Hortofruticultura Novas culturas

Grupo Operacional “Fruta Dragão” dinamiza nova cultura

Origem e expansão da pitaia

Figura 1- Pitaia no momento da colheita

Originária das florestas das zonas tropicais e subtropicais da América, a pitaia é cultivada naquele continente desde há vários séculos, tendo-se naturalizado em muitas zonas da América Latina. É, por isso, difícil definir exatamente qual o seu centro de origem. Ainda assim, a planta só era cultivada em pequenas plantações para uso doméstico e venda em mercados locais. Só no virar do séc. XX para o séc. XXI é que a pitaia começou a ser cultivada em maior escala no continente americano. É também nesta altura que a pitaia se expandiu por todos os continentes, sendo hoje uma cultura importante em países como o México, Costa Rica, Colômbia, Nicarágua, Tailândia, Israel e Vietnam. No caso deste último país, a pitaia é o fruto mais exportado. No Brasil a cultura está a expandir-se rapidamente.

Em relação à Europa, só os países da bacia mediterrânica têm condições climáticas para o cultivo da pitaia. Espanha já conta com mais de 50 produtores, alguns dos quais converteram as suas explorações de pequenos frutos para a produção de pitaia. Também o interesse dos produtores portugueses é cada vez maior e, com o contributo do presente projeto, algumas empresas já estão a investir nesta cultura.

Usos e valor nutritivo dos frutos O aumento da produção está relacionado com o aumento do consumo e com os preços elevados que a fruta atinge na maior parte dos mercados. Trata-se de um fruto de enorme versatilidade, que é consumido em fresco e em produtos transformados (gelados, compotas, licores e outros).

No caso do consumo em fresco, pode ser servido sozinho, como fruta, mas também é muito útil em saladas e em diversos pratos de alta cozinha. Estes diversos usos são potenciados pelo aspeto único do fruto (figura 1), com cores apelativas, presentes quer na casca quer na polpa (figura 2), textura muito característica e sabor suave. A doçura e a acidez da polpa são muito variáveis, dependendo da cultivar, do clima e das práticas culturais, podendo ir ao encontro das preferências de diversos tipos de consumidores.

Quanto ao valor nutritivo, a pitaia é o fruto adequado para uma dieta moderna das populações urbanas. Com baixo índice calórico e rico em fibras (presentes nas numerosas sementes), este fruto é muito útil nas dietas de emagrecimento.

 

Figura 2 – Variedade de polpa branca e
variedade de polpa vermelha

Os elevados teores de compostos bioativos como pigmentos, vitaminas e compostos fenólicos, constituem mais um aspeto positivo deste fruto. A pitaia é ainda fonte de cálcio, ferro, potássio e fósforo. Uma alimentação rica em pitaia ajuda no combate ao diabetes tipo 2, por favorecer a redução da glucose no sangue. Contribui ainda para a prevenção do cancro do cólon e para a redução das infeções bacterianas.

O elevado teor nutricional e o aspeto exótico do fruto tornam a pitaia cada vez mais desejada nos mercados europeus e asiáticos.

Grupo Operacional “Fruta Dragão”

O desenvolvimento do grupo operacional “Fruta Dragão: Validar a capacidade produtiva da pitaia vermelha” (PDR2020-101-031201) surgiu da necessidade de contribuir para a dinamização da fruticultura da região algarvia, criando condições para a expansão desta cultura e desenvolvendo tecnologias de produção sustentáveis e competitivas que sejam adaptadas às condições edafoclimáticas do Algarve. O facto de se tratar de uma “nova” cultura cujas necessidades em água são muito baixas, em comparação com culturas cujo cultivo é característico da região há muitos anos, como é o caso dos citrinos, acentuou o interesse em estudar as necessidades e os problemas do seu cultivo. Tem-se como objetivo a longo prazo, alcançar uma produção quase constante ao longo do ano, de forma a satisfazer as necessidades do mercado nacional e internacional.

O projeto “Fruta Dragão” é financiado por fundos da União Europeia, através do programa PDR2020, no âmbito dos grupos operacionais. Este GO é formado por parceiros que desempenham funções específicas no desenrolar das atividades do projeto: Consulai, A JAP, Universidade do Algarve, Luís Sabbo, Mil Plantas e Desafio Tropical.

De forma a dar a conhecer os benefícios desta “superfruta” e as técnicas de cultivo mais apropriadas, os propósitos do GO passam por desenvolver um manual técnico onde serão apresentadas as boas práticas culturais, que incorporará o conhecimento adquirido nos ensaios que estão a decorrer. Estão a ser promovidas ações de divulgação através do site do projeto (www.frutadragao.pt), da publicação de artigos e da apresentação de comunicações em diversos eventos. O trabalho inicial do GO baseou-se no levantamento da situação da cultura em Portugal, através da recolha de informação relativamente a explorações agrícolas produtoras ou plantas isoladas. Verificou-se que a pitaia está presente em Portugal há muitos anos como planta ornamental que raramente produziria frutos. Como cultura frutícola, a produção está sobretudo no Algarve, onde havia cerca de uma dezena de explorações com mais de cinquenta plantas em cada uma delas e que tinham como objetivo a venda de frutos. Havia ainda outras tantas pequenas plantações (com menos de cinquenta plantas). Fora do Algarve existiam também explorações de dimensão significativa na península de Setúbal, no Ribatejo e em Coimbra.

