Agroindústria Cereais

O caminho é avançar para produtos pelos quais a indústria ou a distribuição estejam dispostos a pagar um preço superior

Atingir um grau de autoaprovisionamento de 80% no arroz, 50% no milho e 20% nos cereais praganosos num horizonte de cinco anos foram os primeiros objetivos traçados para a Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais.

Tornada pública em 2018, a Estratégia foi delineada num momento em que o país assistia a uma acentuada diminuição da produção de cereais, assim como tinha uma baixa taxa de aprovisionamento do país, mas também à perceção da importância dos cereais da dieta alimentar e o potencial da produção cerealífera.

Apesar das limitações que temos em termos de competitividade face ao produto importado, a situação poderá ser invertida e as metas em termos de autoaprovisionamento definidas na Estratégia (38%) são perfeitamente exequíveis

O coordenador do Grupo de Trabalho (Gabinete de Planeamento e Políticas) que esteve na base da definição desta Estratégia, Luís Souto Barreiros, acredita que “apesar das limitações que temos em termos de competitividade face ao produto importado, a situação poderá ser invertida e as metas em termos de autoaprovisionamento definidas na Estratégia (38%) são perfeitamente exequíveis.

Temos de intervir em várias áreas, no entanto, por muito que consigamos ser mais eficientes e que diminuam os custos de produção, dificilmente seremos competitivos em termos de preço com o produto importado”. Perante este facto, de acordo com o mesmo “a alternativa é a diferenciação e a produção de produtos para os quais a indústria ou distribuição estejam dispostos a pagar um preço superior.

Tirando partido da crescente valorização por parte do consumidor da origem nacional e regional, e das compras de proximidade e com rastreabilidade definida. Neste quadro, surgem novos mercados de que são exemplos a cevada para malte, o milho pipoca, o pão de cereais regionais ou os cereais com baixos teores em pesticidas. Um excelente exemplo são as várias iniciativas que tem surgido entre a produção, a indústria e a distribuição no lançamento de produtos feitos com cereais nacionais, pão, massas, cerveja, entre outros e na valorização da origem nacional junto do consumidor”.

Veja-se o exemplo da marca “Cereais do Alentejo”, fruto do trabalho de várias entidades, nomeadamente o Clube Português de Cereais de Qualidade e a ANPOC e que começou por uma referência no pão, mas entretanto já está espelhada noutros produtos, como massas e até cerveja (pp. 34 e 35).

O Programa de Melhoramento do Arroz Portuguê já possibilitou a inscrição de três variedades nacionais no Catálogo Nacional de Variedades

A preocupação com a revitalização da produção nacional e valorização da diferenciação tem estado sempre presente em ações como o Programa de Melhoramento do Arroz Português, sob alçada do Centro Operativo e Tecnológico do Arroz – COTArroz, que já possibilitou a inscrição de três variedades nacionais no Catálogo Nacional de Variedades, como explica a sua direção em Entrevista, onde aprofunda um pouco mais as suas competências (pp. 22 a 26).

Variedade de trigo mole Paiva possui um padrão de qualidade adequado às necessidades da indústria moageira e resulta do melhoramento genético de cereais desenvolvido pelo INIAV

Referência igualmente para a Lista de Variedades Recomendadas de Trigo de Qualidade que resulta de um trabalho conjunto da produção nacional, investigação e a Indústria e que tem por objetivo classificar anualmente as variedades de trigo mais adequadas aos interesses tanto da indústria como da produção.

Mais à frente pode conhecer-se a variedade de trigo mole Paiva, que possui um padrão de qualidade adequado às necessidades da indústria moageira, sendo classificada na LVR (Lista de Variedades Recomendadas) como trigo semi-corretor e que resulta do melhoramento genético de cereais desenvolvido pelo INIAV-Elvas que tem procurado sempre criar e selecionar as combinações genéticas mais adequadas para satisfazer dois objetivos: produtividade e qualidade na vertente valor de utilização (pp. 37 a 39).

No caso da cevada dística, a produção e a indústria têm trabalhado de mãos dadas e há mais de 10 anos foi criado o Comité de Cevada e Malte dos Cervejeiros de Portugal que anualmente emite um Boletim com as variedades de cevada aprovadas e em estudo, constituindo-se um instrumento de estruturação e desenvolvimento da fileira.

Na última edição da Voz do Campo a Maltibérica referia a aposta da empresa na cevada dística portuguesa desde a primeira hora, assim como “procurando sempre aumentar a fração de aprovisionamento de matéria-prima nacional”. Também a Central de Cervejas traçou um caminho semelhante e que resultou no recente lançamento da ‘Bohemia Pilsener Cevada do Alentejo’, que como o nome indica é feita exclusivamente a partir de cevada do Alentejo (p. 36) Voltando à ENPC, algumas das medidas previstas no Plano já se encontram totalmente operacionalizadas e Luís Souto Barreiros destaca algumas pela sua importância, nomeadamente a: a Medida 4 – Criação da Comissão Técnica de Acompanhamento do Reconhecimento de Organizações de Produtores de Cereais, essencial para promover um melhor diálogo entre a administração e as Organizações de Produtores numa área crítica para o sector; a Medida 8 merece destaque com a criação do Centro Nacional de Competências dos Cereais Praganosos, Oleaginosas e proteaginosas (CEREALTECH) peça essencial para implementar uma estratégia de desenvolvimento e inovação nestas culturas envolvendo os vários agentes da fileira.

“Ainda no âmbito desta medida, há que destacar a conclusão das agendas para Inovação para o sector do milho e para os cereais praganosos”. Relativamente à Medida 12 está em curso o projeto ValorCer promovido pela ANPOC e ANPROMIS e que visa entre outros aspetos elaborar os estudos necessários à criação de uma Organização Interprofissional para o sector (milho e praganosos). “Esta é uma medida fundamental para promover uma maior comunicação e organização ao longo da Fileira alinhando os interesses dos vários agentes (produção, indústria, distribuição, inovação)” (pp.32 e 33).

No que se refere à valorização da produção nacional, a Medida 13, “está em curso o processo de que visa a adoção de um projeto de Decreto-lei que cria um regime nacional de rotulagem obrigatória de Origem para o arroz, à semelhança do que foi feito para o sector do leite. Ainda nesta medida, há a destacar a aprovação a nível da UE de um projeto conjunto da Casa do Arroz com organizações de outros Estados-membros que visa a promoção do consumo do arroz Europeu na UE”.

O responsável acredita que a curto prazo a prioridade passará pelas sete medidas, inicialmente previstas para o próximo período de programação e que vão desde a dinamização da produção nacional de semente certificada, ao apoio ao investimento, à capacitação das OP, até às ajudas diretas e às medidas agroambientais

“O processo de elaboração do novo Plano Estratégico da PAC, que vai enquadrar os apoios a conceder no âmbito desta política em Portugal, está em curso pelo que o objetivo no imediato passa por garantir a elegibilidade das medidas identificadas nas novas regras. Neste processo de programação e tendo em conta que poderão existir novos instrumentos, que até agora não estavam disponíveis para o sector, deverá ser avaliada a sua pertinência tendo sempre presente os objetivos e os pilares da Estratégia nacional para a promoção da produção nacional de cereais”, termina Luís Souto Barreiros.