Agrociência Hortofruticultura

Estenfiliose da Pereira

A estenfiliose da pereira, doença causado pelo fungo Stemphylium vesicarium, tem sido assinalada nas principais áreas de produção de pera, na Europa, com clima mediterrânico e é uma das doenças mais perigosas da pereira.

A intensidade dos ataques é variável, dependendo da cultivar, região e ano. No início, os ataques são leves instalando-se rapidamente nos anos seguintes, provocando após alguns anos a perda quase total da produção, se os meios de luta não forem aplicados. A estenfiliose da pereira pode causar maiores prejuízos que o pedrado-da-pereira, atingindo cerca de 80% a 90% dos frutos, conjuntamente com Alternaria sp.

Figura 1. Lesões de estenfiliose da pereira, causada por Stemphylium vesicarium, em folha

Os sintomas ocorrem em folhas, flores, frutos e ramos jovens nas cultivares suscetíveis de pereira. Os sintomas nas folhas começam em abril como pequenas lesões necróticas circulares (Figura 1), que são mais evidentes no início de junho e podem aumentar de tamanho e tornar-se irregulares até invadir toda a folha e pecíolo, causando desfolhamento precoce.

Uma característica distintiva deste fungo é a progressão em forma de cunha a partir do ponto de infeção (Figura 2). Nas flores, os primeiros sintomas notam-se por uma necrose, por vezes avermelhada, nas sépalas. Nos frutos, as primeiras lesões aparecem no final de maio ou no início de junho e consistem em pequenos pontos necróticos, rasos de alguns milímetros, que podem estar envolvidos por um halo avermelhado (Figura 3). As lesões podem ocorrer durante toda a estação de crescimento e embora os frutos imaturos sejam mais suscetíveis que os maduros, as lesões são mais espetaculares quando se aproxima a colheita.

No início, as lesões são secas, duras, circulares e limitadas à epiderme do fruto, mas depois, à medida que os frutos amadurecem, as lesões aumentam de tamanho, tornam-se macias e invadem o interior do fruto. Os frutos afetados que permanecem na árvore perdem completamente o valor comercial e, quando fortemente afetados, caem ao chão. Em casos graves, a necrose também pode ser observada em ramos jovens.


O agente patogénico
O ciclo biológico compreende uma fase assexuada [Stemphylium vesicarium (Wallr.) E.G. Simmons], que constitui o período infecioso predominante em condições ambientais favoráveis, e uma fase saprófita sexual [Pleospora allii (Rabenh.) Ces. & De Not.] que ocorre durante o inverno, quando as condições são adversas.

O ciclo começa no outono com a queda das folhas e dos frutos infetados, nos quais o micélio saprófita produz as frutificações de origem sexuada (pseudotecas), parcialmente imersas no tecido hospedeiro. Durante o inverno, formam-se os ascos dependendo da temperatura e humidade relativa. No final do inverno a início da primavera (março-abril), a maioria dos ascos maduros contém os ascósporos prontos a serem libertados. A projeção é ocasionada pela ação dos salpicos da chuva e dos aerossóis produzidos.
As infeções iniciam-se através dos estomas, nas folhas, e das lenticelas, nos frutos.

A emissão máxima dos esporos assexuados (conídios) ocorre após períodos de humectação. A germinação dos conídios ocorre apenas se houver água disponível ou humidade relativa muito alta (> 95%). Durante a germinação, as toxinas produzidas pelo fungo são responsáveis pelos sintomas da doença, com graus diferentes de toxicidade, dependendo da cultivar de pereira.

Foi determinado que as condições ideais para a infeção são cerca de 6 a 10 horas de período de humectação com temperaturas de 15ºC a 25°C. Após a infeção e dentro da faixa ideal de temperatura, os sintomas podem ser observados após 3-5 dias, mas normalmente após 1-2 semanas. As folhas e os frutos infetados que caem no chão são a principal fonte de inóculo para o ciclo seguinte da doença. As infeções anteriores do pomar, árvores fracas e cloróticas e solos húmidos, compactados e mal drenados podem ser considerados fatores nocivos.

Figura 3. Lesões de estenfiliose com o halo vermelho distintivo, causadas por Stemphylium vesicarium, numa pera

Meios de Luta
Para reduzir a nocividade do agente patogénico, algumas das medidas culturais recomendadas são: melhorar o estado nutricional das árvores e corrigir os desequilíbrios nutricionais, melhorar a drenagem em solos muito húmidos, reduzir o inóculo, eliminando folhas e frutos infetados e aplicar ureia nas folhas no outono para acelerar a degradação das folhas e, consequentemente, a destruição do inóculo.

A eliminação da fonte de inóculo no outono, que consiste principalmente em folhas caídas infetadas e restos de frutos, pode ser crucial para evitar um ataque grave no ano seguinte. Se as infeções foram muito graves, os frutos devem ser removidos do pomar no momento da colheita e destruídos adequadamente. Existe também uma diferença significativa na suscetibilidade varietal à estenfiliose na pereira.

Os fungicidas mais utilizados para reduzir a doença são os ditiocarbamatos (metirame e zirame), as estrobilurinas (cresoxime-metilo, piraclostrobina ou trifloxistrobina), os inibidores da enzima succinato desidrogenase (SDHI) (boscalide, fluopirame, fluxapiroxade e pentiopirade), os triazóis (difenoconazol e tebuconazol), a captana, o ciprodinil, o fluaziname e o fluodioxonil. Os fungicidas com ação sistémica, podem ter uma ação curativa importante em tratamentos pós-infeção, mas o fungo apresenta alto risco de desenvolver resistência, se esses produtos forem pulverizados mais de duas ou três vezes por ano.

O conhecimento do efeito dos fatores ambientais, potencial do hospedeiro e do inóculo na gravidade da doença permitiu a construção de um modelo para prever o risco de infeção chamado BSPcast. Esse sistema de previsão é usado em estratégias de combate racional por meio de tratamentos aconselhados. O modelo BSPcast foi avaliado em Espanha, Itália e Portugal e atinge uma redução de 20% a 70% no número de tratamentos preventivos.

Um artigo de: João Pedro Luz
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