Reportagem

Face à falta de água, que agricultura quer o Algarve?

A falta de água no Algarve está a tornar-se cada vez mais preocupante. Consultando o IPMA vê-se que só no final de novembro (2020) terminou a situação de seca que ainda se verificava na região.

〈 03/03/2021 〉

É resultante de um longo historial de falta de água que está em cima da mesa a execução do Plano de Eficiência Hídrica para o Algarve. Mas há quem tema que essas medidas possam ser tardias e defenda decisões complementares de ação mais rápida.

O Grande Encontro ‘Água e Sociedade’ foi uma iniciativa da AlgFuturo – União Pelo Futuro do Algarve – e da Universidade do Algarve que incluiu um total de sete debates públicos por todo o Algarve. No último desses debates, que aconteceu no Complexo Pedagógico do Campus da Penha da Universidade do Algarve, houve um painel que versou no tema ‘Agricultura: culturas, tecnologias avançadas e rega’, com a participação de José Carlos Tomás (DrapAlgarve); Pedro Nascimento (Associação de Regantes do Sotavento); João Garcia (presidente da Associação de Regantes de Silves, Lagoa e Portimão); José Oliveira (AlgarOrange) e João Bento (Madrefruta) [saiba mais na revista impressa de janeiro 2021].

Ora, o tema da água e da falta dela no Algarve tem-se centrado bastante na questão do consumo por parte da atividade agrícola, e várias vezes se tem levantado a questão sobre qual é a agricultura que o Algarve quer face à falta de água. E este não é um problema só dos dias de hoje, conforme avançou o Diretor Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, Pedro Valadas Monteiro, ao referir-se à Rede de (14) Estações Meteorológicas espalhadas pelo território algarvio e cujos dados emitidos permitem concluir que o Algarve enfrenta atualmente um problema de seca estrutural.

Só 56% da água consumida é gasta pela agricultura

Pedro Monteiro, Diretor Regional de Agricultura e Pescas do Algarve

“A frequência dos períodos de seca está a encurtar-se tal como a sua gravidade está a aumentar”, afirma o dirigente, mas recusa a ideia que a “culpada” seja a atividade agrícola.

“No Algarve só 56% da água consumida é gasta pela agricultura, porque tem havido um esforço de economia e eficiência por parte dos produtores agrícolas, até porque a água no Algarve tem um custo elevado”.

Esta conclusão vai precisamente ao encontro do Plano de Eficiência Hídrica para o Algarve, apresentado em setembro passado pelo Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, e pela Ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, e que pretende avaliar as disponibilidades e os consumos hídricos atuais, no barlavento e no sotavento algarvio com estabelecimento de cenários prospetivos que tenham em conta os efeitos das alterações climáticas, bem como estabelecer metas e horizontes temporais de eficiência hídrica para os principais usos, nomeadamente os associados aos setores agrícola, turístico e urbano.

Plano de Eficiência Hídrica para o Algarve elenca 57 medidas e um investimento de 228 milhões de euros

O documento propõe ainda identificar medidas de curto e médio prazo que promovam a reutilização da água tratada e a eficiência hídrica, assim como os fatores críticos para o seu sucesso e identificar soluções estruturais e novas origens de água que complementem o previsível decréscimo do recurso por via das alterações climáticas. O plano elenca 57 medidas, cuja implementação corresponde a um investimento de 228 milhões de euros, a maioria das quais destinadas ao setor da agricultura, no valor de 79 milhões de euros, embora a componente urbana seja aquela que requer maior investimento (122 milhões de euros).

Durante a apresentação do Plano Regional de Eficiência Hídrica foram apontadas potenciais soluções para reforçar a oferta de água na região, nomeadamente, a captação de água no rio Guadiana, a montante do Pomarão, a dessalinização de água do mar e a construção de uma barragem na ribeira da Foupana, no sotavento algarvio.

A Ministra da Agricultura referiu que apesar do consumo de água do setor agrícola no Algarve ter sido reduzido desde 2002, quer por via da redução do regadio individual quer pelo aumento da eficiência hídrica, uma das conclusões deste Plano é que é necessário reduzir as perdas de água.

Pedro Monteiro admite que é possível poupar e otimizar, mas chegará uma altura em que deixará de ser exequível porque essa poupança não é elástica e as plantas necessitam de uma quantidade mínima de água para sobreviverem. A falta de água já está a pôr em causa novos projetos de investimento, “o que é dramático porque não nos podemos esquecer de que a agricultura é fundamental para o futuro desta região, que tem mais de 80% do seu PIB dependente da atividade turística. Isso não é sustentável e há necessidade de diversificar a nossa economia, onde a agricultura desempenha um papel fundamental, até para ocupação dos territórios numa região fortemente assimétrica do ponto de vista da ocupação demográfica”.

Falta de água já está a pôr em causa novos projetos de investimento. Em suma, promover o reforço do aprovisionamento hídrico no Algarve integrando diferentes origens de água

Assim, conclui Pedro Monteiro, “cada mês ou cada ano que perdemos é mais um mês ou um ano que as soluções vierem a ser desenhadas não estão implementadas no terreno”.

