Agrociência

Cuidado agricultores: a água já chegou ao “casino” de Wall Street e as implicações são preocupantes

A água é mais do que a grande matéria-prima do setor da agricultura. É o elemento fundamental por detrás da edificação na nossa sociedade, um recurso indispensável para a preservação de todas as espécies animais e vegetais e um dos grandes vetores da manutenção da saúde pública.

〈 19/03/21 〉

A sua importância está de tal forma latente em todo o tipo de atividades naturais e humanas que enumerar as suas qualidades se torna num exercício praticamente fútil. No entanto, o futuro da água é neste momento mais incerto do que nunca. A partir do final do ano passado, a água passou a integrar o mercado de futuros do “casino” de Wall Street. É uma notícia histórica e preocupante que pode afetar de forma decisiva o futuro do setor da agricultura e da agrociência a médio e longo prazo.

O que é o mercado de futuros?

Todo o tipo de bens são negociados no mercado de futuros. Mas permitir que a água seja alvo de especulação financeira pode ser perigoso.
O mercado de futuros é muitas vezes comparado a um casino (tal como acontece com todo o tipo de mecanismos de especulação financeira) já que funciona com base numa aposta futura. O processo é extremamente simples: um investidor adquire um determinado número de bens por um preço fixo a determinada altura e recebe os mesmos bens semanas, meses, ou mesmo anos mais tarde. De acordo com a flutuação do valor dos bens negociados, o investidor pode ganhar ou perder dinheiro. É por isso que apostar no mercado de futuros é um pouco como fazer uma aposta num site de jogos online ou de apostas desportivas: a lógica por detrás de cada decisão é puramente especulativa, baseando-se simplesmente numa previsão falível do que vai acontecer no futuro.

O que é que acontece ao setor da agricultura quando um bem tão essencial como a água passa a integrar este tipo de mercados?

Teoricamente, as consequências podem ser nulas do ponto de vista do agricultor. Num mundo ideal, o preço da água seria relativamente estável e os contratos de futuros seriam negociados com base em margens de lucro e de risco mínimas. Contudo, não vivemos num mundo ideal.
Muitos especialistas já referiram que a introdução da água no mercado de futuros pode ter como base a noção de que a água se vai tornar num bem escasso e caro durante as próximas décadas. Uma realidade preocupante que pode ser ainda mais perigosa se tivermos em conta os grandes riscos da especulação financeira.
Um dos exemplos clássicos deste tipo de risco passa pelo mercado imobiliário. O acesso livre a habitação acessível devia ser um direito de todos os cidadãos. Mas o facto de existir um volume tão grande de especulação financeira associada a este mercado levou a que seja praticamente impossível comprar casa em grandes centros imobiliários. Basta olhar para grandes cidades europeias como Londres ou Berlim ou pensar no boom imobiliário que tem vindo a assolar Tóquio desde a década de 80. O valor das propriedades aumentou de tal forma que os locais foram forçados a transitar para zonas suburbanas ou a pagar rendas exorbitantes. Mas pode o mesmo acontecer com um bem tão fundamental como a água?

Como lidar com o “casino” de Wall Street?

A introdução da água no mercado de futuros é um fenómeno relativamente recente e podemos ter que esperar anos até sentir as verdadeiras consequências desta iniciativa. Contudo, é importante pensar desde já em medidas que podem ajudar a atenuar a influência de Wall Street no futuro da água. A não ser que grandes inovações tecnológicas possam vir a mitigar o previsível fenómeno da escassez da água em todo o mundo, a resposta deverá passar pela introdução de um conjunto de normas legais que assegurem a sobrevivência do setor da agricultura e da sociedade em geral.
Caso o mercado de futuros da água resulte numa sobrevalorização excessiva do valor da água (podendo o inverso também acontecer) é importante que os governos de todo o mundo protejam os seus cidadãos e os empresários locais. Uma potencial solução passa pela certificação de que todos têm acesso a um volume mínimo de água todos os dias, semanas, ou meses. Impor restrições relativamente aos custos máximos e mínimos da água também pode ser essencial.

Os exemplos fatídicos da Enron e da Bolívia

Basta olhar para o exemplo da fraudulenta Enron para perceber que especular com bens de primeira necessidade pública pode ser muito perigoso. Em 2001, a antiga empresa de energia começou a apostar no valor da eletricidade e os esquemas levados a cabo pela empresa acabaram por despoletar uma crise elétrica na Califórnia que, segundo as estimativas, não só custou biliões de dólares ao estado norte-americano como lesou de forma direta milhares de cidadãos californianos.
Algo semelhante aconteceu na Bolívia, quando uma empresa norte-americana realizou uma experiência social e tentou privatizar a água. O resultado foi catastrófico: a conta da água representava mais de metade dos gastos mensais do cidadão boliviano comum e esteve por detrás de violentas manifestações e de grande instabilidade social.

Autora do artigo: Lucía Barbosa Cruz