Floresta Investigação

Cortiça no tratamento da doença de Alzheimer

Equipa de investigadoras do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia estudou a utilização de resíduos de cortiça do sobreiro (Quercus suber) como nova fonte de compostos bioativos no tratamento de sintomas relacionados com a doença de Alzheimer.

Este é o primeiro estudo a analisar a capacidade de alguns extratos de cortiça ou de entrecasco de cortiça em inibir a actividade da acetilcolinesterase.

A acetilcolinesterase tem como principal função catalisar a degradação do neurotransmissor acetilcolina. Impedir a sua actividade permite que acetilcolina passe a existir em maior quantidade, contribuindo, assim, para um aumento da actividade de neurotransmissão.

Actualmente, a maioria das terapêuticas farmacológicas utilizadas no tratamento da doença de Alzheimer têm como fundamento a “hipótese colinérgica” – impedir o declínio do neurotransmissor acetilcolina no cérebro, estimulando, assim, os impulsos nervosos entre as células do sistema nervoso, e melhorando, desta forma, os sintomas de demência associados à doença que afecta mais de 50 milhões de pessoas a nível global (dados do relatório de  2019 da Alzheimer Disease International).

Porém, alguns destes fármacos apresentam efeitos secundários graves como a hepatotoxicidade, um maior risco de incontinência urinária, problemas cardiovasculares, perturbações pulmonares, e perda de peso.

Na indústria corticeira, a cortiça constitui a matéria-prima de grande interesse económico, não sendo atribuído um verdadeiro valor-acrescentado aos restantes sub-produtos como é o caso do entrecasco do sobreiro.

Para Joana Ferreira, Investigadora Principal do estudo publicado recentemente na revista científica especializada Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, contando com a autoria de Sara Santos e Helena Pereira, este estudo vem ao encontro da abordagem do Centro de Estudos Florestais para a valorização da biomassa: “bioeconomia circular em que os resíduos, florestais ou industriais, têm de ser aproveitados e originar um produto de valor-acrescentado”.

O know-how do Centro em relação à cortiça é reconhecido nacional e internacionalmente, contudo, a informação disponível sobre a composição química e estrutural do entrecasco de Q. suber é escassa, motivo que levou as investigadoras a analisarem detalhadamente a mesma, particularmente a nível da composição dos extratos polares, ricos em compostos fenólicos e flavonóides, estendendo-se o estudo aos resíduos de cortiça “numa perspetiva de valorização de recursos”.

Composta por uma elevada proporção de metabólitos secundários, a casca (entrecasco e cortiça) é uma potencial fonte de compostos fenólicos o que permite atribuir uma actividade antioxidante relativamente elevada contra os radicais livres nefastos ao organismo humano.

Os extractos de etanol-água do entrecasco de Q. Suber, e os extractos de cortiça, em menor grau, apresentaram interessante actividade inibitória contra a enzima acetilcolinesterase envolvida no processo de neurotransmissão.

Para Joana Ferreira, este estudo “permitiu reconhecer a casca do nosso sobreiro, nomeadamente o entrecasco e a cortiça, como fontes acessíveis de antioxidantes naturais e agentes anti-acetilcolinesterase  promissores no tratamento da doença de Alzheimer ou na diminuição do agravamento dos sintomas associados, resultando na sua possível utilização em fórmulas farmacêuticas”.