Pedro Nascimento, presidente da Associação de Regantes do Sotavento

“É impossível voltar atrás depois da evolução que se verificou na agricultura algarvia”

O presidente da Associação de Regantes do Sotavento, Pedro Nascimento, afirma ser impossível voltar atrás depois da evolução que se verificou na agricultura algarvia, mas, tem também como certo que não haverá água para as necessidades se não se avançar para o terreno com as medidas que têm sido anunciadas. “A Associação congratula-se com o Plano de Eficiência Hídrica apresentado para o Algarve, um documento de grande importância que só pecará por ter sido tardio”.

“As águas residuais não devem ser ignoradas”

José Carlos Tomás (DrapAlgarve)

Na opinião de José Carlos Tomás (DrapAlgarve), as águas residuais não devem ser ignoradas, “atendendo a que anualmente estarão disponíveis cerca de 20 a 40 hm3 deste recurso na região”, apresentando-se como um bom recurso hídrico alternativo, desde que garantida a respetiva qualidade e fornecimento fiável também na quantidade, “principalmente quando os citrinos não dispõem de alternativas válidas”.

“O regadio público da sob alçada da Associação de Regantes de Silves, Lagoa e Portimão está vivo”

João Garcia, agricultor e presidente da Ass. Regantes de Silves, Lagoa e Portimão

O regadio público da sob alçada da Associação de Regantes de Silves, Lagoa e Portimão “está vivo e operacional e vai ter aqui estruturas de topo, do melhor que há. Metade do perímetro está por utilizar, pelo que desde já deixo o convite aos agricultores que queiram investir , que temos área e terreno no perímetro de Silves disponível. Um bom exemplo do que é a gestão pública.” Quem o diz é o respetivo presidente, João Garcia, salientado que tanto esta como as restantes associações de regantes do Algarve estão disponíveis para fazerem parte das soluções.[ver revista]

“Não existe uma única solução mas sim várias que temos de implementar, mas rapidamente”

João Bento, Madrefruta

“Temos muito conhecimento, muito estudo, muitas análises de muitas décadas de anos, mas sinto alguma frustração de estarmos neste momento a viver isto. Ou seja, o problema da falta de água”. É desta forma que João Bento, da Madrefruta, se expressa, lamentando que a intervenção não tenha sido mais precoce. “Não existe uma única solução mas sim várias que temos de implementar, mas rapidamente. Não basta pensar no presente, temos também de começar a pensar no Algarve que queremos ter daqui a dez anos”.

“Hoje não há nenhum pomar de citrinos no Algarve, competitivo, que não tenha os melhores padrões tecnológicos de utilização da água”

José Oliveira, presidente da AlgarOrange

José Oliveira, presidente da AlgarOrange, ouve com frequência dizer que a agricultura é a maior consumidora de água e os citrinos ocupam a maior fatia desse consumo. Não o desmente, mas contra-argumenta: “ Nós citricultores somos efetivamente grandes consumidores de água, mas também é preciso questionar sobre o que temos oferecido à sociedade. Há mais de 20 anos que temos vindo a tornar a utilização da água no nosso principal vetor de orientação estratégica e hoje não há nenhum pomar de citrinos no Algarve, competitivo, que não tenha os melhores padrões tecnológicos de utilização da água”.

Vai mais longe e aponta outras vantagens à citricultura, como a função que desempenha na sociedade, para uma diversificação económica e até para o próprio turismo.

Obviamente que o setor necessita de água e para isso também de soluções integradas, e a AlgarOrange diz-se disponível para as estudar em conjunto com outras entidades.

“Hoje temos mais agricultura mas consumimos menos água, o que significa que estamos num caminho de eficácia”

Manuela Moreira da Silva, investigadora no Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve

Manuela Moreira da Silva é investigadora no Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, e, de acordo com os dados que apresentou no Encontro, grande parte da proveniência da água utilizada na agricultura algarvia tem origem subterrânea. Apenas 25% tem origem superficial e a reutilização não chega a 1%. E a grande preocupação que se lhe afigura quando olha para o consumidor agrícola é exatamente ter a certeza de que temos a agricultura que devemos ter para uma economia próspera, “mas utilizando o recurso da água de uma forma responsável”. E isto, de acordo com a mesma, significa continuar o caminho feito nos últimos anos. “Hoje temos mais agricultura mas consumimos menos água, o que significa que estamos num caminho de eficácia”.

Já a dessalinização, na ótica da investigadora, não é propriamente uma novidade. As dificuldades que o país, e concretamente o Algarve está a enfrentar já foram ultrapassadas em muitas outras zonas do planeta. “O grande problema da dessalinização é que produz uma salmoura (solução rica em sal que o mar tem muita dificuldade em absorver, que altera de forma significativa os ecossistemas marinhos) e, por outro lado, a água resultante deste processo, antes de poder ser consumida tem de ser tratada”. A somar a estas questões há ainda os custos energéticos do processo.

Grande reportagem publicada em completo na edição impressa de janeiro / 2021.

 

Artigo relacionado:

“São necessárias medidas de curto prazo”