Agrociência Agropecuária

A produção de porcos machos inteiros ou a Imunocastração são alternativas à castração de leitões: IPEMA fornece soluções

A principal mensagem a reter do Seminário Web do IPEMA: O avanço para processos alternativos à castração cirúrgica é irreversível, mesmo que nos vários países europeus, se optem por diferentes soluções.

Há um consenso crescente, pelo menos na Europa Ocidental, de que a castração cirúrgica de leitões machos deve ser abandonada. A castração cirúrgica com alívio da dor não é sustentável a longo prazo, em sistemas de produção intensiva, embora possa ser uma solução para produtos específicos que têm origem em porcos de maior idade e peso ao abate. Assim, a rede de investigação Pan-europeia IPEMA (Innovative approaches for pork production with entire males) focou-se nas duas alternativas possíveis: a produção de porcos machos inteiros e a imunocastração.

Durante o seminário Web de 15 de setembro, investigadores de toda a Europa partilharam soluções sobre a produção de porcos inteiros ou imunocastrados, abrangendo toda a fileira da suinicultura. Nesse webinar, participaram cerca de 300 pessoas de 30 países.

Questões relacionadas com a produção de machos inteiros e a imunocastração

Os porcos machos inteiros têm tendência para serem mais agressivos e a exibirem comportamentos sexuais, o que pode tornar prejudicial a convivência como os outros indivíduos dentro da pocilga.

A carne de alguns porcos machos inteiros pode apresentar um odor e um sabor desagradável, conhecido como odor de macho inteiro ou odor a varrasco. A carne de machos inteiros apresenta normalmente menor teor em gordura, tornando-a mais macia, e consequentemente menos adequada a produtos de cura a seco, como presuntos. Apresenta, também uma menor capacidade de retenção de água e menor tenrura.

Na imunocastração, é administrada ao animal uma vacina dividida em duas doses, no sentido de interromper a produção de esteroides nos testículos. Este procedimento resulta na eliminação do odor de porco inteiro e tornado o mais calmo relativamente ao seu comportamento. Com o tempo adequado entre a segunda vacina e o abate, os problemas que possam surgir na quantidade e qualidade de gordura no porcos machos inteiros, podem ser minimizados. A injeção, pode causar algum stress nos animais, mas menor grau em comparação com o processo de castração cirúrgica sem alívio da dor. O principal desafio para a imunocastração, é a relutância da maioria dos mercados em aceitá-la ao assumir a sua não aceitação por parte dos consumidores.

Soluções práticas para a produção de suínos machos inteiros e para a imunocastração

Os porcos machos inteiros devem estar separados das fêmeas, para evitar gravidezes indesejadas e para minimizar alterações nos seus comportamentos sociais. Devem igualmente ser colocados em grupos estáveis, com pocilgas estruturadas com espaço suficiente, com materiais de enriquecimento ambiental naturais para explorar.

A alimentação dos animais com dietas ajustadas pode minimizar o problema associado à qualidade da gordura. Contudo, este tipo de dieta pode não ser aplicável a sistemas cujo objetivo seja a obtenção de produtos de salsicharia curados secos, havendo nesse caso a necessidade de produzir carcaças com maior teor em gordura. O aumento do conteúdo de gordura intramuscular, através estratégias de seleção genética e/ou de nutrição, é aconselhável e contribuirá para minimizar o problema de tenrura.

Estratégias na seleção, nutrição e maneio animal, ajudam a reduzir a incidência do odor sexual. A detecção sensorial do odor de macho inteiro através do nariz humano, é usada com sucesso em vários matadouros por toda a Europa, estando a surgir métodos de deteção instrumentais. A carne menos adequada ao consumo em fresco, devido ao seu odor fora do normal, pode, até certo ponto, ser usada de forma até certo ponto em produtos processados, desde que se tomem as medidas adequadas.

Foto: resource.wur.nl

A menos que a vacinação seja ineficaz, a imunocastração não apresenta problemas relevantes em termos de qualidade da carne. A gestão do período de tempo entre a segunda imunização e o abate é uma estratégia útil para se obter o compromisso desejado entre a rendimento produtivo e a qualidade da carne. Quanto maior o intervalo de tempo entre a segunda dose e o abate, mais semelhantes serão os imunocastrados dos porcos castrados cirurgicamente em termos de qualidade da carne, mas também pela ineficiência produtiva. Apesar das preocupações frequentemente levantadas, os resultados da avaliação juntos dos consumidores efetuados pelo IPEMA sugerem que estes, aceitam bem a imunocastração (71% contra 32% para castração cirúrgica sem alívio da dor).

Foto: thepigsite.com

Desafios e trabalhos futuros

Os resultados preliminares obtidos por cientistas do IPEMA indicam que é possível ser realizada uma seleção contra comportamentos indesejados, mas ainda há um longo caminho a percorrer. A detecção sensorial do odor sexual tem pontos fracos, e depende muito de corretas ações de seleção e treino dos provadores. Estão em desenvolvimento, métodos instrumentais que medem os principais odores sexuais associados à suinicultura. Falta ainda implementar uma maneira eficaz de fornecer aos consumidores informações imparciais e baseadas em evidências. Além disso, permanece por resolver a relutância da maioria dos intervenientes europeus na fileira da carne de porco relativamente à utilização da imunocastração.

A implementação bem sucedida da produção de porcos machos inteiros e de imunocastrados depende de uma ação conjunta em todos os níveis da fileira da carne de porco. Todos os intervenientes devem trabalhar conjuntamente para que os esforços feitos não sejam anulados pela falta de ação a um determinado nível ou por ações contraditórias. Devem concordar num compromisso conjunto entre desempenho e qualidade e partilhar custos e benefícios associados à alternativa escolhida de uma forma adequada e justa.

Encontro do Grupo IPEMA em Alghero, Itália

Nota: Adaptação para Portugal da Comunicação resultante do webinar de fecho do projeto da rede de investigação Pan-europeia IPEMA (Innovative approaches for pork production with entire males)

Para saber mais: As apresentações fornecidas a todas as pessoas inscritas antes do Webinar de 15 de setembro e o vídeo do webinar estão disponíveis em: https://shwca.se/ipema2020-public

Consulte também a página da web do IPEMA (http://www.ca-ipema.eu)

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.

Autoria: João M. Almeida1, José A. M. Prates2 e Olga Moreira1

1 INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Fonte Boa, 2005-048 Vale de Santarém

2 CIISA – Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal, Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, 1300-477 Lisboa

* Autor para contacto: joaoalmeida@iniav.pt