Hortofruticultura Inovação

De que forma a inovação ajuda a responder aos desafios

Figura 1- Polinização manual em macieiras

A Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade (ENFVN) é o Pólo do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária onde se desenvolve investigação e experimentação em fruticultura, muito focada nos problemas apresentados pelo setor.

O Coordenador da ENFVN, Rui Maia de Sousa, recorda que em janeiro de 2017 reuniu os representantes do setor e foram definidas as prioridades para a próxima década, num documento que lhe tem orientado a atividade. Em entrevista aprofunda o tema sobre que forma a inovação ajuda a responder aos desafios da fruticultura e traça um perfil sobre qual será a tendência de futuro da fruticultura nacional.

No caso concreto da investigação desenvolvida dentro do INIAV, I.P., quais têm sido os aspetos mais relevantes a trabalhar?

O Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. (INIAV, I.P.) desenvolve a sua atividade em vários Pólos/Estações a nível nacional e em várias vertentes nomeadamente na área do ambiente e recursos naturais; conservação e valorização de recursos genéticos vegetais e animais; sistemas agrários: produção e sustentabilidade; produção florestal; produção animal; sanidade vegetal; saúde animal; segurança alimentar e tecnologia agroalimentar e florestal.

No caso concreto da fruticultura a investigação e experimentação desenvolvida na Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade (ENFVN) foca-se, principalmente, na tentativa de resolução dos problemas apresentados pelo setor. Em janeiro de 2017 reunimos, na ENFVN, os representantes do setor e foram definidas as prioridades para a próxima década e é este documento que nos tem orientado na nossa atividade. Algumas das linhas de trabalho definidas ainda não estão em curso por falta de recursos humanos e financeiros para a sua concretização, no entanto continuam no nosso horizonte.

Os aspetos mais relevantes em que temos trabalhado estão ligados ao estudo da adaptação às condições edafoclimáticas nacionais de novas variedades de várias espécies, entre elas, a macieira, pereira, cerejeira, ameixeira, amendoeira e a figueira.

Ensaios de polinização em macieiras e pereiras no sentido de os frutos terem mais sementes, serem mais simétricos e com melhor qualidade e conservação (Figura 1). Sistemas de condução e o efeito da luz na produção e na qualidade dos frutos. O efeito da aplicação de biofertilizantes no desenvolvimento vegetativo e na produção das macieiras.

Formas de condução em cerejeiras, figueiras e em amendoeiras, neste caso, adaptadas à colheita mecânica (Figura 2 e 3). Ensaios comparativos de diferentes níveis de fertilização e o impacto desta na produção e na qualidade das maçãs e dos figos. Ensaios em campo de biofortificação de pera ‘Rocha’ com cálcio. Estudo de alternativas aos herbicidas para controlo das infestantes na linha. Ensaios comparativos de manutenção do solo em figueiras.

Aplicação de diferentes estratégias de controlo de pragas e doenças em macieiras e pereiras. Monitorização da evolução da estenfiliose em pomares de pereiras e emissão semanal de um boletim informativo. Estudo da influência dos tratamentos com caulino em condições de calor e défice hídrico na produção e qualidade dos frutos (Figura 4).

Desenvolvimento de biofungicidas e revestimentos bioativos à base de extratos de plantas aromáticas para utilização em pós-colheita. Preservação e valorização de variedades regionais de várias espécies, nomeadamente macieiras, pereiras, figueiras, cerejeiras e ginjeiras (Figura 5). Todas estas atividades estão a ser desenvolvidas no âmbito de projetos co-financiados e de protocolos estabelecidos com empresas e com produtores do setor. Algumas destas atividades estão a ser desenvolvidas em pomares de produtores.

“Para que exista inovação é fundamental investigação e a experimentação para criar coisas novas (produtos ou métodos), diferenciadoras e que possam ser replicáveis, isso tem acontecido na fruticultura”

Em que pontos é que a fruticultura nacional mais tem inovado?

Para que exista inovação é fundamental a investigação e a experimentação para criar coisas novas (produtos ou métodos), diferenciadoras e que possam ser replicáveis, isso tem acontecido na fruticultura. A rega e os sistemas de rega, que permitem uma maior eficiência no uso da água, transformaram a fruticultura, nestes últimos anos, quer nas regiões tradicionais de produção, quer nas regiões onde não era tradicional mas que agora se faz com sucesso. A rega permitiu implantar pomares com maiores densidades, com diferentes sistemas de condução, mais produtivos e geradores de maior rendimento para o fruticultor. A monitorização da rega por sensores/sondas, assim como a avaliação contínua do crescimento dos frutos e do tronco, a avaliação praticamente contínua do estado nutritivo das plantas e do nível de matéria orgânica no solo, a potenciação da microflora existente no solo são alguns exemplos de formas inovadoras de produzir. O mesmo acontece com a utilização de equipamentos que permitem a avaliação da luz solar que chega ao interior da copa das árvores que “obriga” à alteração das formas de condução e poda, ou a utilização de filmes refletor para maximizar a entrada de luz solar no interior da copa das árvores e induzir assim maior coloração e mais qualidade nos frutos. A utilização de redes de ensombramento para minimizarem o escaldão dos frutos e auxiliarem no controlo dos crescimentos vegetativos é outro exemplo de formas inovadoras de produzir fruta de qualidade (Figura 6). O mesmo se verifica na conservação dos frutos em sistemas com modificação da atmosfera no interior das câmaras frigoríficas. Estes são alguns exemplos de inovações que permitem que a fruticultura nacional esteja em crescimento de forma rentável, sustentável, produzindo fruta de qualidade e com sabor.

