Agropecuária Investigação

Repiso de tomate na alimentação animal

  • Introdução:

A alimentação dos animais é a principal componente dos custos de produção sendo atribuída aos alimentos compostos 25% do valor total.

〈 10/12/2021 〉

A adoção de sistemas de produção baseados numa maior utilização dos recursos locais (pastagens e forragens) e no aproveitamento de subprodutos agroindustriais, é desejável pois permite reduzir os custos da alimentação e melhorar a sustentabilidade económica das empresas, a sustentabilidade ambiental e reduzir a competição homem/animal por alimentos, como por exemplo os cereais.

O Grupo Operacional SubProMais – Utilização de subprodutos da agroindústria na alimentação animal, tem como objetivos dar a conhecer os subprodutos produzidos nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo passiveis de serem utilizados na alimentação animal, caracterizá-los química e nutritivamente, encontrar métodos de conservação adequados e integrá-los em dietas equilibradas e de baixo custo que cubram as necessidades dos animais, sem alterar a qualidade dos produtos obtidos.

Neste artigo, que esperamos seja o primeiro de uma série de artigos sobre utilização dos subprodutos agroindustriais produzidos em Portugal, disponibilizamos informação sobre o repiso de tomate (RT), subproduto proveniente da indústria do concentrado de tomate, cuja produção se estima compreendida entre 3 a 5% do total de tomate transformado (Zhiqiang Lu et al. 2019).

Características químicas

A composição química do RT depende da variedade de tomate utilizada, da época de colheita e do processo tecnológico utilizado.

Na Tabela 1 é apresentada a composição química do RT correspondente à média dos valores obtidos em amostras recolhidas em diferentes fábricas portuguesas. Através do desvio padrão (DP) verificamos que não há grande variabilidade entre amostras. É um produto com elevado teor de humidade (60 a 70%) e de proteína (cerca de 20,6% na matéria seca (MS)), baixo teor de açúcar solúvel (3,4% na MS) e de amido (2,4% na MS), elevado teor de gordura (12,3% na MS) e de compostos fibrosos (57,1% de NDF, 48,9% de ADF na MS) sendo a fibra altamente lenhificada (ADL 27,6% MS).

Segundo Nour et al. (2018) os aminoácidos essenciais representam 34% da proteína total com maior relevância para a lisina, leucina, e isoleucina. É uma importante fonte de substâncias bioativas tais como compostos fenólicos, licopeno (510,6 mg/kg) e -caroteno (95,6 mg/kg), compostos com reconhecida atividade antioxidante.

A fração lipídica contém um elevado teor de ácidos gordos insaturados (77%), em particular ácido linoleico (C18:2n-6) e ácido oleico (C18:1n-9) (Romano et al. 2010).

Animais alimentando-se de repiso de tomate em mistura com outros alimentos

Conservação

O RT fresco quando exposto ao ar deteriora-se rapidamente devido ao elevado teor de humidade. Para utilização fora da época de produção é necessário recorrer a um método de conservação. A silagem e a secagem ao sol são as formas de conservação mais fáceis e económicas.

A ensilagem é difícil devido ao baixo teor de MS podendo as perdas de nutrientes por lixiviação ser consideráveis. A aplicação de ácido propiónico é aconselhável para prevenção do desenvolvimento de bolores. A mistura com outros alimentos que aumentem a MS facilita a conservação e reduz as perdas de nutrientes. Forragens, como milho e sorgo, fenos e palhas são boas opções para atingir estes objetivos e dão origem a silagens de boa qualidade, com digestibilidade e nível proteico elevados com boa aceitação por bovinos e ovinos.

A adição na silagem de alimentos ricos em hidratos de carbono não estruturais (grãos de cereais, melaço, batata, batata doce, cenoura, etc) é uma boa estratégia para melhorar o valor energético da mistura.

A secagem artificial é a forma de conservação mais dispendiosa mas tem a vantagem de ser independente das condições climáticas. Permite a desidratação de grandes quantidades de alimento num curto espaço de tempo o que possibilita a sua incorporação em alimentos compostos. A desidratação efetuada num secador de tabuleiros a 65ºC durante 4h permitiu atingir teores finais de humidade de 4%, valor que garante a estabilidade microbiológica sem alterações significativas de cor (resultados não publicados).

Utilização na alimentação animal

O RT destina-se principalmente à alimentação de ruminantes devido ao elevado teor de fibra que contém. Na alimentação de monogástricos pode ser incorporado em quantidades limitadas que dependem do tipo animal, da idade e da composição da dieta.

