Floresta

Apesar do forte crescimento, falta diferenciação ao pinhão mediterrânico

O CCPMP – Centro de Competências do Pinheiro manso e do Pinhão foi constituído em 2015, contando atualmente com 42 membros entre investigadores, industriais e organizações de produtores florestais.

Entre os objetivos da sua constituição salienta-se a elaboração da Agenda Portuguesa de Investigação e Inovação no Pinheiro manso e no Pinhão que orientou as prioridades estratégicas de investimento dos projetos aprovados na medida PDR2020 -1.1 – grupos operacionais. Através da resposta às nossas questões ficamos a conhecer melhor este sector que cresceu mais de 550% nos últimos 50 anos, mas também as aspirações do próprio CCPMP que, entre outros, pretende criar bases para a sustentabilidade dos sistemas de pinheiro manso, através da melhoria da sua produtividade em quantidade de pinhas e do rendimento industrial da pinha, associado a uma gestão de uso múltiplo deste sistema agroflorestal.

Qual o retrato do sector a nível nacional?

O pinhal manso ocupa atualmente em Portugal cerca de 193 600 ha de acordo com os dados do último Inventário Florestal Nacional (IFN, 2015), estando concentrado na bacia hidrográfica do Sado e na região de Lisboa e Vale do Tejo.

A produção nacional de pinha oscila entre as 70.000 e as 120.000 ton/ano, com uma balança comercial positiva (cerca de 15 milhões de euros) (Santos, C. 2020)`1.

De acordo com o ICNF (Santos, C. 2020)`1, existem registados 6.696 operadores (98% registados para a operação de colheita), concentrados nos distritos de Setúbal, Lisboa e Santarém, conforme o regime jurídico em vigor desde 2015 a 2020. Com emissão de declarações de colheita foram contabilizados 5.109 operadores no mesmo período.

Dos 475 operadores registados como destinatários finais da pinha na campanha de 2019/20, apenas 2,7% destes absorveram 50% da produção nacional (13 operadores económicos).

Apesar da balança comercial ser positiva, verifica-se a presença no mercado de operadores internacionais que compram e transportam pinha para outros países europeus, nomeadamente Espanha e Itália, e também de operadores nacionais que importam pinha de Espanha.

De referir ainda que o processamento industrial da pinha em pinhão está concentrado em 18 operadores que declararam transformação na anterior campanha.

Tal como a maioria das fileiras florestais, esta fileira caracteriza-se por uma elevada pulverização dos produtores, aos quais acresce ainda um número significativo de intermediários não produtores que confluem todos num reduzido número de operadores de nível industrial.

Qual tem sido a evolução nos últimos anos?

Em Portugal continental o pinheiro manso é a espécie com o segundo maior crescimento nos últimos 50 anos em termos de ocupação. No final da década de 60 tinha uma abrangência no território nacional de apenas 35.000 ha (IFN, 1963).

Para esta expansão contribuiu certamente a valorização da pinha e do miolo de pinhão que aconteceu nas últimas décadas, os quadros comunitários de apoio que permitiram investimentos em novas arborizações e ainda o mais importante salto tecnológico para a fileira que foi a vulgarização da enxertia e o estabelecimento de dois parques clonais. A enxertia, quando realizada com material vegetativo de boa qualidade e origem conhecida (vulgarmente chamado garfos), permite antecipar a produção de pinha para os 8 anos, quando no método tradicional se iniciaria apenas a partir dos 20 – 25 anos e isso foi determinante no despertar do interesse dos produtores para o potencial desta espécie.

Mas esta maior valorização económica do produto e a obtenção de produção em árvores de menor dimensão agudizou problemas da fileira, nomeadamente os roubos de pinha. E o maior fluxo internacional de mercadorias, trouxe novas pragas exóticas que ameaçaram a produção, mais pelo desconhecimento do que pelo seu real impacto, como posteriormente se veio a demonstrar nos estudos que foram sendo efetuados.

Do ponto de vista laboral, é cada vez maior a dificuldade de garantir mão de obra experiente e qualificada para a colheita, em condições de segurança. A fileira precisa de vulgarizar também a colheita mecanizada, mas isso envolve um reforço do número de máquinas disponíveis, a alteração da silvicultura dos povoamentos para potenciar a colheita mecânica e a disponibilização de formação aos operadores deste tipo de equipamentos para não prejudicar as colheitas de pinha dos anos vindouros quando se vibra o pinheiro manso.

Mas, de forma geral, o sector procura novos posicionamentos estratégicos, com os produtores a investirem recursos na salvaguarda dos seus povoamentos em termos de defesa da floresta contra incêndios e contra agentes bióticos, a trabalharem ativamente através das suas organizações de produtores no aumento da informação e da transparência da fileira, na procura de formas de valorização da cadeia de valor através de mecanismos de amostragem e quantificação do rendimento da pinha e/ ou construindo modelos inovadores de comercialização agrupada.

Quais as principais dificuldades que o sector enfrenta?

Apesar do elevado valor económico do principal produto florestal obtido – o pinhão, a fileira enfrenta um conjunto de desafios que podem colocar em causa a sua sustentabilidade económica no futuro.

Como desafio transversal a outras fileiras florestais, a adaptação aos cenários de alterações climáticas é um dos principais que podem impactar em termos da produtividade. Os resultados de investigação revelam que a distribuição da precipitação e da temperatura ao longo do ano são determinantes quer na dimensão da pinha, quer na sua sobrevivência. Não nos podemos esquecer que estamos a tratar com um fruto que se encontra em desenvolvimento na árvore durante três anos, sujeito a três anos climatéricos distintos, à disposição de pragas e doenças durante todo este período.

Enfrentamos ainda um desafio externo relacionado com a concorrência associada aos países produtores de outros frutos semelhantes ao pinhão, mas que não têm origem em pinheiro manso. É o caso do pinhão chinês, que depois de embalado entra no circuito comercial como pinhão mediterrânico ou misturado com este, apesar de não ter as mesmas características em termos de valor nutritivo. Faltam mecanismos de diferenciação do pinhão mediterrânico no mercado e comunicação junto do consumidor para que possa distinguir o nosso pinhão, proveniente do pinheiro manso, dos restantes pinhões com origem noutras árvores que chegam embalados ao mercado nacional e europeu.

A nível interno, a existência de circuitos comerciais informais será talvez o principal problema. Anualmente, é provável que milhares de quilogramas de pinha sejam roubados na árvore e entrem no circuito industrial. A profissionalização da gestão das áreas de pinhal manso, tradicionalmente exploradas com vendas na árvore, com pouco conhecimento da quantidade real produzida, permitirá melhorar a informação sobre a produção nacional de pinha, o que acompanhado do reforço da fiscalização permitirá minimizar este problema.

De que forma o Centro de Competências pode ajudar a superar essas dificuldades?

A maioria destes desafios combate-se com conhecimento, e é por esta razão que a missão do CCPMP é promover o desenvolvimento e sustentabilidade da fileira do pinheiro manso pela via do reforço da investigação, da promoção da inovação e das boas práticas silvícolas e da transferência e divulgação do conhecimento.

Ainda em 2019 promovemos em conjunto com a Rede Rural Nacional um workshop regional onde foram apresentadas cinco fichas de extensão, publicadas pela UNAC – União da Floresta Mediterrânica totalmente dedicadas ao pinheiro manso abrangendo temáticas de cariz mais técnico desde a formação da pinha, a variação da sua dimensão ou a realização da enxertia até aspetos mais comerciais como a colheita mecânica ou a evolução da humidade da pinha ao longo de cada campanha de colheita.

“É na ligação constante com os centros de investigação, quer nacionais como internacionais, que pretendemos ir buscar os resultados aplicáveis na produção e construir novos projetos que permitam obter os saltos tecnológicos que a fileira precisa para se consolidar”.

Quais são os principais objetivos do CCPMP e em que fase se encontra?

Criado em 2015, o CCPMP teve como primeiro objetivo a elaboração da Agenda Portuguesa de Investigação no Pinheiro Manso e Pinhão, publicada em abril de 2016. Neste documento pretendeu-se procurar as respostas, através da Investigação, para as necessidades da fileira do pinheiro manso em todas as áreas de interesse e atuação.

Esta agenda estabeleceu objetivos detalhados por:

a) Ações base – que correspondem a necessidades estruturais que a fileira identifica desde há muito tempo. São exemplo, o inventário de diagnóstico do pinhal manso, o estabelecimento de uma rede de parcelas de investigação e monitorização ou a elaboração de cartas de aptidão que permitam definir e avaliar o potencial de expansão do pinhal manso;

b) Ações urgentes – identificadas como lacunas de conhecimento que carecem de investigação no curto prazo para permitir o estabelecimento de recomendações de gestão e a implementação de boas práticas silvícolas. É o caso da fertilização, da rega, da monitorização e controlo de pragas e doenças nos pinhais mansos ou da colheita mecânica de povoamentos.

c) Criação de conhecimento – definição de sete áreas científicas de investigação e inovação e das respetivas linhas de investigação a médio e longo prazo.

Concluído este primeiro objetivo, o CCPMP focou a sua atuação na compilação do conhecimento existente e na transferência do mesmo para os produtores. Para este efeito, elaborou uma candidatura à Operação 20.2.4 – Assistência Técnica RRN, na Área 4 – Observação da Agricultura e dos Territórios Rurais, a qual foi aprovada ainda em 2019. Sob esta candidatura promovemos um inquérito nacional às entidades de investigação para elencar os projetos em curso e os resultados mais recentes sobre pinheiro manso. Pretende-se a criação de um repositório digital com a informação existente e que possa ser anualmente atualizado para consulta pela fileira.

Mas apenas a listagem da informação revela-se insuficiente, pelo que o CCPMP pretende ir mais além avançando com a interpretação dos resultados e tradução numa linguagem corrente, publicando os mesmos em fichas técnicas de extensão acessíveis a todos os profissionais.

Infelizmente, também aqui a execução do projeto foi impactada pela atual pandemia, mas esperamos que o ano 2021 permita recuperar o atraso verificado e colocar à disposição da fileira resultados dos principais projetos que surgiram ancorados na Agenda de Investigação: é o caso dos grupos operacionais FERTIPINEA (ver texto seguinte) e +PINHÃO (ver texto seguinte) que pretendem, respetivamente, o Estabelecimento de Recomendações de Fertilização para o pinheiro manso, em condições de sequeiro e de regadio e a Gestão Integrada de Agentes Bióticos associados à perda de produção de pinhão, respondendo desta forma a duas das ações urgentes atrás elencadas.

No que respeita aos recursos genéticos, o projeto “Pinheiro manso (Pinus pinea L.): Conservação e melhoramento dos recursos genéticos” visa garantir a conservação da variabilidade genética existente identificando povoamentos representativos das diferentes regiões de proveniência e, selecionar, num ensaio de campo a estabelecer, árvores geneticamente superiores para a produção de pinha.

Quais são as grandes aspirações para a fileira do pinheiro manso e do pinhão?

Criar bases para a sustentabilidade dos sistemas de pinheiro manso, através da melhoria da sua produtividade em quantidade de pinhas e do rendimento industrial da pinha, associado a uma gestão de uso múltiplo deste sistema agro-florestal. Também assegurar a qualidade de um produto de elevado valor económico – o pinhão, reduzindo a incidência de pragas e doenças, aumentando a transparência do mercado e melhorando as condições de colheita. E, não menos importante, garantir mecanismos de identificação e diferenciação do pinhão mediterrânico.

1 Santos, Cristina (2020)

– Contribuição do regime jurídico da pinha na valorização da fileira do pinheiro manso. Webinar da Ciência à Aplicação “Pinha e Pinhão – Desafios e Oportunidades” disponível on-line em http://unac.pt/index.php/eventos-noticias/noticias/item/261-webinar-junta-fileiras-do-pinhao-amendoa-e-castanha

Artigo completo publicado na edição de janeiro 2021.