Já foram realizados dois dias abertos com o objetivo de divulgar a pitaia a potenciais produtores. Nestes dias foram dados a conhecer os ensaios desenvolvidos em viveiro e ao ar livre e foram feitas visitas a plantações de dois agricultores que, embora não integrem o grupo operacional, colaboram com o projeto. Um deles iniciou a plantação em colaboração com o projeto. Os ensaios em curso no campo consistem na caracterização de variedades, cobertura de solo, densidade de plantação, sistema de condução (figura 3) e sombreamento natural. No viveiro Mil Plantas há também ensaios de caracterização de variedades, de textura de solo, sombreamento e nutrição.

Figura 3 – Um dos sistemas de tutoragem em estudo, com mulching como
cobertura de solo

Em laboratório faz-se a avaliação da sanidade das plantas através da análise de amostras recolhidas em visitas de campo a várias zonas. Aqui o objetivo será a determinação de doenças e pragas que possam afetar a cultura nas nossas condições.

Aspetos da planta e do seu cultivo

A pitaia é uma planta perene, trepadeira, que, por não ser capaz de se sustentar por si própria, tem necessidade de um suporte/sistema de tutoragem. Na natureza, do caule designado morfologicamente por cladódio, surgem raízes adventícias aéreas que permitem que a planta se fixe a muros ou a árvores e que contribuem também para a absorção de nutrientes. Quando se trata de produção comercial existem vários métodos de condução adequados que permitem a rentabilização da área cultivada.

A planta necessita de climas relativamente quentes e é em regiões cujas temperaturas médias se situam entre 18 e 26ºC que apresenta bom desenvolvimento. A precipitação adequada ronda valores de 500 a 700 mm (precipitação em exagero pode causar a abcisão floral e o apodrecimento dos frutos). Nas nossas condições, com verões quentes e secos, a rega é indispensável para a obtenção de frutos de qualidade, mas o consumo de água será sempre muito inferior ao da maioria das culturas frutícolas de regadio.

Figuras 4 e 5– Botão floral e flor aberta nas primeiras horas da manhã

Da família das cactáceas, a pitaia é uma planta CAM (com o metabolismo ácido das crassuláceas). Estas plantas abrem os estomas durante a noite, permitindo a difusão do CO2 para o interior dos cladódios. Este CO2 é armazenado no interior de vacúolos até o dia seguinte, sob a forma de um ácido orgânico. Durante o dia as plantas podem realizar a fotossíntese, sem abrirem os estomas, usando o CO2 armazenado durante a noite. Assim, estas plantas conseguem abrir os estomas apenas durante a noite, quando as temperaturas são mais baixas e o ar está mais húmido, o que permite um uso mais eficaz da água em comparação com outras fruteiras tropicais. A floração (figuras 4 e 5) pode ocorrer no ano seguinte à plantação (maio a setembro), dependendo das condições do local e do grau de desenvolvimento da planta que foi instalada. No entanto é a partir do terceiro ano que é registada uma floração mais intensa, de forma constante e durante mais tempo. Isto deve-se a que é nessa altura que a planta apresenta uma boa acumulação de reservas.

Importância económica e perspetivas futuras

A dinamização da fruticultura da região algarvia nos últimos anos tem passado pela recuperação de culturas antigas que tinham perdido importância e pela inclusão de novas espécies. As condições edafoclimáticas favoráveis ao seu cultivo tornam a pitaia (Hylocereus spp.), uma cultura com elevado potencial de adaptação.

Esta cultura apresenta viabilidade económica em terrenos de pequenas dimensões (uma boa solução para pequenos agricultores). A pitaia começa a ser encarada como um fator de diferenciação, principalmente para produtores que sentem a necessidade de diversificar as suas produções. A escolha desta “nova” cultura está associada à expectativa de um rápido retorno económico para compensar a queda de preço de outros produtos.

Aliando as perspetivas de rendimento da cultura com as características nutricionais interessantes para a dieta humana, a pitaia pode bem ser uma das melhores opções para a diversificação da fruticultura algarvia.

A acrescentar à poupança de água que a pitaia permite, há que inovar/desenvolver tecnologias de produção amigas do ambiente e competitivas que coloquem esta cultura num lugar de destaque, dentro de uma agricultura sustentável e competitiva.

O aumento da produção portuguesa de pitaia irá reduzir as importações e poderá mesmo contribuir para o aumento das exportações de frutas produzidas em clima mediterrânico, para os mercados do norte da Europa.

Autoria:

Ana Trindade 1 | Luís Sabbo 2 | Diamantino Trindade 3 & Amílcar Duarte 1*

  • 1 – MED-Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Algarve, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Campus de Gambelas, 8005-139 Faro.
  • 2 – Desafio Tropical/Luís Sabbo, Frutas do Algarve, Lda. Estrada Nacional 125; caixa postal 185 G, 8800-515 Tavira
  • 3 – Mil Plantas, Sítio do Pereiro, caixa postal 250 X, 8700-123 Moncarapacho
  • * aduarte@ualg.pt

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Artigos completos na edição de novembro 2020.

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