Agrociência Hortofruticultura Rega

A rega deficitária controlada nos citrinos

Foto: Bateria de Tensiómetros

Os citrinos são a principal cultura de regadio da região do Algarve, ocupando uma área de cerca de 16.000 ha, a qual representa cerca de 84% do total da área das culturas permanentes regadas na região.

Os citrinos necessitam de água ao longo de todo o ano, principalmente a partir da época da floração (março-abril), sendo o período de maiores exigências o de junho a agosto, diminuindo durante o final do outono e no inverno. Nos anos normais, no Algarve, as necessidades hídricas apenas são cobertas pela precipitação no período de outubro a fevereiro.

Confirmando-se a tendência para a diminuição da precipitação anual no Algarve, acentuada no último decénio, torna-se necessário utilizar novas estratégias de rega de modo a manter a importância da cultura na região.

A rega deficitária controlada (RDC) poderá ser uma alternativa, com o objetivo da maximização da produtividade da água.

Trata-se de uma estratégia de rega que sem cobrir as necessidades ideais das culturas, correspondentes à evapotranspiração cultural (ETc) sem restrições, não causa reduções significativas na quantidade nem na qualidade da produção final, desde que aplicada de forma adequada, atendendo a diversos fatores, como o solo, sistema de rega, características das variedades e porta-enxertos, clima, estados fenológicos, etc.

A forma de aplicação da RDC tem sido objeto de estudo em diversos países, principalmente na bacia do Mediterrâneo, tendo sido experimentadas várias possibilidades de redução das dotações de rega nos diferentes estados do desenvolvimento dos frutos.

É relativamente consensual que a estratégia mais aconselhável passará por:

  • Garantir dotações de rega correspondentes à ETc no período compreendido entre a floração (março a abril) e a queda fisiológica dos frutos (finais de maio a finais de junho) para não colocar em causa o número de frutos formados nem o respetivo crescimento, nessa fase de intensa divisão celular com o aumento generalizado do número de células nos diversos tecidos;
  • Reduzir as dotações de rega em julho a agosto, asegurando apenas cerca de 40% a 70% da ETc, período em que a divisão celular já só se realiza nas células do exocarpo, sendo o crescimento dos frutos função do alongamento do crescimento das células;
  • Retomar as dotações correspondentes à ETc a partir de setembro, altura em que se inicia, ou se iniciou poucos dias antes, a mudança de cor dos frutos, de modo a promover a recuperação do tamanho do fruto, cujo crescimento foi retardado na fase anterior.

Dos resultados obtidos nesses estudos, conclui-se que a RDC funciona bem em algumas das variedades utilizadas na citricultura algarvia, nomeadamente na clementina de Nules, nas laranjeiras Navelina, Lane Late, Salustiana e nas do grupo Valencia, com poupanças de água compreendidas entre 10% e 25%, sem diminuição significativa da produção obtida nem do rendimento económico, podendo, no entanto, existir alguma diminuição do calibre dos frutos e do volume das copas das árvores.

Não existem estudos sobre a RDC aplicada aos citrinos em Portugal, pelo que a sua realização será um desafio aliciante para as associações do setor e entidades ligadas ao mesmo (Universidade do Algarve, DRAP Algarve, COTR, COTHN e outras), devendo incidir sobre diferentes variedades, instaladas em diferentes tipos de solos e microclimas, com utilização de equipamentos para monitorização da água do solo e para medição do potencial hídrico na planta, para depois serem divulgados pelos técnicos e pelos produtores, através de ações de formação, seminários, etc.