EMPRESAS & PRODUTOS Hortofruticultura

“Suenio” é a nova aposta da Vilmorin no mercado português

Variedades que não se afirmem uma mais-valia são condicionadas às exigências de mercado

De acordo com os últimos dados estatísticos disponibilizados pelo GPP, no ano de 2018 cultivaram-se 1720 hectares de cenoura em Portugal, grande parte dos quais situados na região do Montijo, sendo a Primohorta é responsável por 400 a 500 hectares de produção anual, reunindo dez associados que no conjunto cultivam 1200 hectares, ocupados também por outras culturas, nomeadamente a batata e cebola.

Sobre esta matéria o técnico agrícola da Primohorta, Gonçalo Pinto Coelho, reforça a importância do pousio porque o terreno desocupado não deixa de ser uma forma de controlar algumas pragas e doenças. Já a cenoura volta a ser cultivada no mesmo local apenas de três em três anos.

Gonçalo Pinto Coelho exerce estas funções há quatro anos mas foi produtor de cenoura durante 20 e, enquanto tal, regista uma evolução notável a nível de variedades sobretudo à resistência a algumas doenças, além da melhoria de parâmetros quantitativos e qualitativos. Outro aspeto prende-se com a resposta à necessária mecanização da cultura, tanto na sementeira como na colheita / embalagem. Reporta-se à Vilmorin, enquanto empresa obtentora de sementes, que tem conseguido acompanhar estas exigências com a grande vantagem, no entender do técnico, de apresentar variedades de estação e contra-estação, “altamente produtivas e que trazem um produto final de qualidade acima da média. Soma-se ainda o acompanhamento que a própria empresa – Vilmorin – e o distribuidor na região – Eucligomes – também proporcionam à associação e aos agricultores”.

Além das variedades mais tradicionais e já conhecidas, como a ‘Maestro’ a ‘Exelso’ e a ‘Soprano’, Gonçalo Pinto Coelho refere-se igualmente à ‘Suenio’ (a nova variedade pré-comercial) e para já “regista uma maior precocidade agregada à qualidade e produtividade. Além de diminuir os custos com fatores de produção, poderá ainda vir a ganhar-se ao nível das resistências a algumas doenças e pragas, o que a confirmar-se (com o tempo) será um fator diferenciador muito relevante”, admite o técnico que define a cultura como muito exigente, com elevado custo de produção.

“Hoje a horticultura tem uma expressão com valor acrescentado que não tinha no passado”

A Primohorta é uma Organização de Produtores com 20 anos e que traçou um percurso que tem procurado consolidar o negócio da cenoura da melhor forma, quer em termos de segurança alimentar, quer da própria qualidade do produto a fornecer. Assume que com a colaboração de toda a fileira tem-se verificado um aumento substancial da qualidade da cenoura nos últimos anos com capacidade para rivalizar com outros países produtores e de dar resposta à exigência dos mercados, nomeadamente o alemão que pede resíduo zero. Na Primohorta a estratégia é estar nesse nível e como tal todos os anos 30% da produção é exportada para a Alemanha, avança o sócio-gerente da OP, Paulo Leite.

Precisamente para este mercado foi desenvolvido um novo produto, a chamada ‘snack carrot’ para o qual este ano estão programados cerca de 30 hectares, sendo que cada hectare é semeado com cinco milhões de sementes, resultando em cenouras com 10-12 cm de calibre no máximo. Traduz-se depois num valor acrescentado para o produtor, uma vez que é um produto comercializado a preço superior.

Em termos comerciais, o mercado da grande distribuição privilegia a embalagem de um quilo ou dois quilos, enquanto que para exportação segue tudo a granel em ‘big bags’, com os clientes finais a embalarem com as próprias marcas. Paulo Leite assume fazer pressão para que se trabalhe cada vez mais o granel, de forma a reduzir a pegada em relação ao uso do plástico.

(da esquerda para a direita) Gonçalo Pinto Coelho, Amândio Magrinho, Paulo Bártolo (produtor), Paulo Leite e Rogério Gomes.

Com a retirada de substâncias ativas do mercado as variedades assumem um papel ainda mais relevante na cultura

A Eucligomes – Comércio de Produtos para Horticultura e Floricultura – é a distribuidora de sementes Vilmorin que trabalha diretamente com a Primohorta e tem assistido a uma forte profissionalização quer dos produtores quer da própria distribuição. O responsável, Rogério Gomes, destaca a importância desta zona de produção de cerca de 700 hectares de cenoura e que enfrentam algumas dificuldades sobretudo resultantes da retirada de produtos do mercado, quando em contrapartida existem LMR a cumprir. Sobre a Vilmorin, classifica-a como “líder de mercado” e é assim que a Eucligomes também se considera, na linha da frente com várias variedades novas como a ‘Suenio’, ainda précomercial mas já a demonstrar grande potencial (ver página seguinte). Referência igualmente para a ‘Subito’ e ‘Speedo’, ambas de ciclo mais curto que outras disponíveis no mercado, além de apresentarem várias vantagens do ponto de vista qualitativo.

Apesar destas novidades, as variedades mais tradicionais da Vilmorin onde se inclui a ‘Soprano’ e a ‘Maestro’ continuam a ser as mais procuradas pelos produtores, enquanto que paralelamente se mostram interessados em ensaiar coisas novas, porque no final, “o que querem é quilos para rentabilizar a cultura”.

Junto dos produtores a Eucligomes apresenta as novidades em parceria com a Vilmorin, mas faz também o acompanhamento de toda a cultura, para além do fornecimento dos vários fatores de produção. Esta é uma relação privilegiada pela Vilmorin assume o delegado comercial, Amândio Magrinho, uma vez que a presença constante da Eucligomes junto dos produtores além de uma resposta pronta, liberta espaço à Vilmorin para outro tipo de acompanhamento, por forma a poder oferecer soluções e dar resposta a um mercado cada vez mais exigente ao nível da produção e junto do consumidor final. Referir que é distribuidor mais antigo da empresa em Portugal.

“Na Vilmorin procuramos sempre variedades que gerem confiança no produtor”

Amândio Magrinho mostra o comportamento da variedade ‘Suenio’ no terreno.

A panóplia de opções que fazem parte do portefólio da Vilmorin a nível da cultura da cenoura é demonstrativa do significado da mesma, que aliás esteve na base da sua criação, com uma forte componente de investigação, que lhe permite uma posição de liderança a nível mundial, assume o delegado comercial Amândio Magrinho.

Trata-se de um leque de variedades com opções que permitem aos agricultores produzirem durante todo o ano e com um nível de qualidade contínuo. É precisamente o que pede a região do Montijo, focada na exportação, caracterizada por produtores especializados e em que a Vilmorin representa 85 a 90% do mercado.

Na descrição de Amândio Magrinho, o que distingue as variedades da Vilmorin centra-se essencialmente naquilo que aportam aos produtores, “qualidade do produto final e confiança naquilo que estão a produzir, porque são variedades que se mantêm muito homogéneas e asseguram rentabilidade”.

Variedades como a ‘Maestro’, ‘Soprano’ ou ‘Exelso’ são já referências para o setor por se adaptarem facilmente às nossas condições de produção e reconhecidas pelo agricultor pelas qualidades que aportam.

Mas a inovação não pára e já em fase pré-comercial encontra-se a ‘Suenio f1’, “uma novidade com uma genética diferente que revela precocidade e apresenta tolerância a nemátodos e a candidatus liberibacter”. Desta forma a Vilmorin está a dar resposta ao agricultor para o facto de ter cada vez menos “armas” disponíveis para o controlo de pragas e doenças, sobretudo os nemátodos, um dos principais inimigos da cultura e que não deixa de ser uma preocupação para a produção. “A ‘Suenio’ é uma variedade de estação (primavera-verão), de ciclo curto, cilíndrica e bem rematada, de excelente cor e um ótimo sabor, além de bem adaptada à colheita mecânica”.

A empresa está a trabalhar numa linha de variedades resistentes a nemátodos, para cobrir todo o ciclo de produção (estação e contra-estação) e introduzir também mais resistências tanto a nível foliar como radicular, registando-se já algumas novidades em testes na zona de Valladolid (Espanha), onde se situa o campo de investigação para a península ibérica, e que provavelmente no próximo ano entrarão na fase de desenvolvimento pré-comercial. Esta nova linha de investigação e melhoramento tem como objetivo por parte da empresa ir ao encontro das novas exigências de produção e dos mercados de consumo, nomeadamente a questão da redução de LMR no produto final.

Amândio Magrinho não tem dúvidas que “as novas variedades que não se afirmem como uma mais-valia, nomeadamente ao nível do melhoramento genético, estão condicionadas nas novas exigências de mercado”.

Artigo publicado na edição de novembro 2020.