Sanidade vegetal Vinha & Vinho

Uma doença tão antiga quanto a cultura da vinha: a Esca

A esca é uma doença tão antiga quanto a cultura da vinha, cujo conhecimento tem vindo a ser melhor compreendido nos últimos anos, e tendo estado associada a um conjunto de outras doenças como a escoriose e a eutipiose, designadas globalmente por “complexo degenerativo do lenho da videira”.

Foto: Carlos Coutinho

Esta doença é causada por um conjunto de fungos, dos quais se destacam os seguintes: Phaeomoniella chlamydospora (W. Gams, Crous, M. J. Wingfield & L. Mugnai) Crous & W. Gams. Várias espécies de Phaeoacremonium (W. Gams, Crous & M. J. Wingfield). Fomitiporia mediterranea (M. Fischer).

A doença pode assumir duas formas:
1 – Apoplexia

Normalmente esta sintomatologia observa-se a meio do Verão, afectando toda a planta. As folhas, com um aspecto normal, adquirem uma coloração verde mais clara, cinzento-esverdeada, e murcham, secando em poucos dias. Os cachos também secam, permanecendo pendurados nas varas. A apoplexia é favorecida por Verões quentes, em particular quando há precipitação seguida por tempo seco e temperaturas elevadas.

2 – Forma lenta (ou crónica)

Pode afectar apenas algumas partes da planta. Observam-se sintomas nas folhas, tronco, varas e cachos. Os sintomas nas folhas manifestam-se no período de Junho a Setembro. Na região de Entre Douro e Minho, são particularmente visíveis em Julho-Agosto. Dado que há descontinuidade na manifestação dos sintomas, as cepas devem ser observadas 3 a 4 anos consecutivos, para que se possam identificar quais são as plantas doentes numa vinha. Os sintomas observados nas folhas não são específicos da doença. As necroses nas folhas observadas na forma lenta podem ser confundidas com problemas fisiológicos, como a carência de magnésio ou o stress hídrico extremo. A morte repentina das videiras (apoplexia), pode ser devida a podridão agárica (Armillaria mellea).

Folhas com manchas amareladas e, mais tarde, acastanhadas, entre as nervuras, ou abrangendo partes da folha.

Em cima: casta de uvas brancas. Em baixo: casta de uvas tintas.

Quais as medidas a adoptar no combate a esta doença?

As medidas a adoptar são de carácter preventivo, visando limitar as contaminações e as fontes de inóculo:

1 – Proceder a uma limpeza cuidada dos terrenos antes da implantação de uma nova vinha.

Pá utilizada no arranque
de uma vinha.

2 – Utilizar material são na implantação de vinhas novas.

3 – Tendo em conta que há descontinuidade na manifestação dos sintomas apresentados pelas videiras com esca, as vinhas devem ser observadas durante 3 a 4 anos consecutivos, marcando-se, em cada ano, as videiras que mostrarem sintomas da doença.

4 – Cortar e queimar as videiras mortas, bem como os sarmentos que apresentem sintomas (manchas de coloração castanha clara a escura, e de consistência dura, podendo também a madeira estar esfarelada).

5 – Podar o mais tarde que for possível.

6 – Durante o período em que se efectua a poda:

  • Podar em último lugar as videiras doentes.
  • Evitar feridas de grande superfície.
  • Podar com tempo seco e sem vento.
  • Proteger as feridas de poda, seja por pincelagem, seja através da utilização de tesouras de poda com depósito para calda fungicida, o que permite simultaneamente desinfectar a lâmina da tesoura.
  • As feridas de maiores dimensões, nomeadamente as que resultam do corte de videiras numa tentativa de as regenerar a partir de lenho são, devem ser protegidas com unguentos de enxertia ou betume industrial.
  • Desinfectar os utensílios utilizados na poda com hipoclorito de sódio a 5%, quando se passa de uma videira para outra.

7 – Investigadores italianos recomendam efectuar um tratamento com um produto à base de cobre, após estragos provocados pela queda de granizo (Di Marco, et al., 2005).

Autora Gisela Chicau – Engª Agrónoma Divisão de Protecção das Culturas

Bibliografia:
Chicau, G.; Aboim-Inglez, M. (1995). Primeiros resultados de um estudo sobre o complexo das doenças do lenho na região do Entre-Douro-eMinho. In Actas 3º Simpósio de Vitivinicultura do Alentejo, 17-19 Maio, 1995, Évora, Portugal, Vol.1, 137-144. Chicau, G.; Aboim-Inglez, M.; Cabral, S. & Cabral, J. P. S. (2000). Phaeoacremonium chlamydosporum and Phaeoacremonium angustius associated with esca and grapevine decline in Vinho Verde grapevines in northwest Portugal. Phytopathol. Mediterr. 39: 80-86. Chicau, G. (2004). Esca II Jornadas do Vinho Alvarinho, 25 e 26 de Junho de 2004 (Monção e Melgaço). Di Marco, S. & Osti, F. (2005). Esperienze di lotta al mal dell’esca. Quaderni di informazione Agro-Ambientale. II Divulgatore nº 5: 26-34. Mugnai, L.; Graniti, A. & Surico, G. (1999). Esca (Black Measles) and Brown Wood-Streaking: Two Old and Elusive Diseases of Grapevines. PlantDisease, 83 (5): 404-418. Viret, O. & Siegfried, W. (2004). Esca. Revue Suisse de Viticulture, Arboriculture et Horticulture 36 (5).

Subscreva a nossa publicação e receba mensalmente outros artigos: