EMPRESAS & PRODUTOS Reportagem

Um projeto empresarial que ao mesmo tempo é um laboratório vivo

A Herdade do Freixo do Meio fica localizada na aldeia dos Foros de Vale de Figueira, em Montemor-o-Novo, com o nome a sugerir-nos uma típica exploração agrícola alentejana de grandes dimensões.

Só que aqui vigoram princípios bem diferentes, faz-se agroecologia, predomina o respeito pelo sistema natural e há uma grande preocupação em criar uma harmonia entre as vocações da Herdade.

O responsável pela Herdade do Freixo do Meio é Alfredo Cunhal Sendim e explica à nossa reportagem que se trata de um projeto empresarial, organizado sob a forma de cooperativa integral. Tudo o que une os elementos desta cooperativa são alimentos, com o montado a ser encarado não como um armazém, mas como um sistema que produz outputs. Depois, transformam-se essas matérias-primas em nove microfábricas instaladas na Herdade: charcutaria, padaria, vinho e vinagre, azeite (…).

Outra vocação do projeto é colocar esses produtos à disposição das pessoas e nesse caso, por baixo do chapéu desta cooperativa trabalham com conceitos muito clássicos de mercado como as duas lojas, uma na Herdade e outra no Mercado da Ribeira (Lisboa), uma loja online e outra componente, já mais de economia colectificada.

Preconiza também experiências ecológicas, a nível da interação com o meio ambiente e da forma como nos integramos, entre humanos. Ou seja, resume Alfredo Cunhal Sendim “a Herdade do Freixo é uma panóplia de coisas. Um projeto empresarial que ao mesmo tempo é um laboratório vivo de pesquisa e experiências, ligado a muitas entidades externas”.

Os cooperantes estão organizados em três setores. Há os consumidores, a que chamam coprodutores, na lógica de que quem consome de alguma maneira está ligado à produção e à forma como se obtêm os produtos. “Pretendemos consumidores mais responsáveis, mas para isso têm de ter oportunidade de participar no processo de produção dos alimentos”. Depois os colaboradores, que são as pessoas que trabalham para que toda esta ‘máquina’ funcione e ainda os ‘outros’, que são todas as pessoas que de alguma forma se envolvem no processo, como os proprietários de terra, os moradores da aldeia onde estão as terras (…).

Se estivéssemos apenas ligados ao mercado, na primeira semana de confinamento devido ao estado de emergência não tínhamos conseguido dar resposta às encomendas

Quando abordamos a questão do Covid19 e das implicações que está a trazer para a Herdade, Alfredo Cunhal Sendim recua há quatro anos quando o Freixo do Meio começou a preparar-se para um cenário como o que vivemos agora. “Não se trata de prevermos a pandemia, mas intuímos que alguma coisa ia acontecer porque era impossível continuar como estávamos e tivemos de nos preparar através de uma economia planificada”. Admite mesmo que se tivesse fechado a loja online estaria “morto”, porque do seu ponto de vista é impossível fazer agroecologia baseado num mercado, nomeadamente porque o ciclo temporal do mercado não é compatível com os diferentes ciclos temporais do sistema natural. “As regras do sistema (natural) é que devem determinar como vivemos, e não ao contrário”.

Alfredo Cunhal Sendim

Explica que muito mais que uma plataforma de distribuição de comida, a loja é uma forma de mostrar os princípios que vigoram na Herdade e ‘captar’ mais pessoas para esta forma de vida. “Porque se estivéssemos apenas ligados ao mercado, na primeira semana de confinamento devido ao estado de emergência não tínhamos conseguido dar resposta uma vez que as encomendas dispararam para números na casa dos 200%. Como é que uma empresa agrícola, independentemente do sistema em que esteja, responde a uma procura destas? O que nos defendeu foi termos uma economia planificada. Pegámos em toda a produção segura nos próximos seis meses, ordenámo-la e organizámo-la em quotas CSA [Comunidade que Sustenta a Agricultura] – Programa Partilhar as Colheitas Freixo do Meio, aumentámos o programa e temos uma base de estabilidade fundamental que não é suficiente para a nossa economia, mas significa neste momento 30% da nossa economia total”.

Sobre outros projetos em que a Herdade está envolvida, e que são muitos, Alfredo Cunhal Sendim termina apontando dois ou três, nomeadamente levar mais pessoas a comer bolota e claro, continuar o estudo que permita saber como devemos integrar-nos com o sistema e também a relação com o sistema natural mas na componente humana.

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo, edição de maio 2020.