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Esteva (Cistus ladanifer L.) na alimentação de ruminantes: Projeto CistusRumen (Parte II)

Projeto CistusRumen

O projeto CistusRumen – “Utilização sustentável da Esteva (Cistus ladanifer L.) em pequenos ruminantes – Aumento da competitividade e redução do impacto ambiental”, engloba um conjunto alargado de estudos sobre a utilização de Esteva ou de extratos de taninos condensados de Esteva na alimentação de ruminantes.

Os resultados relativos à utilização de extratos de taninos condensados de Esteva na alimentação de ruminantes como forma de melhorar a eficiência proteica dos alimentos foram apresentados na Parte I deste trabalho publicado na última edição da Revista Voz do Campo. Na Parte II deste trabalho, serão apresentados os estudos desenvolvidos sobre a utilização de Esteva ou de seus extratos como forma de reduzir o nível de parasitismo interno e em estratégias nutricionais que têm por objetivo melhorar o perfil de ácidos gordos e a estabilidade oxidativa dos produtos. O impacto destas estratégias nutricionais sobre qualidade dos produtos também será abordado.

Melhoria da composição em ácidos gordos da gordura de ruminantes

A gordura dos produtos dos ruminantes é caracterizada por um elevado conteúdo em ácidos gordos saturados e quantidades variáveis de ácidos gordos trans. Este perfil de ácidos gordos resulta da intensa metabolização que os lípidos da dieta sofrem no rúmen, onde são hidrolisados e bioidrogenados [1]. Pelo processo de bioidrogenação, os ácidos gordos insaturados da dieta dão origem a ácidos gordos saturados e a um conjunto variável de ácidos gordos intermediários da bioidrogenação com configurações cis e/ ou trans [1]. A melhoria do valor nutricional da gordura da carne e leite de ruminantes é um dos principais alvos de investigação em nutrição de ruminantes, com vista à redução do teor em ácidos gordos saturados e aumento de ácidos gordos considerados benéficos, particularmente em ácidos gordos polinsaturados da série n-3 e nos principais intermediários da bioidrogenação, os ácidos vacénico (18:1 trans-11) e ruménico (18:2 cis-9, trans-11). O ácido ruménico, principal isómero conjugado do ácido linoleico (CLA), é produzido no rumen [1], mas a sua principal via de síntese é por dessaturação do ácido vacénico por ação da enzima 9-dessaturase nos tecidos e glândula mamária [2].

A manipulação da bioidrogenação ruminal é uma via eficaz para melhorar o valor nutricional das gorduras dos ruminantes. Trabalhos anteriores mostraram que a inclusão de 250 g/kg de Esteva em dietas de borregos à base de luzerna desidratada suplementada com 60 g/ kg de óleos vegetais aumenta a síntese ruminal de ácido vacénico, resultando num incremento do teor em ácido ruménico na gordura intramuscular dada a maior disponibilidade de ácido vacénico para síntese endógena [3]. Estes resultados foram associados a presença de elevadas quantidades de taninos condensados na Esteva, e de facto estudos in vitro mostram que os taninos condensados são capazes e induzir alterações no padrão de bioidrogenação ruminal [4,5].

Com o objetivo de verificar se a incorporação de extrato de taninos condensados de Esteva na dieta de borregos induziria ao mesmo efeito que a utilização da Esteva no padrão de bioidrogenação ruminal e no perfil de ácidos gordos da gordura, realizou-se um ensaio produtivo com borregos para testar três níveis de taninos condensados de Esteva (0; 1,25 e 2,5%) e duas formas de fornecimento dos taninos condensados (parte aérea da planta vs. extrato de taninos condensados).

Com este trabalho verificamos que a utilização de extrato de Esteva na dose de 1,25% de taninos condensados incrementou em 25% a proporção do ácido vacénico na gordura intramuscular comparativamente à dieta controlo, no entanto, não houve aumento do ácido ruménico (Fig. 1,[6]). A baixa deposição de gordura observada neste ensaio poderá explicar a ausência de efeito na proporção de ácido ruménico apesar da maior disponibilidade de precursor para a síntese endógena.

Fig. 1 – Efeito de 3 níveis de taninos condensados de Esteva (0; 1,25 e 2,5%) pela inclusão de parte aérea da Esteva (CL) ou extrato de Esteva na dieta de borregos na proporção de ácido vacénico (18:1 trans-11) e ácido ruménico (18:2 cis-9, trans-11) na gordura intramuscular (CL0 – sem Esteva, CL1,25 – 125 g/kg de Esteva; CL2,5 – 250 g/kg de Esteva; Ex – Sem extrato; Ex 1,25 – 20,5 g/kg de extrato de Esteva; Ex2,5 – 41 g/kg de extrato de Esteva).

A incorporação de extrato de taninos condensados de Esteva também foi testada em cabras leiteiras. Cabras de raça Serpentina na mesma fase da lactação foram suplementadas com 20 g/dia de taninos condensados de Esteva. Na dose utilizada, o extrato de taninos condensados de Esteva teve um efeito reduzido no perfil de ácidos gordos do leite, sem alteração no teor dos ácidos vacénico e ruménico. O efeito dos taninos condensados na bioidrogenação ruminal e composição em ácidos gordos na gordura dos ruminantes tem sido inconsistente, o que pode dever-se a fatores como a composição e concentração dos taninos, a dieta base utilizada, mas também diferenças entre espécies.

Melhoria da estabilidade oxidativa da carne

Melhoria da estabilidade oxidativa da carne A oxidação lipídica é uma das principais causas da perda da qualidade da carne, levando a alterações na cor e ao desenvolvimento de odores desagradáveis. Antioxidantes sintéticos são largamente utilizados na alimentação animal, mas nos últimos anos tem crescido o interesse por antioxidantes naturais como substitutos aos sintéticos. Trabalhos anteriores da equipa demonstraram que a incorporação de Esteva na dieta de borregos limita a oxidação lipídica nas carnes, incluindo em carne enriquecidas em ácidos gordos polinsaturados, e portanto, mais suscetíveis à oxidação [7,8]. Para além dos taninos condensados, a Esteva contém outros compostos que podem estar envolvidos na proteção antioxidante induzida pela Esteva, como outros compostos fenólicos, terpenos e vitaminas [9–11]. Durante o projeto CistusRumen, foi possível verificar que a incorporação de 200 g/kg de Esteva na dieta de borregos aumenta a concentração de a -tocoferol (vitamina E) no músculo, sugerindo que o efeito protetor da Esteva contra a oxidação lipídica na carne está relacionado com a aumento da concentração de -tocoferol no músculo [12].

No entanto, a melhoria da estabilidade oxidativa da carne pela incorporação de Esteva nas dietas de borregos nem sempre se verificou. Ao contrário do verificado anteriormente, a inclusão de níveis crescentes de Esteva (0; 125 e 250 g/kg) numa dieta composta por luzerna desidratada e suplementada com 60 g/kg de óleo de soja não afetou a oxidação lipídica da carne. Neste ensaio, independentemente do nível de inclusão de Esteva na dieta verificaram-se baixos valores de oxidação lipídica na carne após 7 dias de conservação (0,38 mg malonaldeído/ kg de carne fresca), sugerindo que a dieta base utilizada neste ensaio já permite níveis de proteção antioxidante elevados, não se evidenciado o efeito da Esteva.

Ação anti-helmíntica

Os parasitas gastrointestinais, como estrongilídeos gastrointestinais (EGI) e as coccídeas representam um problema na produção de ovinos e caprinos, contribuindo de forma significativa para elevadas quebras de produção, podendo até levar à morte dos animais com níveis de infeção elevados. O controlo e o tratamento parasitário têm dependido de antihelmínticos de síntese, que são utilizados cada vez com maior frequência. Este aumento na frequência é acompanhado pelo aumento da resistência dos parasitas aos princípios ativos, resultando num problema de difícil resolução apenas pelo uso de moléculas de síntese. Além da saúde animal, a resistência apresenta também uma ameaça à saúde pública, não só pelos resíduos nos produtos de origem animal, mas também pela contaminação ambiental.

Tanto a inclusão da parte aérea de Esteva como de extrato de taninos condensados de Esteva na dieta de borregos reduziram o nível de eliminação de ovos de EGI, sem efeito sobre os níveis de oocistos de coccídeas. A ação do extrato de taninos condensado de Esteva sobre a população de EGI também se verificou em cabras leiteiras suplementadas com 20 g/dia de taninos condensado de Esteva, com redução dos níveis de eliminação de ovos de EGI. Este efeito foi-se acentuando ao longo do tempo em que decorreu o ensaio. A ação anti-helmíntica da Esteva ou de extratos de Esteva em borregos e cabras foi demonstrada pela primeira vez no projeto CistusRumen, representando uma opção a considerar em planos de controlo integrado de EGI.

Qualidade dos produtos

Os efeitos da inclusão de Esteva nas dietas de borregos suplementadas com óleos vegetais sobre os atributos da carcaça e carne têm sido inconsistentes entre os vários ensaios, no entanto os efeitos são residuais e não é esperado que comprometam a qualidade do produto. A suplementação de deitas de ovinos e caprinos com extrato de taninos condensados de Esteva foi testada pela primeira vez no projeto CistusRumen. No ensaio em que borregos receberam 3 níveis de taninos (0; 1,25 e 2,5%) através da incorporação de Esteva ou de extrato verificou-se que as duas formas de incorporação de taninos na dieta afetam da mesma forma os parâmetros da qualidade da carne [6]. Verificando-se apenas efeito da quantidade de taninos na dieta no aumento das perdas de cozedura nas carnes dos animais que receberam 1,25% de taninos, o que foi percecionado pelos provadores que atribuíram menor pontuação na suculência da carne. No entanto, a aceitabilidade global da carne foi maior para as dietas com maiores níveis de taninos (2,5%). O tratamento do bagaço de soja com 15 g/kg de taninos condensados de Esteva não alterou os parâmetros de qualidade da carne [13].

A suplementação das dietas de cabras leiteiras com 20 g/dia de taninos condensados de Esteva reduziu o teor em gordura do leite, enquanto que os outros parâmetros químicos do leite não foram afetados. A composição química do queijo fresco fabricado com leite das cabras que receberam os taninos não diferiu do queijo preparado com leite de cabras não suplementadas com taninos. No entanto, a pontuação atribuída pelo painel de provadores ao aspeto geral dos queijos fabricados com o leite das cabras suplementadas com extratos de taninos condensados de Esteva foi inferior (5,45 vs. 4,17, numa escala não estruturada de 7).

Notas Finais

Os resultados dos trabalhos realizados anteriormente e no âmbito do projeto CistusRumen mostram que a utilização de Esteva ou de extrato de taninos condensados de Esteva nas dietas de ruminantes pode ser uma boa estratégia para melhorar a eficiência proteica dos alimentos, a saúde animal, e a composição em ácidos gordos e a estabilidade oxidativa dos produtos, promovendo um sistema de produção animal sustentável e a valorização da Esteva. No entanto, o conjunto de dados obtidos até ao momento mostra que o efeito da Esteva ou de extratos nas dietas de ruminantes pode depender de diversos fatores, nomeadamente da dieta base ou da espécie animal pelo que, futuros estudos são ainda necessários para otimizar e validar as condições de utilização, garantindo a eficiência e a reprodutibilidade da aplicação destas estratégias nutricionais.

Página web do projeto: www.cistusrumen.pt.

Agradecimentos: Projeto CistusRumen (ALT20-03-0145-FEDER000023), financiado pelo programa Alentejo 2020 através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

Referências:
 1 – Harfoot C e Hazelwood G, 1997. The Rumen microbial ecosystem; Elsevier: London (UK). pp. 382–426. 2 – Griinari JM, et al., 2020. Journal of Nutrition, 130, 2285–2291. 3 – Jerónimo E, et al., 2010. Journal of Agricultural and Food Chemistry, 10710–10721. 4 – Guerreiro O, et al., 2016. Animal Feed Science and Technology, 219, 304–312. 5 – Costa M, et al., 2017. Journal of the Science of Food and Agriculture, 97, 629–635. 6 – Guerreiro O, et al., 2020. Meat Science, 160, 107945. 7 – Francisco A, et al., 2015. Meat Science, 100, 275–282. 8 – Jerónimo E, et al., 2012. Meat Science, 92, 841– 847. 9 – Barrajón-Catalán E, et al., 2010. Food and Chemical Toxicology, 48, 2273–2282. 10 – Gomes PB, et al., 2005. Journal of Essential Oil Research, 17, 160–165. 11 – Guimarães R, et al., 2009. Industrial Crops and Products, 30, 427–430. 12 – Jerónimo E, et al., 2020. Meat Science, 164, 108092. 13 – Dentinho MTP, et al., 2020. Livestock Science, 236, 104021.
Autores:
1 Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL) / Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), 7801-908 Beja, Portugal

2 MED – Mediterranean Institute for Agriculture, Environment and Development, Portugal

3 Instituto Nacional de Investigação Agraria e Veterinária, Polo de Investigação da Fonte Boa (INIAV-Fonte Boa), 2005-048 Vale Santarém, Portugal

4 Centro Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal

5 Departamento de Medicina Veterinária, Escola de Ciências e Tecnologia, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora, Portugal

6 Departamento de Zootecnia, Escola de Ciências e Tecnologia, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora, Portugal

7 Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa (ULisboa), Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal