Floresta

” Falta ainda muito know-how de gestão e de conhecimento científico aplicado “

Pinheiros mansos. Crédito fotográfico: Pedro Pacheco Marques ©

“Se por um lado se apostou bastante em novos povoamentos, devidamente ordenados, falta ainda muito know-how de gestão e de conhecimento científico aplicado”

〈 21/03/21 〉

A Associação de Produtores Florestais do Vale do Sado está sediada no Litoral Alentejano, sendo inevitável a ligação à fileira do pinheiro manso. Hoje, tanto direta como indiretamente, a ANSUB está envolvida em vários projetos e considera que, particularmente em temáticas como o pinheiro manso ou o sobreiro (Sistemas Agroflorestais Mediterrânicos de Sequeiro), é sobremaneira importante o seu envolvimento, “pois a falta de conhecimento sobre estes sistemas é avassaladora”.

A Associação de Produtores Florestais do Vale do Sado (ANSUB) tem já um histórico de 25 anos de trabalho e assume-se como referência no Sul do País, com uma base sólida de associados e que faz parte de uma network de entidades “que são pilares de desenvolvimento regional e, ao mesmo tempo, vetores de extensão do conhecimento científico entre as instituições de investigação e desenvolvimento e os utilizadores”, clarifica o seu presidente, Pedro Silveira.

Sediada no Litoral Alentejano, considerado o “solar” do pinheiro manso, desde sempre fez sentido que a ANSUB lhe prestasse particular atenção, até pela importância económica que assume para os seus associados. Com o evoluir dos tempos novas oportunidades foram aparecendo para este produto de excelência, já apelidado de “ouro branco”, nomeadamente a exportação, o que imprimiu novas dinâmicas à fileira, e que a ANSUB tem acompanhado e divulgado.

No terreno, por norma as explorações são baseadas em sistemas agroflorestais de sequeiro extensivo, constituídos por povoamentos puros e/ou mistos de sobreiros e pinheiros mansos nas areias dos vales do Sado e do Tejo com graves problemas de fertilidade. “São sistemas particularmente sensíveis e bastante afetados pelas alterações climáticas e de rentabilidade unitária bastante baixa”, argumenta Pedro Silveira, avançando que a área média será de 400 ha/un mas poderá variar, sendo mais pequenos junto ao litoral e maiores no interior.

Esclarece que a evolução destas áreas tem sido “algo errática”. Quer com isto dizer que, “se por um lado se apostou bastante em novos povoamentos, devidamente ordenados, falta ainda muito know-how de gestão e de conhecimento científico aplicado”.

Também a questão das alterações climáticas veio alterar um pouco aquilo que era tido como certo. Outra questão preocupante é a pressão que outros usos, nomeadamente o turístico, estão a colocar e certos povoamentos, provocando o seu sobre fracionamento e abandono de perspetiva produtiva, sobretudo na faixa litoral, sem esquecer o também o crescimento de furtos.

Preços altos e menos pinha, assim vai a campanha

Sobre a campanha (de colheita) que iniciou no passado dia 1 de dezembro a primeira nota de Pedro Silveira é que começou com preços muito altos “e isso para nós não é bom sinal”. Isto é, por um lado quer dizer que há pouca produção, “os custos de colheita são muito altos e o produto final, o pinhão, irá para o mercado a preços muito pouco democráticos! Ou seja, um afunilamento de clientes”. Por outro lado, pode querer dizer, especulação de pinha roubada e de pinhais comprados em globo.

Em termos de expectativas, claramente haverá menos pinha, principalmente nas zonas mais a Sul onde choveu menos. Haverá mais pinha roubada e o produtor terá menor rendimento.

Já quando questionado sobre se a produção nacional é suficiente para satisfazer as necessidades da indústria, a resposta é claramente negativa, visto existir um excesso de procura para a oferta, com a evolução dos preços da pinha e do pinhão a demonstrarem-no.

A ANSUB atua ao longo de toda a fileira, “como motor e repositório de conhecimento e informação, fazendo a ponte entre os diferentes stakeholders (produtores/ estado/comunidade científica)”. Tanto direta como indiretamente, está envolvida em vários projetos e considera que, particularmente em temáticas como o pinheiro manso ou o sobreiro (Sistemas Agroflorestais Mediterrânicos de Sequeiro), é sobremaneira importante o seu envolvimento, “pois a falta de conhecimento sobre estes sistemas é avassaladora, e temos de ser nós os motores desse conhecimento”.

Nesse sentido faz parte da equipa coordenadora do CCPMP em representação da UNAC e participa em todos os GO do PDR2020 que se dedicam ao pinheiro manso. Participa ainda em vários GO sobre Sobreiro, solos, projetos do PDR2020 Rede Rural, LIFE Montado Adapt sobre adaptação às alterações climáticas em Montados, projetos com ICNF de monitorização do estado fitossanitário da floresta, e muitos outros que não conseguimos aqui enumerar.

Também dinamiza meios técnicos aos seus associados (material vegetativo de qualidade, enxertia, projetos, consultoria) para que os seus povoamentos estejam na linha da frente em termos produtivos, tal como informações de mercado e suas tendências.

Aposta da Associação é a Gestão Florestal Sustentável, assente em três pilares: Económico, o Social e o Ambiental

A nível de futuro a aposta da Associação é a Gestão Florestal Sustentável, assente em três pilares, o Económico, o Social e o Ambiental, sendo essa gestão auditável através dos sistemas acreditados existentes e aceites pela sociedade.

“Este conceito poderá ter de incluir “novidades” como pagamento de serviços ambientais e mercados de novos produtos, para viabilizar as Florestas no futuro, mas temos a plena consciência que será a única forma de se manterem estes sistemas florestais com as suas múltiplas valências”, sintetiza Pedro Silveira.

Artigo completo publicado na edição de janeiro 2021.