Agrociência Hortofruticultura

Algumas notas sobre desenvolvimento de ‘Carepa’ na maçã

Introdução:

A carepa “russeting” é um conjunto de alterações superficiais da zona epidérmica das maçãs e pêras. Não é mais do que um sintoma, resultante de uma resposta da epiderme dos frutos a um agente exterior ou interior (climatológico, patológico, tratamento fitossanitário ou de condições nutritivas da árvore).

Estes agentes causam uma coloração rosada do fruto característica da carepa, que substitui a epiderme afectada da zona superficial do fruto. Este alteração fisiológica pode afectar várias variedades, tais como a Fuji, a Gala (fig. 1) e com maior incidência na variedade Golden Delicious (fig.2).

Figura 1: Aspecto da carepa em Gala        Figura 2: Aspecto da carepa em Golden

Período de sensibilidade

Coincide com o período de intensa divisão celular da epiderme dos frutos que se verifica após a floração. Este período inicia-se com o início da floração e atinge o máximo entre os 10-20 dias após o vingamento dos frutos.

Factores que favorecem o aparecimento da carepa

  • Factores Genéticos
  • Factores Climáticos
  • Factores Patológicos
  • Factores Nutricionais
  • Outros

Factores genéticos

Características varietais:

  • Golden Delicious e Reinetas

Mutações da Golden: o caso de variedades pouco sensíveis à carepa, como sejam a Golden Supreme, a Lysgolden, a Belgolden e a Ed Gould Golden, segundo Ignacio Iglesias Castellarnau.

Polinização e Fecundação: no caso da variedade Golden Delicious, uma má polinização e fecundação conduzem muitas vezes a um aumento da taxa de carepa nos frutos. São frutos que possuem um pequeno número de sementes (1 ou 2). Assim frutos menos polinizados são os mais afectados pela carepa e assim há uma relação muito estreita entre esta e o nº de sementes existentes, como se pode observar no quadro 1.

Porta – enxertos:

É importante a escolha do porta-enxerto, no que se refere à sua resistência à asfixia radicular, assim como a sua afinidade com o garfo, que se reflectem no vigor das árvores e logo no bom equilíbrio entre a parte vegetativa e os frutos, que assim são bem alimentados e se tornam mais resistentes à carepa.

Factores climáticos

Os mais importantes são o frio com a formação de anéis (figura 3) e de sulcos rugosos nas maçãs pardas (figura 4) e a humidade do ar, os quais são os que provocam maiores estragos nas Golden. É nas zonas baixas e menos ventiladas, que a carepa aparece com maior intensidade.


Factores patológicos

Algumas doenças como são o caso do oídio (Podosphaera leucotricha), que é um fungo ectoparasita que por vezes se desenvolve nos jovens frutos, provocando feridas na epiderme, as quais são substituídas por zonas com carepa. A presença de viroses nas Golden Delicious, como é o caso do Ruset Ring, Star Ckak ou o Russet War.


Tratamentos fitossanitários

As intervenções realizadas em forma de pós molháveis e especialmente nos períodos de maior sensibilidade, causam um maior risco de desenvolvimento de carepa, assim como a mistura de muitas matérias activas, em que muitas vezes não é conhecida a compatibilidade entre elas.

Há indicações que o cobre pode causar estas alterações, especialmente em condições frias e húmidas e quando aplicado nos estados fenológicos H e I.


Factores nutricionais

A influência dos nutrientes não parece ter grande importância no desenvolvimento da carepa, mas acaba por haver alguma correlação positiva e negativa entre o teor de alguns elementos nutritivos e o aparecimento da mesma.

Assim quanto aos macronutrientes, o desequilíbrio na relação azoto / potássio, quando aumenta o azoto, favorece a carepa e o mesmo acontece quando há carência de fósforo e excesso de magnésio.

Quanto aos micronutrientes, as carências de boro e zinco podem ser responsáveis pelo aparecimento desta alteração.


Outros factores

O excesso de água no solo, que provoca a asfixia radicular é uma condição muito favorável à carepa.

A rega por aspersão na luta anti-gelo, no que diz respeito à qualidade da água e em particular ao seu teor de ferro pode influenciar o desenvolvimento da carepa.

Os frutos mais expostos às más condições climáticas estão mais sujeitos a esta fisiopatia.


Medidas a tomar na prevenção da carepa

  • Durante o período de sensibilidade, nos meses que se seguem à floração, é conveniente evitar a utilização de matérias activas que possam provocar carepa, como é o exemplo do cobre.
  • Evitar misturas de muitos produtos fitossanitários.
  • Manter um bom estado nutricional e sanitário dos pomares.
  • Utilizar porta enxertos resistentes à asfixia radicular.
  • Trabalhar com material em boas condições sanitárias, especialmentes ausentes de viroses.
  • Assegurar uma boa polinização e uma presença de insectos polinizadores nos pomares.

Tratamentos anti-carepa

Os tratamentos devem ser preventivos e teoricamente devem reforçar a epiderme dos frutos, de maneira a torná-la mais resistente aos factores indutores desta fisiopatia.

Tratar durante o período de máxima sensibilidade da floração ao fruto vingado, que corresponde a um fruto de calibre de 8-16 mm, que aparecem às três semanas posteriores à floração.

Algumas matérias activas tem sido utilizadas, como é o caso do enxofre, que ao mesmo tempo combate o oídio e o pedrado.

As Giberelinas aplicadas entre o período da floração e os 20 dias depois, reduzem a carepa (Taylor, 1975). Por outro lado quando aplicadas durante o Verão, reduzem os fendilhamentos tardios.

Bibliografia consultada:
CTIFL, Centre Technique Interprofessionnel de fruits et legumes – Le pommier, 2002 IGLESIAS CASTELLARNAU I. – El Russeting de las Manzanas, 1993 INRA – La rugosité des pommes et des poires, 1977 TAYLOR, B.K. – Reduction of apple skin russeting by gibberellin, 1975

Autoria:

  • António Pedro Tavares Guerra
  • Engenheiro Técnico Agrário Licenciado em Engenharia Agro-Pecuária
  • Formador e Consultor Técnico em Nutrição Vegetal
  • *Escrito ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico