Floresta Grande Entrevista

“O modelo agroflorestal mediterrânico é a solução de baixo risco”

Presidente da Direção da UNAC – União da Floresta Mediterrânica, António Gonçalves Ferreira

“O modelo agroflorestal mediterrânico é a solução de baixo risco em que o nosso território pode sustentar o seu modelo de evolução da paisagem“

A UNAC – União da Floresta Mediterrânica – é uma congregação de objetivos e vontades comuns de um conjunto de organizações de produtores florestais com posicionamentos muito próximos em matérias estruturantes como a defesa do direito de propriedade, a livre iniciativa, a imprescindibilidade da viabilidade económica da atividade produtiva e a importância dos valores ambientais, constituída com base em realidades locais bem diferenciadas, mas complementares, com um tronco comum que são os sistemas agroflorestais mediterrânicos.

O presidente da Direção da UNAC, António Gonçalves Ferreira, explica que os produtores florestais que representa são produtores profissionais, que apostam na gestão ativa das suas propriedades e as suas associadas posicionaram-se como promotoras de um modelo transversal que associa gestão territorial integrada à escala da paisagem, com uma aposta forte nas Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), com vista à redução dos riscos bióticos e abióticos e a certificação da gestão florestal (FSC e PEFC), como montra, indutor e garante de boas práticas.

Sendo a designação União da Floresta Mediterrânica, que tipo de floresta é esta? A floresta mediterrânica é maioritariamente uma agrofloresta de uso múltiplo e de baixa intensidade produtiva em que a produção florestal, a produção pecuária e a provisão de serviços do ecossistema se complementam e interligam numa complementaridade positiva com elevado impacto social, ganhos ambientais e um efeito positivo sobre o clima.

É maioritariamente constituída por explorações multifuncionais, onde para além da floresta e da pecuária extensiva está também presente o regadio, maioritariamente a partir de pequenas barragens particulares, que é um importante elemento complementar, nivelador de riscos e potenciador de biodiversidade.

É uma floresta com potencial de viabilidade económica – se gerida profissionalmente e num quadro fundiário que assegure uma dimensão mínima das explorações – sendo a rentabilidade a maior garantia da sua função em termos sociais, criando emprego e fixando população, e dos ganhos ambientais que pode proporcionar.

Que espécies predominam e produtos, ou os subprodutos são os mais representativos, quer em termos de área quer em termos de atividade económica que geram? A principal espécie ligada à nossa atividade é o sobreiro e a cortiça é a nossa principal produção. No entanto as produções florestais lenhosas – eucalipto e pinheiro bravo – a produção de pinha, ou a vertente pecuária, com base em bovinos, ovinos ou suínos de montanheira, em sob-coberto de montado de azinho ou de sobro, são atividades em que nos envolvemos com igual profundidade e profissionalismo. É do conjunto harmonioso destes usos complementares, que nasce a resiliência da nossa aposta e a proposta positiva com que contribuímos para o País em termos económicos, sociais e ambientais.

E os produtores, como se definem? Estamos a falar de uma floresta encarada profissionalmente? Os produtores florestais que representamos são produtores profissionais, que encaram a sua atividade como parte da economia nacional e base de importantes fileiras exportadoras, com elevado valor acrescentado nacional. Praticamos uma gestão ativa das nossas explorações e contribuímos para soluções coletivas que permitem a diminuição de risco no território à escala da paisagem e a persecução de ganhos ambientais. Agregamos produtores florestais de todos os espectros de dimensão, que beneficiam quer das nossas iniciativas de diminuição dos riscos estruturais quer da componente de informação e extensão, que numa base consistente disponibilizamos pelos vários canais, dos mais formais aos mais atuais.

Já com 30 anos no terreno, qual foi a evolução da Floresta Mediterrânica em Portugal?

Apesar de ter sido fundada há três décadas, a UNAC adotou o formato atual há cerca de 15 anos. Durante estes anos a UNAC tem assumido e consolidado uma posição de representante dos interesses e preocupações dos espaços agroflorestais mediterrânicos portugueses. Defendemos a propriedade privada e um diálogo construtivo com os nossos principais parceiros: o Estado, a indústria e a sociedade. Defendemos posições tecnicamente fundamentadas e implementáveis, que assegurem e reforcem a viabilidade económica das nossas explorações e das fileiras que nos estão a jusante, na certeza que é dessa base de valor que decorre o impacto social e o potencial ambiental dos nossos territórios.

Quais são os pontos fortes da Floresta Mediterrânica em Portugal? O principal ponto forte da Floresta Mediterrânica em Portugal é o apelo da sua proposta de valor, do seu peso social e do seu potencial ambiental. O modelo agroflorestal mediterrânico é a solução de baixo risco em que o nosso território pode sustentar o seu modelo de evolução da paisagem.

A consolidação e reforço deste modelo como âncora de ocupação territorial passa por um trabalho consistente de todos os atores que com ele interagem

“Nos últimos anos temos feito uma aposta muito forte na investigação e na inovação, tendo participado na dinamização dos centros de competências do sobreiro e da cortiça e do pinheiro manso e da pinha. Este esforço tem também comtemplado as vertentes de extensão e divulgação, tendo sido produzido inúmero material técnico de que destacamos um conjunto numeroso de fichas de extensão dirigidas aos produtores florestais”.

O Estado através da importante função de regulação, assegurando a concorrência nos mercados, e de garantia de investimento público estrutural, potenciando uma diminuição do risco – biótico e abiótico – sem a qual dificilmente os produtores florestais poderão continuar a investir. Cabe-lhe também, nesta época de populismos e ‘fake news’ o papel de formar e informar, de modo verdadeiro, a nossa juventude e a opinião pública em geral.

A indústria florestal, garantindo uma adequada transmissão de valor à base produtiva, contribuindo para soluções sólidas de fileira, que assegurem que o valor transmitido não se perde em demasiados patamares intermédios, e colaborando na investigação e na inovação. Os produtores, gerindo profissionalmente, estando abertos a soluções associativas e reinvestindo uma fatia consistente dos seus resultados.

A sociedade, hoje maioritariamente urbana – incluindo as gerações mais jovens que ainda vivem no campo – procurando uma opinião esclarecida e verdadeira sobre a realidade que a rodeia, e transformando as suas vontades, posicionamento e escrutínio, em opções concretas de consumo e de defesa dos produtos nacionais.

Quais são as principais dificuldades que enfrenta? O principal problema que a Floresta enfrenta atualmente em Portugal é a mensagem negativa que deixámos que lhe fosse colada em consequência da tragédia dos fogos de 2017 e das vidas humanas que aí se perderam. É preciso que a sociedade volte a olhar para a floresta com confiança e que se criem condições para que modelos de gestão economicamente viáveis, que têm provas dadas de bom desempenho social e ambiental tenham lugar no território, como é o caso dos sistemas agroflorestais mediterrânicos.

O posicionamento do Ministério do Ambiente e Ação Climática, que não assume a dimensão económica da floresta como a base da sua resiliência, é neste momento o maior inimigo da floresta em Portugal, incluindo da floresta mediterrânica.

É impossível alicerçar um futuro com menor risco para o nosso território na renaturalização das nossas florestas, que aumenta exponencialmente o risco de incêndio e põe em causa todos os ganhos sociais, ambientais e climáticos a que potencialmente poderíamos almejar. Essa é a realidade por detrás da mensagem benévola que o MAAC passa. Se estamos a interpretar mal o MAAC tem que se explicar melhor.

Que tipo de assistência é que a UNAC presta às suas associadas? A UNAC presta essencialmente três tipos de apoio às associadas. Em termos políticos destaca-se a análise estratégica e a construção e defesa de posicionamentos comuns; em termos de apoio corrente o destaque vai para a recolha, tratamento e divulgação de informação e para a construção e gestão de iniciativas comuns de âmbito diverso, desde a formação à inovação, de ações concretas no território à procura de ganhos de eficiência.

Uma das missões também é a investigação, quais são neste momento as prioridades a esse nível? A UNAC fez desde há alguns anos uma aposta forte na investigação, conseguimos com esse posicionamento construir e publicar as agendas de inovação e investigação do Sobreiro e da Cortiça (2015) e do Pinheiro Manso e da Pinha (2016). Estes foram dois marcos importantes que permitiram em duas fileiras, que dependem quase inteiramente da investigação nacional para resolver os seus problemas, identificar necessidades e prioridades. Neste processo é preciso deixar duas palavras de reconhecimento, uma primeira ao INIAV nas pessoas do Dr. Nuno Canada e da Drª Teresa Soares David, pela postura e empenho com que contribuíram para este modelo e estes dois documentos se concretizassem e uma segunda à indústria da cortiça, na pessoa do presidente da APCOR, Eng. João Rui Ferreira, que intuiu a necessidade da agenda ser prioritariamente direcionada à produção.

O principal problema que a Floresta enfrenta atualmente em Portugal é a mensagem negativa que deixámos que lhe fosse colada em consequência “ da tragédia dos fogos de 2017

Com base nas agendas foram delineadas candidaturas a diversos programas de financiamento, estando a UNAC neste momento e até 2021 a gerir ou co-gerir 7 grupos operacionais direcionados às linhas prioritárias definidas nas agendas dos Centros de Competências de que destacamos: Undercork, Geosuber, Nutrisuber, Fertipinea, + Pinhão, Regacork e Silvpast.

Atualmente a UNAC – União da Floresta Mediterrânica – agrega seis organizações de produtores florestais: ACHAR, AFLOBEI, AFLOSOR, ANSUB, APFC e SUBEREVORA, que na sua totalidade representam mais de 1.200 produtores e uma área associada próxima de 660.000 hectares.

A dimensão deste envolvimento levou a que a UNAC reforçasse a sua equipa com uma coordenação de ID, assegurada pela Engª Conceição Santos Silva, que tem sido fundamental no processo de garantir o foco e também que os timings são cumpridos. A velocidade a que queremos os resultados é quase sempre superior ao funcionamento do método científico, mas resultados intercalares podem dar boas pistas, assegurado que seja o princípio da precaução.

Sendo a UNAC uma das entidades fundadoras do Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas do setor Agroflorestal, que respostas se procuram com este Centro? O clima é o grande condicionador da nossa atividade, preocupam-nos as suas evoluções, mas temos a certeza que o sistema mais preparado dos setores nacionais para lidar com este problema é o dos sistemas agroflorestais mediterrânicos, com base no sobreiro e na azinheira. »