Nunca como agora se falou em inovação e sustentabilidade. De que forma é que ambas podem coexistir no setor?

A inovação tem de garantir a sustentabilidade da forma e do processo de produzir, caso contrário estamos a destruir o futuro do setor e no geral das gerações vindouras. A inovação não tem de gastar mais recursos, tem de os utilizar de forma mais eficaz, produzindo frutos por processos e meios diferentes com mais sabor e aroma. A forma diferente de fazer as coisas com recurso a novas tecnologias para a realização das operações culturais tem de ter como fim a maior eficiência na utilização da água de rega, uma maior preservação do solo e da biodiversidade, que, em nosso entender, são os três principais pilares da fruticultura atual, competitiva e com futuro. No passado recente a maioria dos produtores pretendiam obter muitas toneladas de fruta por hectare, independentemente dos recursos necessários para as produzir e com pouca preocupação pela preservação do meio ambiente. Atualmente, a mentalidade do produtor está a mudar principalmente devido às exigências do consumidor que pretende frutos mais saudáveis, isentos de resíduos, em que a sua produção respeite o ambiente e principalmente que tenham sabor.

Na economia circular pretende-se converter resíduos em novos recursos tendo em atenção o solo e a biodiversidade. Exemplo disto é o caso da lenha de poda que depois de triturada se transforma em matéria orgânica enriquecedora do solo, servindo de alimento para a microflora do mesmo, ou do coberto vegetal que depois de cortado é também decomposto e utilizado pelas fruteiras. Não devemos esquecer que ao retirar frutos do nosso pomar também estamos a retirar nutrientes que devem ser repostos, para se manter o equilíbrio no solo e na planta. Temos inovação que contribui de forma decisiva para a sustentabilidade. Devemos ainda ter presente que a inovação não depende diretamente da tecnologia utilizada.

Culturas tradicionais vs. Novas culturas. São compatíveis ou é uma dispersão de esforços?

A seleção das culturas tradicionais foi efetuada ao longo dos tempos pelos produtores, elegendo aquelas que revelaram maior rentabilidade nas condições de que dispunham. Certamente que algumas das “novas culturas” já foram experimentadas no passado, no entanto, as ferramentas atuais para “gerir” as culturas é completamente diferente das do passado pelo que, algumas poderão ser interessantes financeiramente. Existem algumas das denominadas “novas culturas”, que devido à sua origem e constituição genética, para produzirem, exigem um nível de investimento que as torna economicamente inviáveis, no entanto, devido ao apoio financeiro comunitário e nacional tornam-nas viáveis durante cinco anos passado esse tempo dão lugar a outra “nova cultura”. Esta situação agravou-se nos últimos anos com a vinda para a fruticultura de empresários de outras áreas e profissões. Certamente que a seleção natural também vai imperar nestes casos pelo que algumas dessas culturas irão subsistir em alguns microclimas muito específicos e para mercados muito limitados, outras terão o mesmo fim do produtor que as implantou, desaparecem com a mesma rapidez com que chegaram.

“A tendência será para uma fruticultura muito baseada na tecnologia, em que cada árvore será como um funcionário de uma fábrica de peças, em que todos têm de produzir o mesmo número de peças, neste caso de frutos”

Na sua opinião, qual é a tendência de futuro da fruticultura nacional?

A tendência será para uma fruticultura muito baseada na tecnologia, em que cada árvore será como um funcionário de uma fábrica de peças, em que todos têm de produzir o mesmo número de peças, neste caso de frutos. Através de sensores, drones e outros equipamentos serão controladas todas as necessidades da planta e a produção desta. Devido à utilização dessas tecnologias e à falta de mão de obra especializada, os pomares de pequena dimensão darão lugar a pomares de grandes dimensões que justificam e rentabilizam os investimentos necessários. A água será um fator limitante, quer pela sua disponibilidade, quer pela qualidade, assim como a disponibilidade de solo com aptidão para a fruticultura e como tal algumas das atuais zonas de produção deixarão de o ser. Para cada espécie os frutos deverão ser todos muito semelhantes, produzidos de forma muito semelhante o que vai facilitar a conservação dos mesmos.

A fruticultura baseada cada vez mais na tecnologia, sem necessidade de ir assiduamente aos pomares torna-se mais atrativa para os fruticultores dinâmicos e empreendedores assim como para os jovens pelo que perspetivo que a fruticultura nacional continuará a crescer cada vez mais de uma forma inovadora e dinâmica, produzindo frutos inigualáveis devido ao elevado número de horas de sol de que dispomos.

Grande Reportagem: Inovação e Desafios para a Fruticultura Nacional com desenvolvimento completo publicado na edição de dezembro 2020.