Grande Entrevista

A próxima década será de grande transformação estrutural

Vasco Cunha, responsável pelo AgroNegócio do Millennium BCP

Vasco Cunha entrou na Banca em 1993, no Banco Pinto & Sotto Mayor.

É neste setor que faz carreira até meados de 2002, quando foi eleito Deputado à Assembleia da República e suspendeu funções, então já no BCP. No Parlamento, como eleito pelo distrito de Santarém passa a acompanhar com maior proximidade a atividade do setor primário, desenvolvendo ainda atividade na Comissão Parlamentar de Orçamento e Execução Orçamental. Mais tarde, em 2011, na Assembleia da República, foi eleito Presidente da Comissão Parlamentar da Agricultura e Mar, até 2015, altura em que regressa ao MBCP.

Integra a equipa de Fundos Europeus dedicada ao acompanhamento das diferentes redes comerciais do Banco em todo o país e regiões autónomas, assumindo o acompanhamento individual da execução do Portugal2020, do PDR2020 e Mar2020, no setor primário, na economia social e no setor institucional do Estado, em particular dos Municípios.

Em abril de 2018, e por indicação do MBCP, assumiu funções de Administrador da Agrogarante, também como membro da sua Comissão Executiva, e recebeu autorização “Fit & Proper” do Banco de Portugal em agosto de 2018, passando a desempenhar funções de pleno direito, até à presente data.

Nesta entrevista o responsável pelo AgroNegócio do Millennium BCP explica-nos de que forma o Banco encara o setor primário, que soluções disponibiliza e até onde ainda pode ir.

Tínhamos de ter soluções disponíveis e flexíveis para a agricultura e o mundo rural, para a floresta e a silvicultura, para o mar, as pescas e a aquacultura, bem como para todas as suas indústrias transformadoras.

Qual é o posicionamento do setor agrícola (no geral) dentro do Millennium BCP? O Millennium BCP é um Banco com forte presença em todos os setores da economia portuguesa e, como tal, não podia ser alheio ao que se passa no setor primário. Logo que foram ultrapassadas as dificuldades do período de intervenção da ‘troika’, em Portugal e no sistema financeiro, que entre outros condicionalismos nos colocaram algumas restrições na concessão de crédito, o Banco voltou em pleno à sua vocação. Ora este período marcante coincide parcialmente com o arranque para a execução dos fundos comunitários do Portugal2020 e da aplicação do PDR2020 e do Mar2020 no país. Esta oportunidade de 3,5 mil milhões de euros para o setor primário, sobretudo entre 2015 e 2020, levou genericamente todo o setor financeiro a adequar as suas ofertas e serviços comerciais ao que aí vinha. Para nós, tratava-se de assegurar que o Millennium BCP estaria na primeira linha de acompanhamento, com capacidade de resposta, conhecedora e competitiva, para responder às necessidades de financiamento dos clientes, dos empresários agrícolas e dos agricultores.

Não esqueçamos que o setor primário já tinha dado continuadas provas de resistência e resiliência durante a crise da dívida soberana. Era, e continua a ser, uma realidade inquestionável. A esta circunstância, juntava-se a Política Agrícola Comum, já com várias décadas de aplicação no país, cada vez mais universalizada no seu acesso, muito bem conhecida pelos seus agentes, sendo responsável por cerca de mil milhões de euros anuais de despesa direta da União Europeia e do país. Em suma, com toda a naturalidade, mas com conhecimento técnico, o Millennium BCP tinha de corresponder a estas expetativas dos seus clientes e dos não-clientes, contando como um parceiro financeiro que conhece o setor e está preparado para os apoiar. Tínhamos de ter soluções disponíveis e flexíveis para a agricultura e o mundo rural, para a floresta e a silvicultura, para o mar, as pescas e a aquacultura, bem como para todas as suas indústrias transformadoras.

Qual ou quais os setores mais representativos? De uma forma geral correspondemos equilibradamente ao que o setor produz e transforma. Na carteira de responsabilidades temos o olival e o azeite, os frutos secos e em particular a castanha e o amendoal, a vinha o vinho, as pescas e as conservas de peixe, as hortícolas e as frutas de uma forma geral, o leite e seus derivados, as diversas carnes, o montado, a cortiça e as atividades da silvicultura. Mas a isto associa-se a maquinaria e os equipamentos, os fatores de produção e o importante desempenho das transformadoras industriais. Admito que, por exemplo, a agricultura biológica ainda não tenha grande expressão. Mas estamos disponíveis para fazer mais.

Mesmo noutras áreas onde a presença do Estado e da União Europeia tem sido exclusiva no financiamento. Se nos quiserem abordar para encontrar soluções de financiamento conjuntas para o Programa Nacional de Regadios e apoiar as associações de regantes ou, falar com as operadoras, e levar a revolução digital da 5G ao mundo rural, estamos disponíveis para dialogar e avaliar soluções de parceria. A próxima década tem de ser de grande transformação estrutural.

Criámos uma equipa especializada, inteiramente dedicada ao agronegócio, que acompanha com proximidade as redes comerciais do Millennium BCP.

Qual é em média o valor anual de crédito concedido a este segmento? É difícil explicar uma média quando o ano de 2020 ainda não acabou e foi tão atípico por força da pandemia. Nalguns casos o investimento foi suspenso ou adiado e nalguns outros, as necessidades de tesouraria e os fundos de maneio acabaram por se impor. O setor sentiu as dificuldades, mas reagiu quase de imediato. Mostrou novamente força, resiliência e um acrescido grau de profissionalização, tal como já o tinha demonstrado durante a crise do início da década. Esta extraordinária reação mostrou que o setor primário, de uma forma geral, estava em condições de resistir e contribuir para ultrapassar as dificuldades. Reconhecendo que nos últimos anos tivemos um crescimento muito positivo nas responsabilidades assumidas com o setor primário, diria que até outubro já teríamos mais de 840 milhões de euros colocados ao serviço dos complexos agroalimentar e florestal.

Qual é a estratégia do Banco junto dos empresários agrícolas? Criámos uma equipa especializada, inteiramente dedicada ao agronegócio, que acompanha com proximidade as redes comerciais do Millennium BCP. É essa a sua missão principal. A palavra que melhor resume a nossa orientação é “presença”. E com isso queremos assegurar proximidade, agilidade, flexibilidade e parceria. Para estarmos presentes desde o mais pequeno micro-negócio de um empreendedor até à solução financeira mais sofisticada que um grupo económico nacional nos queira submeter, mesmo no desafio do mercado externo, com as exportações e os movimentos de internacionalização. Para esse efeito acompanhamos os agricultores e as empresas com soluções que se iniciam na preparação do projeto, acompanham a vida do projeto e se mantêm duradoiras, apoiando o investimento com grande proximidade.

Assumimos que cada projeto tem uma identidade única e específica, o que nos determina para uma parceria estratégica, capaz de albergar propostas de valor nas mais diferentes escalas. Desde a pequena agricultura familiar até á grande agricultura intensiva.

Queremos apresentar soluções concretas e específicas, devidamente ajustadas ao ciclo de vida das explorações, com vocação e exigência para prestar um serviço de excelência.

Hoje em dia, o Millennium BCP beneficia da experiência muito bem-sucedida na execução do Portugal2020, e por extensão do PDR2020 e do Mar2020, que nos conduziu à liderança no apoio ao investimento empresarial, materializado em cerca de 2 mil milhões de euros de financiamento aceite ou contratado, em mais de 4.200 operações de financiamento aos projetos domiciliados no Banco. Temos, por isso, uma grande responsabilidade.

Sendo os equipamentos agrícolas um dos maiores custos nas contas de cultura, qual tem sido a relação entre o Banco e os fabricantes? Temos muito boa relação, regra geral, com os fabricantes nacionais, com os importadores e com a rede distribuidora em Portugal. Para além do financiamento na aquisição direta dispomos, também, de soluções leasing que levam em consideração as necessidades específicas de cada agricultor, com soluções flexíveis, admitindo a fixação de rendas sazonais ajustadas ao ciclo de exploração, com flexibilidade negocial nos prazos, nas entradas iniciais e na formulação do valor residual final. Sentimos que podemos melhorar ainda mais a atividade que desenvolvemos e estamos a trabalhar nisso.

Como é que o Millennium se prepara ao nível do conhecimento do setor agrícola, uma vez que é uma área de negócio muito específica? Essa é uma das nossas preocupações permanentes. E ela desenvolve-se em vários níveis. Em janeiro de 2017, demos um passo importante nessa orientação. Celebrámos um acordo de parceria com a AGRO.GES que tinha várias prioridades, designadamente na formação específica de colaboradores nas redes comerciais e na decisão de crédito, no aconselhamento técnico e científico para a avaliação de risco, na identificação de oportunidades de negócio e no acompanhamento de clientes.

Esta parceria tem corrido muito bem e mais, recentemente, tendo detetado uma falha de mercado relativamente à informação que circula sobre o negócio agrícola, avançámos – em 2019 – para uma publicação trimestral, a ‘Millennium AgroNews’, com o objetivo de auxiliar o empresário e o investidor, com informação mais precisa, pormenorizada e segura, sobre o ponto de situação em que se encontra uma determinada fileira e as suas produções, mas também assumindo a responsabilidade de retratar nesse exame qual o nível estimado de risco. Trata-se de uma publicação inédita em Portugal e dirigida aos agentes que operam direta ou indiretamente no setor primário, mas também com relevo para os operadores no âmbito do mercado financeiro e da economia em geral. A sua 6ª edição sairá durante este mês de dezembro.

Paralelamente a este trabalho, eminentemente mais interno, a equipa de agronegócio assegura externamente a constante presença e diálogo junto dos principais stakeholders, desde os empresários aos responsáveis institucionais ligados ao setor, dos dirigentes associativos e cooperativos às organizações de produtores, por forma a manter elevados níveis de informação e conhecimento do que se passa na atividade. Por isso, é muito importante que façamos o acompanhamento dos principais debates e iniciativas que os diferentes agentes promovem, ao longo do ano e em praticamente todas as produções e transformações, recolhendo e atualizando informação.

Avançámos – em 2019 – para uma publicação trimestral, a ‘Millennium AgroNews’, com o objetivo de auxiliar o empresário e o investidor, com informação mais precisa, pormenorizada e segura, sobre o ponto de situação em que se encontra uma determinada fileira e as suas produções, mas também assumindo a responsabilidade de retratar nesse exame qual o nível estimado de risco.

Que produtos tem para o agronegócio? O Millennium BCP tem um leque de oferta comercial que vai desde as soluções de curto prazo, do “crédito de campanha” até 12 meses e do apoio na antecipação das ajudas do Pedido Único – o PU anual que é liquidado através do IFAP, passando pelas soluções de fundo de maneio até ao financiamento de médio e longo prazo ao investimento. Para o efeito, dispomos de linhas próprias, nalguns casos com funding do Banco Europeu de Investimento (BEI) e, noutros casos, com suporte na garantia prestada pelo FEI. Neste caso, em particular, somos o Banco que, em Portugal, mais opera com Linhas FEI e temos uma experiência consolidada de há vários anos, nas suas opções de Inovação, do Cosme, do Social e até, recentemente, das Indústrias Criativas. Recorremos, também, às sociedades de garantia mútua, e em particular à AGROGARANTE, nas várias linhas que aí são disponibilizadas para as diferentes dimensões do negócio do setor, algumas delas com uma natureza muito própria e especial. Em paralelo, desenvolvemos Protocolos de colaboração com a CAP e com a AJAP que permitem a todos os seus associados beneficiar de toda esta gama de soluções de primeira linha em condições competitivas. Mais ocasionalmente, nas medidas de apoio ao mercado que o Ministério da Agricultura ou o Ministério do Mar promovem, através de linhas de crédito setoriais e dedicadas, damos apoio ao IFAP na sua divulgação e comercialização, como sucedeu recentemente para as Intempéries, a Floriculturas ou as Pescas.

Para além de todos estes instrumentos que servem de base para a nossa atividade geral, mas também para o desenvolvimento dos projetos do PDR2020 e do Mar2020 no apoio a todo o setor primário, a nossa oferta não se esgota aqui. Ela inclui ainda os projetos aprovados noutras gavetas de concursos do Portugal 2020, como o COMPETE 2020 ou o mais recente Sistema de Incentivos híbrido para a Inovação, destinados designadamente à transformação agroindustrial. Em resumo, é uma oferta bem alargada e bastante flexível de articular.

O negócio agrícola tradicional que passava pelos Bancos, com especificidades próprias, como as carências, as sazonalidades, os ciclos de produção, o valor da propriedade, as contrapartidas garantísticas, etc., passará nos próximos anos a incluir e a cruzar novas orientações para as quais temos de estar preparados.

Dentro dessas soluções quais ou quais as de maior adesão? E porquê? Parece-me fácil de identificar que a maior concentração de financiamento se encontra na dupla vertente da produção de bens alimentares e a da sua transformação. Nos últimos anos assistimos a um bom investimento na modernização das explorações e nos mercados de produtos agrícolas, mas também na readequação ou na construção de novas infraestruturas industriais para a transformação. Foi possível verificar que, quer os produtores, quer a produção, passaram a beneficiar de um grau de profissionalização ainda mais qualificado. É evidente que esta realidade não é o paraíso, mas no balanço do que foi conseguido o saldo é nitidamente positivo. Apesar da superfície agrícola útil não ter aumentado, creio até que reduziu, houve a preocupação dos agricultores e dos empresários em transformar as explorações com novas metodologias e acrescentar tecnologias. Os mercados agrícolas adaptaram-se. Várias culturas beneficiaram da modernização dos canais de distribuição e contribuíram positivamente para a nossa balança comercial. O regadio veio acrescentar valor e trouxe produtividades muito interessantes. O valor da propriedade agrícola valorizou. Mas, temos também de reconhecer que há ainda muito por fazer.

Os agricultores podem contar com novidades para breve? Sim. Mas não posso ainda aqui antecipar. Estamos a trabalhar nisso. Uma parte das grandes decisões não está nas nossas mãos, mas na parte que depende de nós estamos a fazer o trabalho-de-casa. A PAC terá nos próximos anos uma boa dose de orientação decisória com base nas opções nacionais, asseguradas pelos Estados Membros, respeitando um quadro macro de grandes orientações da União Europeia. Ora neste patamar de subsidiariedade, isto é, de garantir uma tomada de decisões tão próximas quanto possível dos problemas identificados, é de esperar que muitos projetos possam ser desenvolvidos de acordo com as especificidades próprias e as necessidades particulares de cada um destes países. E Portugal é um caso peculiar. O negócio agrícola tradicional que passava pelos Bancos, com especificidades próprias, como as carências, as sazonalidades, os ciclos de produção, o valor da propriedade, as contrapartidas garantísticas, etc., passará nos próximos anos a incluir e a cruzar novas orientações para as quais temos de estar preparados.

Confesso que gostaria de ver o Millennium BCP a alargar a sua intervenção para uma ação mais vasta no mundo rural. Refiro-me aos projetos relacionados com o repovoamento do interior do país onde o chamamento do agronegócio pode ser decisivo, da transição geracional dos jovens agricultores para um novo empresariado ou, ainda, do ambicioso projeto hidráulico para o rio Tejo que pode ser desenvolvido faseadamente. Tenho consciência de que isso não depende de nós, mas o setor financeiro pode ser um parceiro muito importante.

Nestes novos horizontes, marcados pela revolução digital, agora acelerados pela circunstância da pandemia, estamos a transformar a experiência do Millennium BCP e do cliente, e em particular nas empresas, num novo relacionamento, através do talento e da tecnologia, que continua centrado na parceria para o negócio.

O empresário agrícola sabe muito bem do que necessita e é cauteloso nas suas decisões. O índice de sinistralidade das empresas deste setor é mais reduzido do que na maior parte das outras atividades. Quer parcerias de confiança, com conhecimento. Aliás, não deixa de ser curioso verificar que agora se fala tanto na agricultura 4.0 e na agricultura de precisão, quando na verdade temos agricultores em Portugal que andam, há muitos anos, a aplicar estes conceitos no seu dia-a-dia.

Os empresários agrícolas sabem muito bem o que é necessário e são bastante competitivos naquilo que desejam ter ao seu dispor para trabalhar melhor. Respeitando o ambiente e produzindo produtos para uma alimentação saudável.

Qual o crescimento que o Banco ainda espera para o setor primário? Acreditamos profundamente que o setor primário, entendido como o conjunto dos complexos agroalimentar e florestal, se manterá competitivo, dinâmico e em permanente modernização. Ao longo destes anos a carteira de crédito do Millennium BCP cresceu fruto da relação de confiança mútua que os nossos clientes e o Banco foram capazes de desenvolver. Temos a justificada ambição de consolidar resultados e de continuar a aumentar a nossa expressão no mercado.

Sisab (2018) Vasco Cunha com o então Ministro da Agricultura, Capoulas Santos.

Acreditamos profundamente que o setor primário, entendido como o conjunto dos complexos agroalimentar e florestal, se manterá competitivo, dinâmico e em permanente modernização.

