meses de primavera foram bastante elevadas, com 21 dias acima dos 30°C em Elvas e 19 dias acima dos 30°C em Beja.

2015/16 – Foi um ano com um total de precipitação de 387 mm em Elvas e 399 mm em Beja durante o ciclo, distribuída ao longo do inverno e primavera, e, grande incidência em maio. Inverno e primavera amenos, sem os valores das máximas a originarem qualquer tipo de stresse térmico nas plantas.

2016/17 – A precipitação total durante a campanha foi de 364 mm em Elvas e 324 mm em Beja, ocorrendo de forma irregular e muito reduzida durante o período de enchimento do grão. Nesta fase, as temperaturas constituíram episódios de stresse térmico para o trigo, com 14 dias acima dos 30°C em ambos os locais, e, muitos dias acima dos 25°C.

Figura 3: Registo das temperaturas máxima e mínima e da precipitação (médias mensais) ocorridas nas cinco campanhas em Beja.

2017/18 – Foi um ano agrícola chuvoso, com um total de 576 mm em Elvas e 581 mm em Beja, com grande incidência de precipitação na primavera. A primavera foi amena com apenas 1 ou 2 dias acima dos 30°C durante o período de enchimento do grão.

2018/19 – O ano agrícola foi seco durante o inverno e primavera, com um total de 260 mm em Elvas e 246 mm em Beja. O período primaveril foi bastante quente, com 13 dias acima dos 30°C em Elvas e 15 dias acima dos 30°C em Beja durante o enchimento do grão, e, muitos dias acima dos 25°C nos dois locais.

Resultados

A produção mostrou alguma variação (5969-8527 kg/ ha) em função do ano (Tabela 3). Em Elvas os anos mais temperados e com uma distribuição mais equilibrada da precipitação (2015/16 e 2017/18) favoreceram este parâmetro agronómico, contudo em Beja não se observaram diferenças tão acentuadas.

Tabela 3: Influência do ano e do local nos valores de produção, peso de mil grãos (PMG) e do hectolitro (Hec) da variedade Paiva. Os resultados apresentados correspondem à média de três repetições da variedade Paiva (cima) e média geral do ensaio (baixo).

O peso de mil grãos e o hectolitro mostraram uma enorme influência do ano, do local e da interação entre ambos (Tabela 3). Em Elvas, os maiores valores de peso de mil grãos ocorreram em 2015/16, um dos anos mais temperados, obtendo-se valores bem mais reduzidos nos anos posteriores: em 2016/17 e 2018/19 as temperaturas elevadas verificadas durante o período de enchimento do grão penalizaram a taxa de deposição de amido e consequentemente o peso do grão; em 2017/18, em Elvas, a produção esteve relacionada não com o peso do grão mas com o número de grãos/m2 (dados não apresentados); os 251 mm registados em março favoreceram a fertilidade da espiga contribuindo para um aumento do número de grãos em detrimento do seu peso. Em Beja, em 2016/17, o elevado número de dias com temperaturas acima de 30°C, durante os meses de abril e maio, parecem ter penalizado o peso do grão (39,3 g).

O peso do hectolitro, parâmetro que depende da variedade, das condições ambientais ocorridas e das técnicas culturais, é um bom indicador da adaptação varietal. Registou valores bastante aceitáveis (79,7-85,1 kg/hl), tendo sido, normalmente, superior em Beja. Praticamente todos os parâmetros de qualidade analisados foram significativamente influenciados pelo local e pelo ano, sendo a interação entre ambos significativa para a proteína, força e tenacidade (Tabela 4).

Quanto à proteína, os valores em Elvas foram geralmente superiores aos de Beja, devido a uma maior disponibilidade de azoto durante o enchimento do grão, ou seja, um menor efeito de diluição da proteína fruto dos menores rendimentos em grão. O glúten e a força do alveógrafo, indicadores do teor e qualidade do glúten, seguiram a mesma tendência da proteína com maiores valores em Elvas, sendo indicadores de um elevado potencial de qualidade da variedade. O stresse térmico que ocorreu em alguns anos durante o desenvolvimento do grão afetou a qualidade. Aumentos das temperaturas médias diárias até 30°C conduzem a um aumento progressivo da força da massa, mas a sua manutenção prolongada acima deste limite produz um detrimento da força (tal como aconteceu em 2014/15 nos dois locais). Este efeito é uma consequência da alteração da proporção dos diferentes tipos de proteínas que constituem o glúten (gluteninas vs gliadinas) e do tamanho dos polímeros de gluteninas.

Tabela 4: Influência do ano e do local nos valores de proteína (Prot), glúten (GH), e parâmetros do alveógrafo (W, P e L) da variedade Paiva. Os resultados apresentados correspondem à média de três repetições da variedade Paiva.

Os três efeitos conjugados, menor teor proteico, stresse térmico durante o desenvolvimento do grão e momento da síntese proteica em que ocorreu o stresse, estarão na origem dos piores valores de qualidade observados em Beja. Em Elvas a extensibilidade das massas foi, geralmente, superior a Beja (Tabela 4), possivelmente devido aos maiores teores proteicos do grão. Esta tendência também se observou em relação à tenacidade em 2015/ 16 e 2016/17, não havendo diferenças acentuadas entre os dois locais nos restantes anos. Estas diferenças refletem-se na relação P/L (0,3 a 0,9) que se manteve sempre dentro dos limites recomendados pela indústria (P/L < 1).

Conclusão

O melhoramento genético de cereais desenvolvido pelo INIAV-Elvas continua a possibilitar a criação de novas variedades ajustadas às condições agro-económicas do sistema de produção de cereais em Portugal e a disponibilização das mesmas aos agricultores nacionais. Exemplo disso, é a variedade de trigo mole Paiva, cujos resultados analisados ao longo destes 5 anos, mostram que possui elevada plasticidade de adaptação para as condições agroclimáticas do sul de Portugal. O trigo mole Paiva encontra-se, neste momento, a iniciar o processo de venda dos seus direitos de comercialização através de convite público às empresas que comercializam sementes em portugal.

Autoria:

  • Bagulho, A.S.1,2, Costa, R.1,3,Pinheiro, N.1 , Gomes, C.1 , Moreira, J.1 , Almeida, A.S.1 , Coutinho, J.,1 Costa, A.1 , Coco, J.1 , Patanita, M.2,4, Dôres, J.4 , Costa, M.N.4 , Maçãs, B.1 1 INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Polo de Elvas, MADRP 2 GeoBioTec – Universidade Nova de Lisboa, Campus da Caparica 3 ICAAM – Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas, Universidade de Évora, Núcleo da Mitra 4 IP. Beja/ESA –Departamento de Biociências, Instituto Politécnico de Beja.