Floresta

Principais pragas com impacto na produção de pinha

Parcela ensaios de pinheiros-mansos enxertados. Santarém. Foto: Ana Farinha

A produção de pinhão de pinheiro-manso é uma das explorações florestais mais importantes em Portugal, com um aumento significativo da área de pinheiro manso nos últimos anos.

〈 02/03/2021 〉

A exploração dos povoamentos tem como principal objetivo a produção de pinha/pinhão, a qual pode ser afectada por agentes abióticos (clima, solo) e/ou bióticos (insectos, fungos e bactérias). Neste artigo falaremos só dos insectos, sendo que algumas espécies têm um impacto directo na produção por afetarem a pinhão/pinha, enquanto outras têm um impacto indirecto por afetarem o vigor do pinheiro e, por conseguinte, a sua produção.

Resumem-se em baixo as principais pragas que afetam o pinheiro-manso, e o órgão atacado no hospedeiro.

Dos três insectos que afectam directamente a pinha, o Sugador-de-pinhas e a Lagartadas-pinhas são os que apresentam maior impacto no nosso país.

Adulto de LO (Leptoglossus occidentalis) e ninfa. Foto: Ana Farinha

O sugador de pinhas, Leptoglossus occidentalis, é um insecto picador-sugador, isto é, possui estiletes que insere nas pinhas para atingir os pinhões, sugando o seu miolo. As pinhas atacadas não apresentam danos externos aparentes, só sendo possível avaliar o dano quando se observa o miolo meio consumido, ou totalmente seco e chupado no pinhão (“chocho”). Trata-se de um insecto invasor na Europa (com origem na América do Norte), cuja presença em Portugal foi confirmada em 2010. Actualmente, está distribuído por todo o território, associado, não só ao pinheiro manso mas também a outros pinheiros, e sendo objeto de estudo de numerosas equipas de investigação por toda a Europa para se desenvolver meios de monitorização e controlo.

A Lagarta das pinhas, Dioryctria mendacella, é um insecto nativo, isto é, faz parte da fauna do nosso país. Contudo, na última década, tem apresentado flutuações populacionais preocupantes, com elevadas densidades e, consequentemente, também elevadas incidências de ataque em pinhas de todas as idades. O seu impacto na produção pode atingir os 50%. O dano na pinha advém do consumo dos pinhões pela lagarta no interior da pinha, a qual apresenta orifícios e exsudados de resina (“pinhas bichadas). Estão a ser testados atrativos /armadilhas para este insecto, existindo já um modelo eficaz que brevemente ficará disponível para os proprietários.

Em relação ao Gorgulho-das-pinhas, Pissodes validirostris, é também o estádio imaturo (a lagarta) quem causa o dano, consumindo os pinhões e outros tecidos do interior da pinha, sem causar forte exsudação de resina. Numa fase avançada do dano, a pinha seca. O seu impacto na produção de pinhas é inferior a 5%, sendo uma praga que, geralmente, não levanta grande preocupação a produtores.

Lagartas de processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa)

Além dos agentes que afetam diretamente a produção de pinha/pinhão, existem outras pragas que podem afetar o desenvolvimento ou vigor das árvores, e assim afetar, indiretamente, a produção e rendimento da pinha. De entre os desfolhadores, a processionária dos pinheiros (Thaumetopoea pityocampa) é o mais importante, podendo causar desfolhas totais nas árvores que podem provocar atrasos de crescimento e perda de vigor. Adicionalmente, as lagartas possuem pêlos urticantes que podem provocar irritações no aparelho respiratório ou alergias, tanto no ser humano como nos animais.

Os insetos sugadores mais importantes são as cochonilhas, nomeadamente cochonilhas lapa do género Leucaspis que afetam o crescimento e vigor dos pinheiros jovens, especialmente em zonas mais secas e arenosas. Ao alimentarem-se, estes insectos sugadores causam o amarelecimento e queda precoce das agulhas, por vezes com morte dos ramitos. A queda das agulhas e rarefacção da copa pode afectar significativamente o vigor vegetativo do hospedeiro, mais grave em anos de seca ou na presença de solos pobres. Já os ataques de afídeos são geralmente localizados e pouco importantes no pinheiro manso. O combate aos agentes sugadores não é fácil, mas pode ser efetuado com intervenções culturais tais como a remoção de ramos muito infetados e a realização de desbastes pontuais para abrir e arejar a copa.

Os principais insetos que afetam o tronco, ramos ou raminhos do pinheiro manso são os escolitídeos do género Tomicus, conhecidos como Hilésinas, os quais geralmente causam problemas após a realização de desbastes e desramas em que o material lenhoso permanece no terreno por várias semanas, sendo então colonizado por estes insetos. As populações das Hilésinas podem aumentam muito rapidamente nesse material cortado, e depois de emergir os adultos atacam as árvores nas imediações, podendo provocar a sua morte. De facto, estes são escolitídeos muito agressivos que emitem feromonas de agregação para efectuarem ataques em massa, e transportam fungos patogénicos que ajudam a debilitar o hospedeiro. Já a Piral-do-tronco, Dioryctria sylvestrella, causa deformações no tronco principal que podem originar árvores com fustes tortos e irregulares, mas os ataques em pinheiro manso são geralmente pouco importantes.

Quer directamente, quer indirectamente, o impacto de todos este agentes bióticos na produção de pinha e pinhão de pinheiro-manso deve ser conhecido, monitorizado e gerido. Projetos nacionais, como o do grupo operacional +PINHÃO* (consórcio de entidades de investigação, produtores e indústria), são contributos fundamentais para a compreensão, difusão do conhecimento e desenvolvimento de novos métodos de gestão e de luta contra as pragas florestais.

* https://www.isa.ulisboa.pt/files/cef/pub/Ficha_de_projecto_PINHAO_ingles-1.pdf

Autoria:

Ana Farinha1 , Pedro Naves2

1 UMR BIOGECO 69 route d’Arcachon 33612 Cestas cedex, Bordeaux, France. ana.farinha@u-bordeaux.fr

2 Unidade Estratégica de Sistemas Agrários e Florestais e Sanidade Vegetal; Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. (INIAV); Av. da República, Quinta do Marquês, 2780-159 Oeiras, Portugal. pedro.naves@iniav.pt

*Escrito ao abrigo do Anterior Acordo Ortográfico

Artigo completo publicado na edição de janeiro 2021.