Hortofruticultura Inovação

Pêro de Monchique. Um recurso genético a valorizar

Frutos de “Pêro de Monchique” antes da maturação

No Algarve, e noutras zonas do país, as macieiras estão divididas normalmente em dois grupos: as que produzem frutos achatados (com diâmetro equatorial superior ao diâmetro longitudinal) são conhecidas por macieiras e os seus frutos são chamados de maçãs; as que produzem frutos alongados (com diâmetro equatorial inferior ao diâmetro longitudinal) são conhecidos por pereiros e os seus frutos são chamados de peros.

Daqui vem a designação “Pêro de Monchique”. Trata-se de frutos um pouco alongados (como já referimos), de “pequeno/ médio” calibre, saborosos, aromáticos e com boa capacidade de conservação, à temperatura ambiente, provenientes dos designados pereiros.

Os mais velhos ainda se lembrarão daquele cheirinho dos “Peros de Monchique” que no passado apareciam em abundância nas feiras anuais, que no outono se realizam no Algarve. Havia nessa altura no ar um perfume muito característico, que não deixava nenhum algarvio ou visitante indiferente.

A DRAP Algarve instalou uma Coleção de Variedades de Macieira no Centro de Experimentação Agrária de Tavira com 32 variedades nas quais se incluem três testemunhas

Tendo em conta que no Algarve existem ainda alguns exemplares de algumas variedades de macieira que, no seu conjunto produzem frutos designados por “peros”, merecendo destaque o “Pêro de Monchique”, a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAP Algarve) instalou uma Coleção de Variedades de Macieira no Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT) – (que não sendo o local com as características edafoclimáticas ideais, era o espaço então disponível para este efeito) – com 32 variedades (acessos /entradas), nas quais se incluem três testemunhas (variedades comerciais conhecidas).

Esta Coleção foi instalada em 2013, com cinco plantas por variedade, num compasso de 4,5mx1,5m (distância entre linhas x distância na linha), com plantas de “raiz nua”, enxertadas em viveiro no porta-enxerto M7, conduzidas em eixo central revestido e mantidas em campo segundo as normas da Produção Integrada.

Esta Coleção permitiu salvaguardar algum do valioso património genético desta espécie existente neste concelho, durante um período particularmente grave e “negro”, devido aos incêndios que recentemente tiveram lugar e que provocaram uma importante destruição do património vegetal local.

Os materiais instalados no CEAT resultaram de prospeções efetuadas em plantas que nos foram indicados como sendo “Pêro de Monchique”, maioritariamente recolhidas no concelho de Monchique, mas também pontualmente nos concelhos de Aljezur, Portimão, Vila do Bispo e S. Brás de Alportel. Os materiais encontrados e recolhidos estão referenciados em fichas então elaboradas, onde se registaram os dados que são normalmente considerados importantes neste tipo de trabalhos, nomeadamente a identificação e contacto do proprietário, georreferenciação do local onde se encontra o material vegetal a recolher, bem como as principais características do local e o nome dos técnicos envolvidos nesses trabalhos de prospeção e recolha.

Pendura de “Pêro de Monchique”

Atualmente começa a ressurgir o interesse por estes frutos, devido principalmente às suas características organoléticas, sobretudo ao seu aroma e à sua já referida capacidade de conservação. Essa conservação, podendo ser feita de várias maneiras, também era efetuada de uma forma muito tradicional, particular e elaborada, designada de “pendura” e que consistia em conservar os Peros de Monchique, de uma forma em que os frutos eram individualmente segurados com um fio pelo pedúnculo e em grupos de 20-30 frutos eram pendurados ao teto das casas num ponto único, fazendo assim com que o fruto colhido no outono, durasse pelo menos cinco meses. Esta prática caiu em desuso nas últimas décadas, sendo atualmente a produção destes frutos no concelho de Monchique bastante reduzida.

Parcela com cinco plantas de uma variedade de “Pêro de Monchique”, na Coleção existente no CEAT

Está em fase de preparação um protocolo de colaboração entre a DRAP Algarve e a Câmara Municipal de Monchique no sentido de instalar uma réplica da Coleção de Macieiras instalada no CEAT e um Campo de Demonstração

Presentemente, está em fase de preparação um protocolo de colaboração entre a DRAP Algarve e a Câmara Municipal de Monchique no sentido de instalar em Monchique, uma réplica da Coleção de Macieiras instalada no CEAT e um Campo de Demonstração só com material vegetal que pensamos ser do denominado “Pêro de Monchique”. Pretende-se assim que este material vegetal regresse ao seu solar – Monchique – e aí volte a fazer o seu caminho, a partir do seu “berço”, podendo o espaço que irá ser criado, servir de referência para o incremento desta cultura em Monchique, como mais uma particularidade deste concelho.

Recentemente o aluno de Mestrado da Universidade do Algarve (UAlg), Rui Mateus, sob orientação do professor da UAlg, Amílcar Duarte e do autor deste texto, desenvolveu um trabalho intitulado “Caracterização de variedades tradicionais de macieira (Pêro de Monchique)”, o qual deu um contributo importante para o estudo do mesmo.

Este e outros trabalhos sugerem que aquilo que se designa por “Pêro de Monchique” poderá incluir um conjunto de variedades, a maioria das quais designadas por “malápios”. Outras variedades da coleção, apesar de não se incluírem nesta designação, devem, no entanto ser conservadas e caracterizadas morfológica e geneticamente, pois certamente possuem características distintas, como organolépticas, resistência a doenças ou pragas, grande capacidade de conservação, etc., que levaram os agricultores a mantê-las até aos dias de hoje.

No futuro, com o trabalho já efetuado e que continuamos a realizar, tentaremos definir pormenorizadamente e melhor as características do chamado “Pêro de Monchique”, que tanta importância já teve na economia local e que todos gostaríamos que voltasse a ter, nomeadamente os algarvios, os residentes no concelho de Monchique, principalmente os seus agricultores, a DRAP Algarve e a autarquia de Monchique.

Nota: Mais informação sobre este assunto poderá ser consultada no artigo Identificação de variedades tradicionais de macieira associadas à designação “Pêro de Monchique”, de Rui Mateus, Amílcar Duarte e António Marreiros, apresentado no 4º Simpósio Nacional de Fruticultura, que teve lugar nos dias 29 e 30 de novembro de 2018, na UAlg, em Faro e publicado no n.º 32 das Actas Portuguesas de Horticultura (2020), dedicadas a este Simpósio, nas páginas 269-276.

Autoria: António Marreiros, Direção Regional de Agricultura do Algarve.

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.