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Protocolo Biovespa foi fundamental para o controlo da vespa das galhas do castanheiro

O primeiro foco de vespa das galhas do castanheiro (VGC) foi detectado em Portugal, no concelho de Barcelos, em 2014.

Para planificar o processo de combate a esta praga, foi criada nessa altura uma Comissão técnica, coordenada pela DGAV, sendo integrada por Direções Regionais de Agricultura e Pescas, INIAV, UTAD, IPB, ICNF e pela RefCast. Esta comissão viria mais tarde, pelo Despacho n.º 5696/2017, de 29 de junho de 2017, do Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, a ser convertida na Comissão de Acompanhamento, Prevenção e Combate à Vespa das Galhas do Castanheiro (CVGC).

Em 2015, percebendo-se que a luta contra esta praga poderia ter uma organização territorial de base concelhia, a dinamizou no seio da referida comissão a criação do protocolo Biovespa, que visava regulamentar a parceria entre a RefCast e os municípios tendo por objetivo a sua sensibilização para o grave problema que esta praga representa para os produtores de castanha e também a obtenção do apoio financeiro para a realização da luta biológica feita através da libertação do parasitóide Torymus sinensis.

Este protocolo veio a tornar-se uma peça chave em todo este processo, na medida em que foi muito bem acolhido pelos municípios, os quais contaram também com a colaboração dos técnicos das delegações regionais das DRAP’s. Para a organização desta base concelhia foi promovida a criação das comissões locais (CL), que são hoje uma peça chave em cada concelho. Graças à formação dada aos técnicos destas CL’s os concelhos ganharam autonomia na definição do processo de luta a decorrer anualmente.

O biovespa integra atualmente 70 municípios (Figura 1), estimando-se que abranja uma área de cerca de 35 000 hectares de castanheiro.

O Ciclo da Vespa das galhas do castanheiro (VGC)

Esta praga, cujo nome científico é Dryocosmus kuriphilus, passa o Inverno na forma de larva dentro dos gomos (Figura 2). Na Primavera, quando se dá a rebentação destes gomos, aparecem galhas em lugar de raminhos. Com o desenvolvimento destas galhas, no seu interior as larvas originam insectos adultos, que através de um furo feito na galha entre meados de junho e agosto, abandonam estas. Estes insectos durante 10-12 dias, visitam vários gomos dos ramos verdes do ano para fazerem posturas de ovos no seu interior (cerca de 30 a 40 por gomo até um total de 150 ovos).

O ciclo do parasitóide Torymus sinensis

Apesar de terem sido encontrados nos vários estudos efetuados até hoje, vários parasitoides naturais para esta praga, sobretudo quando os soutos estão junto a carvalhos, nenhum deste se tem revelado suficientemente eficaz. Uma das razões apontadas pode ser o facto de esta praga não ser hospedeiro único para estes parasitoides.

A solução, encontrada em meados do século passado no Japão, importada para Itália em 2006, foi a libertação de outro insecto parasitóide, o Torymus sinensis, com a vantagem de que este apenas tem como hospedeiro a vespa.

A sua libertação nos soutos, que obrigatoriamente têm de estar com um grau de ataque de vespa acima de 50%, ocorre entre finais de abril e meados de maio, dependendo da zona do país (Figura 3). Despois de libertados, machos e fêmeas, estas últimas são capazes de se orientarem de forma a localizarem as galhas, a perfurá-las e a colocar nas galerias onde se encontram as larvas da vespa, os seus ovos. Estes novos insectos vivem cerca de 3 semanas no souto, período durante o qual fazem as posturas de cerca de 70 ovos.

Tratando-se de um tipo de luta inoculativa, os pontos de largada devem ser selecionados assegurando uma distância de cerca de 2 km entre si. O parasitóide após a sua instalação tem uma grande capacidade de dispersão (Figura 4).

Uma vez que se trata de um organismo novo que está a ser introduzido no país, a realização deste tratamento não está liberalizado, carecendo de uma inscrição das largadas no plano nacional coordenado pela CVGC, sob proposta das CL’s. Através do Biovespa foram realizadas cerca de 2100 largadas nos concelhos aderentes, totalizando cerca de 250 000 insectos fêmeas e 147 000 insectos machos de Torymus sinensis.

Dentro das galerias, os ovos rapidamente originam uma larva que começa a parasitar a larva da VGC, acabando por eliminar esta e passando a larva de TS a ocupar a galeria. A galha permanecerá sem qualquer furo até à primavera seguinte (Figura 5), altura em que a larva de TS atinge o estado adulto e a partir de março/abril começa a abandonar as galhas secas, para procurar as galhas verdes.

Em 2019, foi criada uma aplicação para telemóvel para registo dos pontos de largadas no local. Esta plataforma, à qual se tem acesso através de www.soscast.eu, permite ao biovespa ter uma base de informação de consulta aberta, permitindo a cada produtor verificar a proximidade de pontos de largadas relativamente aos seus soutos (Figura 6).

Trabalhos de monitorização dão indicadores positivos em relação ao sucesso das largadas

Com o objetivo de verificar o sucesso das largadas efetuadas, a RefCast em conjunto com o INIAV levou a cabo o processo de monitorização, em todos os concelhos onde foram feitas largadas até 2018. Foram amostrados 72 concelhos, no total de 104 locais. Foram dissecadas 12489 galhas, tendo sido encontradas 29 015 galerias onde foi encontrado um número variável de parasitoides. Em termos médios, foram encontradas 2,32 galerias/galha.

Os resultados mostraram a presença de galhas parasitadas em 60 concelhos representando 83,3% dos concelhos, totalizando 494 espécimes de insetos. Neste grupo incluem-se exemplares de Torymus sinensis e de outros parasitoides naturais. Destes, em 36 concelhos foram encontradas larvas de Torymus sinensis. O grau de parasitismo apresenta uma variação significativa segundo o ano da largada. Este foi de 5,92% para as amostragens efetuadas em pontos com largadas efetuadas em 2017, isto é, 2 anos após e 1,23% nas amostragens referentes a largadas de 2018, isto é, 1 ano após. Estes valores estão em linha com os apresentados na bibliografia.

Os trabalhos de monitorização irão ter continuidade em 2020/2021, prevendo-se iniciar o plano pelos concelhos onde não foi encontrado nenhum exemplar de Torymus sinensis.

Importante: O que não deve fazer no souto a partir de agora

Com a entrada de um novo ser vivo no souto, que queremos preservar e até promover o seu crescimento em termos de população, será necessário alterar rotinas de trabalho no souto.

Assim, uma vez que o parasitoide va i estar a voar no souto entre abril e meados de junho, não deve usar qualquer tipo de pesticida, para não correr o risco de matar o insecto “bom”. De igual forma, deve deixar a vegetação por cortar até meados de junho, para que as flores proporcionem alimento de que precisam para viver e fazer o máximo de postura de ovos (Figura 7). Assim sendo, o inseto não gosta de soutos mobilizados, pois não tem alimento, provocando a sua morte antecipada e provocando uma redução muito importante nas posturas de ovos nas galhas. Isto é, vai afetar fortemente o sucesso do controlo da VGC.

Toda a lenha de poda, pelos menos as partes mais finas que contêm as galhas, não devem ser destruídas nem queimadas. Devem ser arrumadas pelo menos até ao Verão no souto. São estas galhas que contém o parasitóide que na primavera irá sair destas galhas para ir colocar os seus ovos nas galhas que contem as larvas de VGC.

Autoria: José Gomes Laranjo

  • RefCast- Associação Portuguesa da Castanha
  • Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro