Hortofruticultura Inovação

Companhia do Lucriz continua a crescer na plantação de nogueiras

A primeira plantação aconteceu em 2017 e só em 2020 já foram plantados 72 hectares

O conhecimento de que o mercado nacional é extremamente deficitário em nozes e de que há uns anos a esta parte houve um aumento do consumo levaram Ural Ataman a investir na cultura na região de Vila Velha de Rodão. Estão plantados 245 hectares, “mas o céu é o limite”.

〈 16/12/2020 〉

O investimento na cultura da nogueira na freguesia de Perais, no concelho de Vila Velha de Ródão, surge em resultado das relações privilegiadas entre a administração do Grupo liderado pelo turco-canadiano Ural Ataman com agentes económicos e da academia americana que se debruçam sobre a cultura. Com objetivo de avançar para esta produção, há quatro anos o proprietário da exploração deu início à pesquisa, em Portugal, de uma propriedade onde pudesse executar o seu investimento. As primeiras aquisições aconteceram em 2016 perfazendo um pouco mais de 500 hectares que compõem a Companhia do Lucriz. Mais tarde foram adquiridas mais algumas parcelas, totalizando cerca de 600 hectares, dos quais sensivelmente 200 estão inseridos no Aproveitamento Hidroagrícola da Coutada/Tamujais.

O gestor agrícola da exploração, Rui Santos, avança à nossa reportagem que neste momento estão plantados 245 hectares de nogueiras, tendo a primeira plantação acontecido em abril de 2017, em 40 hectares com a variedade ‘Chandler’, num compasso de 7×5. Em 2018 não houve plantações e em 2019 fez-se uma avaliação do primeiro pomar, optando-se pela plantação de mais 165 hectares, com 70% da área da variedade ‘Chandler’ e 30% ‘Howard’. Este ano plantaram-se já 72 hectares, sensivelmente também na mesma proporção, mas nas últimas plantações o compasso foi alterado para 8×7 na ‘Chandler’ e 8×6 na ‘Howard’, abrindo mais espaço entre cada árvore.

Rui Santos afirma que os estudos realizados mostraram que a cultura da nogueira é bastante rentável, além de poder ser mecanizada praticamente na íntegra, “o que permite um à-vontade diferente quando se fala no problema da mão-de-obra, que é real”. A empresa neste momento emprega 16 pessoas, das quais cinco portugueses, três com formação superior e dois com formação profissional. Os outros trabalhadores são estrangeiros, indiferenciados mas que gradualmente têm vindo a ser formados dentro da empresa.

A restante área está ocupada por eucalipto e montado de azinho. Mas, existem áreas onde o gestor agrícola gostaria que fosse feito investimento em olival, uma cultura tradicional da região para a qual a Companhia tem possibilidades de produção, além de existir uma unidade de transformação de que é associada e com capacidade de produzir azeite de qualidade.

Uma das preocupações da empresa tem sido o uso eficiente da água

Voltando à nogueira, é de referir ainda que a exploração se encontra em Produção Integrada, admitindo-se que até possa vir a evoluir para o Modo de Produção Biológico, sobretudo face à crescente redução de substância ativas no mercado dos fitofarmacêuticos. Ainda assim, para já a cultura da nogueira não sofre de grandes problemas sanitários, até porque está a ser instalada numa região nova, onde não havia tradição de nogueiras.

Por outro lado, uma das preocupações da empresa tem sido o uso eficiente da água. “Temos 200 hectares de área no aproveitamento hidroagrícola, que é sensivelmente metade desse mesmo regadio e no ano passado fomos o terceiro utilizador no consumo de água. Ou seja, existem dois ou três regantes que com menos área consomem mais água”. O responsável quer com isto dizer que ainda há necessidade de mudar alguns comportamentos. O Perímetro de Rega inclui também uma barragem e segundo Rui Santos, se o consumo se mantiver igual ao do último ano, existe água para um ano e meio de rega.

No caso da Companhia do Lucriz, desde o primeiro dia instalaram-se sistemas de monitorização para o uso eficiente da água, sendo a rega feita gota-a-gota e gerida conforme as necessidades da árvore, com uma “vigilância constante” no terreno, gerando muito pouco desperdício de água.

Para além do que está no perímetro de rega também se fez uma avaliação das águas existentes dentro da propriedade, onde 22 poços no conjunto geram mais do que 50 m3/hora de água e em último caso a captação de águas subterrâneas que já se provou existirem e em quantidade. “É certo que vamos ter anos de seca e prepararmo-nos passa pelo armazenamento sob várias formas”.

Este ano na Companhia do Lucriz já se colheu noz, mas em quantidade insignificante, fruto também da gestão propositada da poda. Na próxima campanha espera se atingir já uma produção de 500 quilos por hectare, nos primeiros 40 hectares, e a partir daí continuar a aumentar.

“Temos de começar um processo novo e perceber a nossa posição enquanto players

Entretanto, segundo as palavras da diretora financeira da Companhia, Cristina Domingues, está a decorrer o processo de certificação em GlobalGAP porque é até à próxima colheita que se vai explorar onde é que efetivamente se irá colocar a noz, por um preço mais justo, e onde é que determinadas características do produto serão diferenciadas e valorizadas, “porque infelizmente em Portugal não existe informação setorial. Temos de começar um processo novo e perceber a nossa posição enquanto players”.

Referir ainda que as relações privilegiadas com agentes internacionais por parte da Companhia do Lucriz não ficam “fechadas” e tem havido a preocupação de abrir esse canal de comunicação para a comunidade académica e científica locais, existindo já um protocolo celebrado com a Escola Superior Agrária de Castelo Branco do ponto de vista da investigação.

A curto prazo está previsto aumentar a área de cultura da nogueira com pelo menos 25 ha no próximo ano e à medida que a produção o vá justificando serão dados novos passos, sabendo-se que neste momento já existe uma linha de lavagem contemplada por projetos de investimento agrícola a que a Companhia se tem candidatado. Futuramente far-se-á também a secagem, calibragem, seleção e embalamento, mas para já sem datas previstas face à imprevisibilidade das variáveis.

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.