Floricultura e jardinagem Grande Entrevista Hortofruticultura Inovação

Sem saber, há muito que a Terra Verde dotava os agricultores de ferramentas para fazer face à situação que vivemos atualmente

A Terra Verde – Associação de Produtores Agrícolas do Açores – é uma associação sem fins lucrativos que nasceu em 2012, com o lema “Dar Vida à Agricultura”, na altura, ciente das dificuldades da atividade agrícola, nunca imaginou que estaria hoje perante uma situação de grande provação e que exige de todos – produtores, consumidores, intervenientes na cadeia da produção e da distribuição, organizações e entidades governamentais – uma proatividade e união rumo a um futuro melhor.

Com o intuito de defender e salvaguardar os direitos e interesses dos produtores hortofrutoflorícolas dos Açores, desenvolveu um trabalho de proximidade com os produtores regionais, disponibilizando apoio técnico, promovendo a inovação e a tecnologia na agricultura, a sustentabilidade agrícola, proporcionando o acesso a conhecimento especializado em áreas de interesse para a região e estabelecendo parcerias que garantam a oferta das melhores soluções aos seus associados.

Sem saber, a Terra Verde preparava os agricultores para uma luta sem precedentes, disponibilizando ferramentas que hoje estão a ser fundamentais para fazer face às consequências da pandemia por COVID-19, mas acima de tudo, ferramentas que permitem zelar pela segurança e pela saúde de todos aqueles que estão no campo, na distribuição dos que optam por consumir produtos regionais.

O sucesso da Terra Verde traduz-se nas conquistas de cada agricultor na saúde de cada consumidor, e é fruto de um trabalho de equipa entre parceiros, instituições e de proximidade com as entidades governamentais.

Neste momento a área de atuação da Terra Verde abrange a horticultura, fruticultura e floricultura e tem uma equipa composta por duas técnicas na área da agronomia. Em Entrevista o presidente da direção da Associação, Manuel Ledo, retrata-nos este projeto e esta agricultura mais ao pormenor.

Ao longo das próximas páginas, com a colaboração da Terra Verde, é possível conhecer alguns agricultores que com os seus projetos além das culturas tradicionais, estão a introduzir algumas novidades no Arquipélago.

Quantos associados tem a Associação e como se definem?

A associação tem 160 associados, na sua maioria produtores da ilha de S. Miguel, mas também alguns nas ilhas de Santa Maria e Terceira com o objetivo de no curto/ médio prazo, chegar a todas as ilhas com uma equipa técnica que possa desenvolver o mesmo trabalho que fazemos na Ilha de S. Miguel.

Temos três modalidades de associado: o produtor, o estudante e o consumidor. Em qualquer modalidade, o sócio beneficia de condições especiais na participação em formações e eventos realizados pela Associação e no acesso a informação relacionada com a área de atuação da mesma.

O sócio produtor beneficia de apoio técnico regular, condições especiais na utilização do sistema operativo Wisecrop, apoio a projetos de investimento, apoio administrativo, implementação de referenciais de certificação, defesa e salvaguarda dos seus direitos e interesses, representação perante entidades governamentais, etc..

Os sócios estudantes têm acesso privilegiado a informação sobre os projetos e trabalho técnico desenvolvido pela Associação junto do nossos produtores associados, acesso a estágios profissionais e ao desenvolvimento de ensaios com a estreita colaboração dos nossos associados.

O sócio consumidor surgiu por solicitação de pessoas individuais que, não sendo produtores, tinham interesse em comprar produtos aos nossos associados e além disso, são para nós, um importante contributo quando cruzamos as necessidades dos consumidores com a capacidade produtiva dos associados. Resultado da informação que nos chega dos consumidores temos vindo a incentivar a produção de diferentes culturas ou variedades ou por outro lado aproximar o consumidor dos produtores regionais e vice -versa.

Em termos de dimensão, temos produtores com áreas muito pequenas até outros com áreas de aproximadamente 60 hectares, sendo que nos Açores um produtor com hectares já é considerado um grande produtor.

Quais são as culturas mais representativas?

A agricultura dos Açores é marcada por uma diversidade enorme de culturas por produtor, é frequente um único produtor ter 10 a 12 culturas numa única parcela, sendo este um grande desafio a vários níveis. Contudo, as culturas com maior representatividade são a batata, a batata-doce começa a ganhar espaço, a banana, o ananás e de forma geral, o tomate e alface.


Qual tem sido a evolução do setor agrícola nos Açores?

