Agrociência Hortofruticultura

Algumas notas sobre o desenvolvimento do “Bitter pit” na maçã

Introdução: O Bitter pit na maçã é uma fisiopatia, que constitui um grave problema para os fruticultores, com reflexos negativos na conservação e na comercialização da fruta.

Em muitas situações e dependendo do ano e da zona, esta alteração fisiológica afecta uma grande percentagem de fruta armazenada nas câmaras frigoríficas. A sensibilidade ao Bitter pit está relacionada com as variedades de maçã e com as condições meteorológicas do ano.

O Bitter pit pertence a um conjunto de alterações fisiológicas provocadas por desiquilibrios nutricionais durante o crescimento do fruto. Após muitos anos de investigação, desconheram-se as verdadeiras causas desta fisiopatia, embora se tenha concluído que havia uma relação muito estreita com a deficiência de cálcio.

O papel do cálcio na planta

O cálcio é absorvido pelas plantas na forma de ião Ca2+ a nível das raízes jovens, e é transportado pelo fluxo transpiratório no xilema, fluxo que é maioritariamente dirigido para as folhas e muito pouco para o fruto (Shear, 1980). Daí o teor em cálcio nos frutos ser muito baixo, comparado com os da folha (10 a 20 vezes menos). Estas fracas concentrações são por vezes a razão da má conservação dos frutos após a colheita. A absorção do ião Ca2+ pode ser afectada, negativamente, pela presença de outros catiões: NH4+, K+, Mg2+, Mn2+ e Al3+ e estimulada pela presença de azoto na forma nítrica. O cálcio é importante no desenvolvimento radicular, actua na divisão celular, é um constituinte importante das paredes celulares, neutraliza os ácidos orgânicos, dá dureza e consistência aos frutos e melhora a qualidade e conservação dos mesmos.

Absorção do cálcio na planta

A partir das raízes o Cálcio é absorvido e translocado pelo xilema (seiva bruta) e impulsionado pela corrente transpiratória em direcção às folhas jovens. A absorção realiza-se em duas etapas: . Na 1ª há uma absorção rápida e contínua que decorre durante as primeiras 4-6 semanas depois da plena floração, correspondente à fase da multiplicação celular. . Na 2ª há uma absorção que se processa lentamente até à maturação. Assim, temos um período inicial de acumulação de cálcio no fruto, a que se segue um período de diluição do mesmo, que coincide com o engrossamento do fruto.

Sintomas da carência do “Bitter pit”

Quando o fruto começa a amadurecer observa-se na epiderme manchas negras mais ou menos circulares (figura 1), que alcançam quatro a cinco milímetros de diâmetro e que penetram um pouco na polpa (figura 2).

Cortando-se o fruto nota-se a presença de manchas negras suberizadas (figura 3)., esponjosas, que se desprendem do resto da polpa, de sabor amargo ou simplesmente insípido. Quando o ataque é muito intenso, ou muito precoce, as manchas atingem o interior do fruto (figura 4).

Nesta espécie, esta fisiopatia pode confundir-se com a Carência de Boro, como mostra o quadro seguinte:

Fonte: Fertilização de Fruteiras – João Tomaz Ferreira

Condições ambientais e edáficas que têm influência na ocorrência do “Bitter pit”

  • Baixas temperaturas;
  • Verões quentes e secos;
  • Intensas adubações com azoto, potássio e magnésio, sobretudo no final do Verão;
  • Solos ácidos com pH abaixo de 6 e com baixos teores de matéria orgânica;
  • Solos com difícil arejamento (encharcados), alternando com períodos muito secos.

Práticas culturais que favorecem o “Bitter pit”

  • Mondas intensas, que potenciam um engrossamento elevado dos frutos;
  • Podas severas, que originam excessivo vigor vegetativo;
  • Adubações foliares excessivas de azoto, potássio e magnésio, originando uma concorrência entre folhas e frutos;
  • Colheitas precoces, que não permitem uma maturação óptima.

Medidas culturais preventivas a considerar:

  • Podas moderadas (bom equilíbrio folhas / frutos);
  • Correctas mondas de frutos; Adubações equilibradas em azoto e potássio, conforme necessidades;
  • Adubações equilibradas em magnésio, conforme análises de solo e foliares;
  • Regas regulares, evitando regas tardias e muito intensas.

Necessidades desta cultura em CaO, são da ordem das 60 a 80 kg / hectare.

Como e quando aplicar o Cálcio? Via solo:

1. Recorrendo a uma boa alimentação cálcica, através das correcções calcárias no período de OutonoInverno, quando em presença de um solo ácido, com um pH igual ou menor que 5,5, no sentido de disponibilizar e fornecer cálcio ao solo.

2. Utilizando adubos cálcicos na rega.

Via foliar: Utilizando as pulverizações com cálcio em três ou mais aplicações, com ínicio no estado da queda das pétalas/ vingamento dos frutos e acabando 20 a 25 dias antes da colheita.

Tratamento pós-colheita: utilizando a imersão das frutas, após a colheita, em solução de sais de cálcio, antes da entrada das frutas nas câmaras frigoríficas.

Nota: a eficácia da técnica de pós-colheita, segundo alguns autores, é limitada, porque não enriquece mais do que as camadas superficiais da fruta.

 

Autoria: António Pedro Tavares Guerra, Engenheiro Técnico Agrário Licenciado em Engenharia Agro-Pecuária Formador e Consultor Técnico em Nutrição Vegetal *Escrito ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico

Referências:
CTIFL, Centre Technique Interprofessionnel de fruits et légumes – Fertilisation des vergers, 1999 GUERRA, Antonio Pedro Tavares Guerra – Algumas considerações sobre a Fertilização das culturas arbóreas, D.R.A.E.D.M., 1986 INRA, Maladies de conservation des fruits à pépins, 1992 SHEAR.C.B. – Calcium – Related disorders of fruits and vegetables, 1980