Vinha & Vinho

‘Fábrica’ de Vinho com 2600 Anos Descoberta no Líbano

Uma reconstrução artística do lagar de vinho de Tell el-Burak, visto de sudeste. FOTOGRAFIA DE PROJETO ARQUEOLÓGICO DE TELL EL-BURAK; ILUSTRAÇÃO DE O.BRUDERER


O lagar mais antigo encontrado no país foi usado pelos antigos fenícios para produzir safras que outrora eram adoradas por todo o Mediterrâneo.

Arqueólogos encontraram novos vestígios do extenso comércio de vinho feito além mares pelos antigos fenícios, com a descoberta do lagar de vinho mais antigo do Líbano.

Esta descoberta lança uma nova luz sobre a produção de vinho dos fenícios, os mercadores marítimos que introduziram a cultura de beber vinho por todo o antigo Mediterrâneo, e cuja influência perdura na popularidade que a bebida tem mundialmente.

As escavações feitas em Tell el-Burak, no Líbano, a cerca de oito quilómetros a sul da cidade costeira de Sidon, revelaram vestígios bem preservados de um lagar de vinho que foi usado pelo menos desde o século VII a.C. É o primeiro lagar de vinho alguma vez encontrado nas terras de origem dos fenícios, que correspondem aproximadamente ao Líbano da atualidade. A descoberta foi apresentada num estudo publicado no dia 15 de setembro na revista Antiquity.

A enorme quantidade de sementes encontradas mostra que as uvas eram trazidas de vinhas nas proximidades e pisadas num enorme reservatório, feito de gesso resistente, com capacidade para mais de 4500 litros.

O mosto resultante era recolhido numa cuba grande e armazenado em potes característicos de cerâmica, conhecidos por ânforas, para fermentar, envelhecer e para transporte.

O lagar de vinho em Tell el-Burak. Embora os fenícios tenham difundido a cultura do vinho por todo o antigo mundo mediterrânico, as evidências dos seus empreendimentos locais de fabrico eram escassas até agora. FOTOGRAFIA DE PROJETO ARQUEOLÓGICO DE TELL EL-BURAK

O lagar de vinho foi escavado juntamente com quatro casas de tijolo em Tell el-Burak, estruturas que fazem parte de um assentamento fenício habitado entre os séculos VIII e VI a.C. e que provavelmente se dedicava à produção de vinho para comercializar além mares, escrevem os investigadores.

“O vinho era um item importante no comércio fenício”, diz Hélène Sader, arqueóloga da Universidade Americana de Beirute (AUB) e codiretora do Projeto Arqueológico de Tell el-Burak. O vinho fenício da região de Sidon era particularmente famoso e mencionado nos textos do antigo Egito, acrescenta Hélène.

Mas, até agora, tinham sido encontradas poucas evidências da vinificação fenícia no próprio Líbano, possivelmente devido à natureza aleatória das escavações arqueológicas.

“A costa do Líbano nunca foi exaustivamente investigada e há poucos locais com vestígios da Idade do Ferro [fenícios] devidamente escavados”, diz Hélène.

Contudo, há alguns locais semelhantes de produção de vinho que foram encontrados na costa norte de Israel da atualidade, que pertencia na época aos reinos fenícios de Tiro e Sidon.

Os fenícios não inventaram o vinho – há evidências mais antigas, com 8000 anos, encontradas na Geórgia – mas espalharam a vinificação pelo antigo Mediterrâneo, juntamente com o azeite e inovações como o alfabeto e o vidro.

Estes antigos marinheiros introduziram as vinhas e a vinicultura nas suas cidades colónia no norte de África, na Sicília, França e Espanha. E tornaram o vinho popular através do comércio com a antiga Grécia e Itália, onde o vinho de uvas silvestres já era conhecido, mas não tão desenvolvido, diz Stephen Batiuk, arqueólogo da Universidade de Toronto, que não participou no estudo.

“Os fenícios podem ter introduzido uma cultura de bebida, [novos estilos para] recipientes para beber e uma forma diferente de relação com o vinho”, diz Stephen.

O amor dos fenícios pelo vinho estendeu-se à religião, e o seu uso cerimonial também se refletiu noutras religiões do Próximo Oriente.

O arqueólogo Patrick McGovern da Universidade da Pensilvânia, especialista em vinificação antiga, explica que os fenícios eram descendentes dos cananeus, um povo da Idade do Bronze que também foi predecessor dos israelitas.

“O vinho era a bebida eleita dos fenícios para os sacrifícios”, diz Patrick. “Mas isso já acontecia com os cananeus, e foi transmitido para o judaísmo e cristianismo.”

Patrick especula que Tell el-Burak pode até ter fornecido algumas das centenas de ânforas encontradas em dois naufrágios fenícios ao largo de Ascalão, em Israel, que datam de aproximadamente a mesma época.

“Analisámos várias ânforas e era vinho”, diz Patrick. “Talvez estas embarcações estivessem a vir de lá.”

O projeto de Tell el-Burak é um esforço conjunto entre uma equipa da AUB e arqueólogos alemães que estudam o sítio desde 2001, embora o local não tenha sido investigado nos últimos dois anos devido às dificuldades económicas do Líbano, diz Hélène Sader.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.