O setor tem vindo a evoluir positivamente nos últimos anos, muito graças ao aumento do turismo na Região. Este, infelizmente é um ano atípico, em que os produtores regionais, à semelhança do que acontece a nível nacional, estão com dificuldade em comercializar produtos como batata, batata-doce, cenoura, entre outras hortícolas que continuam no campo e o mercado não tem capacidade de absorver.

No entanto, entendemos que uma evolução realmente positiva no setor agrícola terá de passar, inevitavelmente, por uma organização dos produtores e da produção, com uma estratégia conjunta que salvaguarde os interesses de todos, um desafio que será difícil de concretizar no curto prazo por questões de mentalidade. Especialmente em S. Miguel, os produtores não têm o espírito de cooperativismo e de associativismo o que faz com que uma evolução no setor demore mais tempo em comparação com outras regiões do País. Na sua maioria, os produtores dominam todo o processo, desde a produção à distribuição e/ou comercialização ao consumidor final, nestes casos é ainda mais difícil mudar mentalidades. A obrigatoriedade de entregar toda a produção numa Organização de Produtores é um requisito que de alguma forma parece assustar os produtores dos Açores, talvez resultante de casos de insucesso no passado.


Quais os pontos fracos e fortes do setor?

O ponto forte é sem dúvida a qualidade e excelência dos produtos produzidos nos Açores. Em relação aos pontos fracos destacamos a pequena dimensão e/ou escala de produção, razão pela qual devemos apostar na qualidade e não na quantidade. A falta de organização dos produtores e da produção, a inexistência de indústria de transformação tal como de infraestruturas de apoio à pós-colheita, fraca estratégia de promoção e valorização do produto hortofrutícola, etc.


Que papel tem a Terra Verde junto dos seus associados?

A Associação tem o papel fundamental de identificar os problemas e dificuldades dos produtores, desde o campo à comercialização dos seus produtos e encontrar soluções rápidas e eficazes, mas também de zelar por melhores condições para os produtores, melhores apoios à produção, equidade entre setores, etc.. Com este princípio, a Terra Verde tem vindo a estabelecer parcerias com diversas empresas e entidades que nos permitem abrir portas do mercado para os produtores e trazer para os Açores o conhecimento, a inovação e a tecnologia.


Quais os principais projetos que a Terra Verde tem a decorrer?

Neste momento, o nosso principal projeto é a certificação ou implementação do referencial localgap/ Globalgap e a certificação em Modo de Produção Biológico. Temos outros que projetos estão relacionados com o desenvolvimento de embalagens biodegradáveis através de resíduos de produtos hortícolas; instalação de estações meteorológicas e sensores nas unidades de produção ao longo da ilha e modelação; e o projeto “Cabazes do Corisco” – que consiste na distribuição ao domicílio de cabazes de produtos exclusivamente regionais e que nos permite fechar o circuito numa perspetiva de “do campo para o prato”, entre outros projetos em desenvolvimento.

No campo da investigação/experimentação, há culturas novas em estudo?

Instalámos recentemente um ensaio de 10 variedades de batata-doce, adquiridas no viveiro Nativaland e que tem como objetivo avaliar o comportamento das mesmas na região, em S. Miguel. O objetivo é melhorar a produtividade da batata-doce, garantindo material vegetal de alta qualidade e além disso proporcionar uma diversidade em termos de oferta de produto, cor, textura, sabor. As variedades instaladas são: Beauregard, Bellevue, Burgundy, Evangeline, Sakura, Bayou Belle, Orleans, Murasaki, Bonita, Radiance. Neste ensaio estamos a avaliar a eficácia do nematoide entomopatogênico, Steinernema carpocapsae (Capsanem), uma solução biológica da Koppert Biological Systems para controlo de Agrius convolvuli, uma das pragas que mais tem causado prejuízos na produção de batata-doce nos Açores e, para a qual não existem produtos fitofarmacêuticos homologados em Portugal.

A cultura do café é também um dos nossos interesses, pois temos recebido vários pedidos de apoio de possíveis investidores, no entanto, a pandemia atrasou todo o processo desenvolvido e formação e instalação de campos de ensaio previstos para este ano. Com o intuito de desenvolver ensaio de variedades na Ilha de S. Miguel, estabelecemos uma relação de proximidade com a APAC – Associação de Produtores Açorianos de Café, com sede na Ilha Terceira para que haja a transferência de conhecimentos/informações e possamos instalar um campo de ensaios no curto prazo também em S. Miguel. Na verdade existem já produtores que têm a produção deste ano vendida para o Alasca, tendo sido reconhecida por um coffee roaster estrangeiro a qualidade e excelência do produto e portanto, será uma cultura de interessante de apostar no futuro.



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