Agroindústria Grande Entrevista Hortofruticultura

“A fileira tem dado provas de um alto profissionalismo”

Rodrigo Vinagre tomou posse como presidente do Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN) para o triénio 2020-2022 na Assembleia Geral daquele organismo, realizada a 29 de junho. Assume uma posição de continuidade em relação às direções anteriores e uma grande vontade de levar os objetivos do COTHN a bom porto.

Em seu entender, como se encontra a fileira hortofrutícola nacional?

A fileira encontra-se numa situação de desafios constantes e de grande adaptação aos mesmos. Nem há uma década ultrapassámos a modernização tanto a nível de gestão e mecanização no campo, como no setor das agroindústrias e centrais frutícolas que se adaptaram às últimas tecnologias de processamento e embalamentos da matéria-prima. Por outro lado conseguimos abrir muitos mercados de exportação com os nossos produtos mais tradicionais (pera, maçã, tomate concentrado, batata e pimento) mas também inovámos e apareceram novos produtos (kiwi, frutos secos e a batata-doce entre tantos outros). Penso que acima de tudo a fileira tem dado provas de um alto profissionalismo e está preparada tão bem ou melhor que outros setores para os desafios constantes e muito rápidos desta atividade.

Somos de uma grande resiliência, com capacidade de adaptar a vários cenários e hoje em dia com uma enorme abertura para a inovação em tudo o que possa melhorar o sistema produtivo e agroindustrial

Quais são as principais ameaças e pontos fortes?

Sobre as ameaças, o que sinto é que apesar de estarmos dentro de um espaço comum europeu, no qual deveríamos ter todos os mesmos direitos e oportunidades, vemos que os países periféricos e de menor dimensão têm uma grande disparidade de apoios e legislação comunitários. Muitas vezes até países vizinhos têm essa diferença e na minha opinião temos de lutar para que sejam as menores, pois existem já as diferenças de contexto como a periferia que não conseguimos alterar.

No caso do nosso país, as alterações climáticas podem ter uma grande influência pois começamos a estar muito expostos a fenómenos de grande variabilidade (extremos).

Outra das grandes ameaças é aquilo que hoje em dia se chama de questões de sustentabilidade, embora maioritariamente só se falem nas ambientais. No setor gostamos de dizer que essa é, dentro de um conjunto de medidas, uma das mais importantes mas não podemos esquecer que para manter essa medida temos de ter sustentabilidade social e económica para continuarmos a alimentar com garantia as exigências cada vez maiores das populações tanto em termos de quantidade como em qualidade.

Já em termos de pontos fortes, temos um tecido empresarial com grande capacidade para responder a todos os desafios. Somos de uma grande resiliência, com capacidade de adaptar a vários cenários e hoje em dia com uma enorme abertura para a inovação em tudo o que possa melhorar o sistema produtivo e agroindustrial.

Outro ponto forte é a nossa localização para a produção de produtos com alta qualidade devido à brisa Atlântica e extensão da época de produção.

Forte é também o conhecimento técnico especializado das Associações e Organizações da produção, de que o COTHN é uma prova, pois além de aplicar esse conhecimento também o dissemina de forma generalizada para todo o setor.

Em março foi apresentada a Estratégia Nacional para a Fileira Hortofrutícola, qual o ponto de situação da mesma e que objetivos que pretende alcançar?

O estudo para esta Estratégia para a Fileira Hortofrutícola Nacional foi elaborado com outros dois parceiros, a FNOP e a Portugal Fresh. Deste modo pensamos que concentrar e complementar toda a visão do setor resultou numa ótima parceria no desenvolvimento deste documento que tem quatro grandes objetivos: Atingir a média europeia da produção organizada 2030; aumentar as exportações até 2.500 milhões de euros até 2030; manter a tendência de aumento do consumo de frutas e hortícolas nacionais e equilibrar a balança comercial em frutas e hortícolas em 2030.

Quatro grandes objetivos: Atingir a média europeia da produção organizada 2030; aumentar as exportações até 2.500 milhões de euros até 2030; manter a tendência de aumento do consumo de frutas e hortícolas nacionais e equilibrar a balança comercial em frutas e hortícolas em 2030

O principal objetivo deste documento e como vem referido no próprio, é a contribuição para o aumento do retorno financeiro dos produtores nacionais e das suas Organizações nunca esquecendo as três medidas pilares da sustentabilidade: Ambiental, Social e Económica! Outra situação referente ao documento é um refresh do mesmo com o intuito de o adaptar à nova Reforma da PAC e ao contexto da pandemia por Covid19.

Num ano atípico para todos os setores, como é que esta fileira está a “viver” a pandemia por Covid 19?

É verdade, mais uma vez perante um desafio e desta vez um que nos traz grandes apreensões e adaptações. Primeiro foram as questões de como poder manter as cadeias de abastecimento, de seguida as medidas dentro do setor de contenção da epidemia e agora em pleno desconfinamento assegurar que se mantenha a segurança alimentar e que não é só garantir qualidade dos produtos mas que eles cheguem aos consumidores. Perante este desafio para o qual não estávamos preparados, nunca parámos. Somos agricultores, técnicos e produtores de bens alimentares de alta qualidade, temos compromissos a cumprir e acima de tudo bens alimentares necessários para toda a população, esteja ela em casa, no trabalho ou em férias. Esta é a nossa missão fazer de tudo para que todos tenham à sua disposição produtos de qualidade independente das condições, 365 dias por ano.

As mudanças que foram sendo introduzidas vão fazer mudar a forma de trabalhar no futuro?

Como é evidente, as mudanças que foram introduzidas que se revelaram melhores formas de trabalhar que as anteriores vieram para ficar. Demos um salto único a nível tecnológico e de experimentação de trabalho remoto. Já outras alterações só fazem sentido neste contexto, porém serviram para aprendermos, crescermos e, seguramente, não as vamos esquecer.

Face também a toda esta situação, que projetos e expectativas tem para o mandato que está a iniciar no COTHN?

O meu projeto para o COTHN é muito da linha dos meus antecessores (Engº Torres Paulo e o Professor Paulo Águas) aos quais espero corresponder com o meu mandato da melhor maneira possível, tendo sempre por base os objetivos do próprio COTHN, focado mais em dois que são estatutários e outro de cariz pessoal mas que penso ser de interesse comum. Assim, promover o desenvolvimento da fileira hortofrutícola nacional, especialmente através da investigação aplicada e melhoria do nível de conhecimento do setor; efetuar atividades de transferência de tecnologia e de competências, nomeadamente na formação de técnicos e dirigentes em matéria tecnológicas, organizativas, tal como potenciar a interação e convergência entre congéneres do setor de forma a que os processos sejam o mais abrangentes possível, ganhar dimensão crítica e ativa sobre os mesmos e para que o setor fale a uma só voz. Um bom exemplo disto foi o estudo para a Estratégia Nacional Hortofrutícola.

Nota: Após a realização desta entrevista foi dada a notícia da morte do Professor Paulo Águas. A Revista Voz do Campo lamenta profundamente e expressa condolências à família e amigos.