Face à situação de pandemia, tem havido uma maior procura por parte do setor primário para reagir a dificuldades financeiras? Logo após o choque inicial da pandemia creio que a generalidade do setor financeiro identificou uma significativa procura que não foi sentida apenas do setor primário, mas sim em toda a economia que foi brutalmente atingida. As ondas de choque é que foram diferentes de setor para setor. Depois desse impacto inicial, houve reações diferentes, porquanto algumas atividades não podiam parar, porque já tinham as suas produções em curso, e a procura desses bens se manteve, como nas hortícolas, noutras registou-se um abrandamento, muito devido às quebras do consumo na restauração e no turismo. Aí, deu-se muita notoriedade ao setor vitivinícola, mas ignorou-se, por exemplo, que o consumo de café também sofreu imenso.

As linhas entretanto abertas e disponibilizada à economia, com garantia do Estado, proporcionaram o apoio quase imediato no financiamento aos agricultores e empresários do setor primário. De uma forma geral, decorridos estes meses, foram preponderantes na resposta e no apoio ao ciclo de tesouraria e fundo de maneio das empresas. Todavia, mais recentemente, estas linhas do Estado começaram a rarear. Nas semanas mais recentes, a AGROGARANTE não dispõe de quase de nenhuma linha com garantia mútua, quer seja no enquadramento Covid-19, quer seja fora dele. E aí, quando tivemos alguma dificuldade adicional, para nós, no Millennium BCP, foi muito importante contar com as diferentes soluções que temos com o FEI, para financiar os micro-negócio e as PME que necessitam de apoio. O recémnascido Banco Português de Fomento, e o desempenho que deseja assumir, pode ser muito importante também para setor primário. Como parceiros que somos, temos todo o interesse no seu sucesso.

Neste momento específico que ferramentas estão disponíveis por parte do Millennium BCP? Tenho para mim a ideia de que os produtos e serviços que podemos oferecer aos clientes e aos empresários agrícolas não funcionam como o menu de um restaurante. Estamos na plena posse de todos os instrumentos e recursos financeiros que nos colocam numa posição privilegiada de procurar corresponder, às propostas mais específicas e sofisticados que nos sejam apresentados. Tudo isto independentemente da dimensão do negócio. Seja em operações que o setor tradicionalmente desenvolve de curto prazo para tesouraria, de fundo de maneio ou de médio e longo prazo, para investimento.

Feira Nacional de Agricultura (2018). Vasco Cunha com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O que é decisivo para a solução final é o objetivo do promotor. Por exemplo, uma operação de emparcelamento, a instalação de um olival, uma fusão de empresas, o investimento duma cooperativa ou o programa operacional de uma organização de produtores têm características tão próprias que só perante a sua realidade se podem racionalizar e avaliar. Aquilo que posso afirmar é que estamos disponíveis para estes desafios. Que temos formas e recursos para modelar uma proposta. Que contem connosco.

Quando já há acordo a nível da próxima PAC, qual a visão do Banco para os próximos anos? À data desta entrevista, já se conhecem as principais opções que orientarão o setor para os próximos sete anos de apoios da UE mas não se sabe ainda como se materializarão em programas concretos de execução financeira. As regras de aplicação ainda não estão definidas. A prioridade imediata é o combate aos efeitos da Covid-19 com o Next Generation. Com segurança, sabemos que os apoios do 1.º Pilar da PAC se manterão até ao final de 2022 – prolongando as regras em vigor – o que significa, no imediato, a oportunidade para o Millennium BCP continuar a apoiar os agricultores neste mercado de financiamento de curto prazo. Num âmbito mais vasto, a Comissão Europeia aprovou um envelope financeiro para Portugal que ultrapassa 9 mil milhões de euros até 2027, mais 2 mil milhões de euros do que o septénio anterior, faltando agora o acordo definitivo e o seu anúncio final em Conselho Europeu. Desejavelmente, era muito positivo que a transição de um quadro financeiro plurianual para um novo quadro não demorasse muito tempo.

Globalmente, a próxima PAC, a mais antiga política comum da UE, continuará a ser um sistema dual – de ajudas à agricultura e de financiamento ao desenvolvimento rural – mas progredirá para ser mais ambiental, ecológica, digital e exigente na sustentabilidade. Face dos desafios já conhecidos e à densidade que apresentam, vamos ter de a descodificar logo que tenhamos mais informação e tornar ágeis as novas soluções de apoio e financiamento ao setor primário.

A descarbonização, a digitalização ou a agricultura biológica, a título de exemplo, vão obrigar-nos a reenquadrar a nossa oferta comercial.

Entrevista completa publicada na edição de dezembro 2020.