Alimentação de ruminantes

O RT tem elevado teor em fibra e é uma boa fonte de proteína pelo que pode ser integrado em substituição de alimentos concentrados ou de parte das forragens. Não é um alimento muito palatável pelo que deve ser fornecido associado a alimentos mais apetecíveis.

Ovinos

Na alimentação de borregos em crescimento o RT desidratado incorporado até 20% da dieta não tem efeito negativo na ingestão, no desempenho produtivo e nas características da carne e da carcaça (Valenti et al. 2018). Níveis acima de 20% podem comprometer a ingestão de alimento (Jayal and Johri,1976).

Como suplemento proteico foi utilizado numa dieta à base de cevada grão para borregos em crescimento, em substituição do bagaço de soja. Não se verificaram diferenças na retenção de azoto e no crescimento dos animais (Fondevila et al. 1994).

Em ovelhas em lactação a inclusão de 20% de RT seco na dieta não alterou a quantidade de leite produzida e aumentou o teor de gordura e a quantidade de ácidos gordos polinsaturados e de isómeros conjugados dos ácidos linoleico (CLA) no leite, compostos benéficos para a saúde humana (Romano et al., 2010).

Silo

Sob a forma de silagem o RT pode ser utilizado como suplemento de dietas para borregos e ovelhas leiteiras pois tem um valor nutritivo semelhante ao de uma forragem de boa qualidade e não afeta a produção de leite (Denek e Can, 2006).

Caprinos

Na alimentação de caprinos o RT mostrou ser um bom suplemento alimentar que pode ser utilizado em seco, fresco ou ensilado.

Desidratado foi utilizado em cabritos produtores da lã angora durante 94 dias. Os animais alimentados com 10, 20 e 30% de RT na dieta apresentaram ganhos de peso, quantidade e qualidade da lã semelhantes aos animais alimentados com uma dieta convencional. A digestibilidade da proteína foi superior na dieta com 20% de RT (Farzad e Abdulkarimi , 2012).

Em cabras leiteiras, silagem de RT utilizada em substituição da forragem ou de alimentos concentrados, não tem efeitos negativos no desempenho produtivo dos animais. A substituição de 25% de feno de aveia por RT numa dieta completa de cabras leiteiras resultou num aumento da ingestão e da quantidade de leite produzida, sem alterações na composição de leite (Yanez-Ruiz et al.2016). Incorporado num alimento concentrado em substituição de 24% de sêmea de trigo não afetou a ingestão de MS, nem a quantidade de leite produzida e a composição do leite (Razzaghi et al. 2015).

Bovinos

Na alimentação de novilhos o RT fresco, ensilado ou desidratado pode substituir até 50% da forragem (Caluya et al. 2003). Em vacas leiteiras a silagem de RT e milho substitui com bons resultados silagem de milho, sendo bem consumida pelos animais e sem produzir alterações na produção e na composição de leite (Weiss et al. 1997). Uma vantagem associada à utilização da silagem de RT na alimentação de vacas leiteiras é a presença compostos bioativos, tais como vitamina C, vitamina E, -caroteno, licopeno e minerais que melhoram o estado antioxidante e a resposta imunológica dos animais e aumentam as concentrações de vitaminas A, E e C no leite (Tuoxunjiang et al. 2020).

Desidratado pode ser incorporado em alimentos concentrados até 30%, sem afetar a ingestão e a produção de leite (Belibasakis, 1990).

Monogástricos

  • Aves

O RT seco pode ser incluído na alimentação de aves mas com algumas restrições. Não deve ser utilizado em frangos de carne, principalmente em animais jovens, sem capacidade para digerir a fibra do alimento e com necessidades energéticas elevadas (Tabeidian et al. 2011). Animais adultos, já com alguma capacidade para digerir fibra podem consumir RT sem reflexos negativos na produção. A inclusão de 20% de RT numa dieta de frangos em acabamento (29 aos 42 dias) não teve efeito negativo na eficiência alimentar e no ganho de peso vivo dos animais (Lira et al. 2010).

Em galinhas poedeiras, a inclusão de RT seco até 10% da dieta não teve efeito negativo na ingestão de alimento, no crescimento dos animais, na produção e qualidade dos ovos. Níveis superiores a 10% podem reduzir a produção e a qualidade dos ovos (Jafari et al., 2006).

A presença de licopeno do RT pode ser uma vantagem na alimentação de aves pelas suas propriedades antioxidantes e pela cor mais intensa que confere à gema do ovo (Yannakopoulos et al.1992). Aplicado em dietas de frangos melhora a resistência dos animais ao stress térmico (Hosseini-Vashan et al., 2015).

Porcos

Nos porcos, tal como nas aves, o elevado teor de fibra do RT é um fator limitante à sua utilização na alimentação de animais jovens e em crescimento, pela baixa capacidade que têm para digerir a fibra e pelas elevadas necessidades energéticas que têm.

Em porcos em acabamento realizou-se um ensaio em que RT fresco substituiu 35% de um alimento comercial. A ingestão de matéria seca aumentou na dieta com RT e os animais apresentaram maior peso e maiores ganhos médios diários de peso, pelo que em termos de eficiência alimentar a dieta com RT foi comparável à da mistura comercial (Caluya et al. 2000).

Coelhos

O RT é um bom alimento para coelhos podendo ser incluído até 20% da dieta. Níveis superiores a 20%, podem reduzir a ingestão e os ganhos de peso, especialmente em machos (Caro et al. 1993).

Coelhos alimentados com dietas com 6% de RT tiveram bons desempenhos produtivos e a carne foi de qualidade superior, com maior proporção de ácidos gordos insaturados. Na análise sensorial, a carne dos coelhos alimentados com RT foi preferida. (Peiretti et al. 2013).

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.


Página web do projeto: www.subpromais.pt | Agradecimentos: Projeto SubProMais ( PDR2020-101-030988 , PDR2020-101-030993 e PDR2020-101-030991) financiado pelo Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER), no âmbito do PDR2020

Autoria:

Mª Teresa P. Dentinho1,2, Kátia Paulos1 , Cláudia Costa1 , Liliana Cachucho3 , Olga Moreira1,2, Marco Alves5 , João Costa1 , José Santos-Silva1,2, Eliana Jerónimo3,4

  • 1Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Pólo Investigação da Fonte Boa (INIAV-Fonte Boa), 2005-048 Santarém, Portugal
  • 2Centro Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), Avenida Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal
  • 3Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL)/ Instituto Politécnico de Beja,7801-908 Beja, Portugal
  • 4MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, CEBAL, 7801-908 Beja, Portugal
  • 5Tagus Valley – Parque Tecnológico do Vale do Tejo, 2200-062 Alferrarede – Abrantes, Portugal
Bibliografia:

Belibasakis N.G., 1990.World Rev. Anim. Prod., 25, 39-42; Caluya R. et al., 2000. http:// agris.fao.org/agris-search/search/display.do; Caluya R.R. et al., 2003. Mariano Marco State University, Ilocos Norte, Philippines; Caro T.W. et al., 1993. Advances Prod. Anim, 19, 91-97; Denek N., Can A., 2006. Small Rumin. Res., 65, 260–265; Farzad A., Abdollahzadeh R., 2012, Life Sci J., 9, 2157-2161; Fondevila M., 1994. Small Rumin. Res., 13, 117-126; GPP, 2019. https://www.gpp.pt/images/globalagrimar/estrategias/Tomate_FichProdEstrat_2019.pdf; Hosseini-Vashan S. et al., 2015. Int. J. Biometeorol, 60, 1183-1192; Jafari, M. et al., 2006. Int. J. Poult. Sci., 5, 618–622; Jayal N.M. 1976. Ind. Vet. J., 53, 793-798; Lira R.C. et al., 2010. Rev. Bras. Zootec., 39 (5): 1074-1081; Nour V. et al., 2018. CyTA J. Food., 16, 222-229; Peiretti P.G. et al., 2012. Asian J. Anim. Vet. Adv., 7, 521-527; Romano R. et al., 2010. Int. Dairy J., 20, 858- 862; Sauvant D. et al., 2002. INRA, Paris. 301 pp; Tabeidian S.A. et al., 2011. J. Anim. Vet. Adv., 10, 443-448; Tuoxunjiang et al., 2000. J. Anim. Feed Sci., 29, 105–114.; Valenti B. et al., 2018. Meat Sci., 145, 63–70; Weiss W.P. et al., 1997. J. Dairy Sci., 80, 2896–2900; Yanez-Ruiz D.R. et al., 2016. SOLID Deliverable 1.4. Spanish National Research Council, Madrid; Yang P. et al., 2018. J. Appl. Anim. Res., 46, 1483-1489; Zhiqiang L. et al., 2019. Trends Food Sci. Technol., 86, 172- 187.

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