Hortofruticultura Inovação

Pão de Medronho. Mais do que um pão, representa a disrupção de uma cultura

Natural de uma pequena aldeia do concelho de Proença-a-Nova, Rui Lopes desde sempre conviveu com o medronho e a sua apanha para o fabrico de aguardente.

Apreciador do fruto em fresco, foi anos mais tarde, na sua primeira licenciatura em Gestão Turística e Hoteleira, na Escola Superior de Turismo e Mar (Peniche) que um artigo sobre a importância do medronho lhe despertou o interesse para aprofundar conhecimentos sobre a cultura.

As experiências que já fazia em casa foram ganhando consistência e quando testou a introdução do medronho no pão e teve aceitação por parte de quem provou, ganhou impulso para formular dezenas de conceitos de produto até chegar à fórmula que lhe pareceu que poderia vir a ser aceite pelo mercado. Fez um estudo de mercado sobre as tendências do pão, percebeu que havia margem e avançou para o registo da marca, ao mesmo tempo que teve noção de que precisava de outro tipo de conhecimentos e continuou para uma Licenciatura na área da Nutrição e Dietética na Escola Superior de Leiria.

Incentivado pelos docentes que o acompanharam, nos últimos anos Rui Lopes dedicou-se à investigação e inovação tecnológica no medronho. Um processo que esbarrou com muitos obstáculos por não existirem soluções tecnológicas para trabalhar o medronho na indústria alimentar. O empreendedor recorda anos de trabalho resiliente, de investimento em conhecimento, e mesmo financeiro, para testar o produto nas indústrias que pudessem ter a solução.

Apesar do percurso sinuoso, em 2019 fez a transição do laboratório para a indústria da panificação (Ritual do Pão) otimizou a fórmula e alguns processos (na padaria) e posteriormente também nas diferentes indústrias onde o fruto é processado, uma vez que o medronho entra integralmente na fórmula do pão, mas depois de passar por vários processos de forma a preservar a matéria aromática e os compostos biotativos, nomeadamente os que têm atividade antioxidante.

“Garantir que o pão tem entre 14 a 19% de atividade antioxidante, que tem um conjunto de minerais que provêm do fruto, que tem seis dias de longevidade em casa, e que para isto não contribui nenhum aditivo de síntese, apenas matéria-prima de medronho previamente preparada para incorporar numa fórmula, isto é um trabalho de inovação, de muito conhecimento e de base de muita resiliência”.

O Pão de Medronho chegou ao mercado em junho deste ano, através de uma cadeia de supermercados na região de Leiria e Rui Lopes não podia estar mais satisfeito com a aceitação do consumidor.

No próximo ano estima que venha a necessitar de 50 a 100 toneladas de medronho e sabe que não será fácil mas não só por causa das quantidades. Assume que a sua visão sobre este fruto é disruptiva e para acontecer carece de sensibilidade, formação (…). Embora existam linhas de apoio para plantação de medronho, com financiamento 100% a fundo perdido “falta input de comunicação, no sentido de mostrar que o medronheiro é uma árvore rentável com importância singular na preservação dos ecossistemas em particular do território do interior e que pode dar um grande contributo para a pequena economia das famílias”.

Mas não se pense que o projeto terminou nesta etapa. Entretanto o pão passa a adotar uma tecnologia que assegura tratar-se de um produto clean label – isto é – “um produto alimentar que em toda a cadeia de processamento não contém qualquer adição de produtos químicos de síntese”. No fundo, o que Rui Lopes quer transmitir com o posicionamento do Pão de Medronho é que é possível fazerem-se alimentos mais saudáveis e com acesso democratizado.

Rui Lopes já está a testar o medronho para aplicar noutras matrizes alimentares

O projeto já vai muito para além do conceito inicial e o fruto está a ser testado para aplicar noutras matrizes alimentares. Rui Lopes diz-se convicto de que brevemente haverá novas aplicações no mercado para o medronho, mas a investigação não se esgota aqui pois as outras componentes do medronheiro terão aplicação na indústria farmacêutica, cosmética (…), “mas obviamente há um longo caminho de investigação a percorrer até lá”.

Leia o artigo completo na edição de dezembro 2020.