Olival & Azeite

Caminhos para o Olival Transmontano

A produção de azeite tem vindo a crescer em Portugal a um grande ritmo nos últimos 10-15 anos, fruto sobretudo da “autêntica revolução” que ocorreu no panorama olivícola nacional, com reconversão e/ou plantações de grandes áreas de olival de regadio, sobretudo no sul do País, mas também nas outras regiões, nomeadamente em Trás-os-Montes e Alto Douro, ainda que nestas em muito menor percentagem e na sua maioria em regime de sequeiro.

A cultura vive um momento único, com produções de excelência em termos de quantidade, mas sobretudo em termos de qualidade, o que se tem vindo a reflectir no aumento da notoriedade do azeite português, que no mercado interno, mas sobretudo no mercado externo, onde a exportação deste “ouro líquido” tem vindo a crescer.

Se o caminho do olival intensivo e superintensivo de regadio se avizinha como mais simples, a realidade do olival tradicional é bem diferente. O que fazer então?? É primeiro necessário que toda Fileira faça uma introspecção no sentido de preservar e potenciar este tipo de olival, convidando para este grupo de trabalho a Investigação Nacional e o Ministério da Agricultura. O desenvolvimento do sector tem sido acompanhado pela investigação nacional? Em alguns casos, sim, mas por exemplo no melhoramento das cultivares tradicionais, nada tem sido feito nos últimos anos em Portugal, que tem ainda um enorme património varietal, que urge conservar e sobretudo estimular.

“A competitividade do olival transmontano terá, obrigatoriamente, que ser alicerçada na produção de azeites de grande qualidade”

A competitividade do olival transmontano, terá obrigatoriamente que ser alicerçada na produção de azeites de grande qualidade, valorizando a DOP “Azeite de Trás-os-Montes” e a futura IGP “Azeite do Douro”, competindo estes no mercado dos azeites de excelência, pois nunca conseguirão ser competitivos ao nível do volume e dos preços. Os azeites extraídos dos olivais tradicionais, são extraordinariamente complexos e harmoniosos, fruto sobretudo das distintas cultivares e terroirs que lhes dão origem.

Em Trás-os-Montes pratica-se uma olivicultura moderna, tecnológica e ambientalmente sustentável, com uma aposta clara nas cultivares autóctones. Esta produção está associada a custos de produção elevados, baixas produções (sequeiro), com difícil ou inexistente mecanização (p.e. no olival do Douro), o que resulta em azeites de qualidade produzidos a um preço mais elevado.

O olival tradicional terá ainda que ter esforços redobrados na consciencialização de que para além da sua função produtiva, apresenta também características que deverão ser consideradas como essenciais para a sua manutenção e apoio, nomeadamente pela diminuição do efeito poluente da agricultura (uso reduzido dos fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos), extensificação e/ou manutenção dos sistemas agrícolas tradicionais extensivos (este tipo de olivais é conduzido na sua quase totalidade em regime extensivo de sequeiro, segundo práticas tradicionais de agricultura, contribuindo para a manutenção do “mosaico” agrícola na paisagem portuguesa, caracterizada pela sua heterogeneidade de culturas agrícolas praticadas), conservação dos recursos e da paisagem rural (estes olivais são sobretudo caracterizados por apresentarem cultivares tradicionais com um enorme potencial genético que urge preservar/ potenciar) e são ainda uma característica intrínseca da paisagem rural portuguesa.

O factor principal da valorização de um produto, passa sobretudo pela sua mais-valia comercial, isto é, potenciar a sua excelência, garantindo a viabilidade e a continuidade da cultura deste tipo de olival tradicional. Neste caso, é necessário concertar estratégias de valorização que passem não só pela promoção da excelência das suas qualidades, efectuada unicamente pelos agentes da fileira, mas sim pela ligação a outros produtos com qualidade certificada produzidos na região, mas também pela promoção da identidade dos territórios, da sua gastronomia e das suas gentes (…).

Urge criar uma “Estratégia Nacional para a Valorização do Olival Tradicional Português” por forma a definir e elencar medidas de apoio à protecção e promoção destas produções.

Autoria: Francisco Ataíde Pavão, Presidente da Direcção da APPITAD – Associação de Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro