Agropecuária Hortofruticultura

Pelo Algarve, as alfarrobeiras dão fruto em Dezembro como se fosse Verão

Nos centros de experimentação agrária algarvios, as plantas já reagem ao clima em mudança.

Conforme avança o jornal Público, nesta direcção regional de Agricultura está a maior coleção de árvores de fruto do país — cerca de mil variedades — mas o património vegetal corre o risco de desaparecer por falta de recursos humanos.

As alfarrobas não se medem aos palmos mas torna-se irresistível não comparar o fruto com o tamanho da mão. “Onde é que já se viu isto, em finais de Dezembro?”, pergunta João Costa, intrigado. O fenómeno de crescimento exagerado dos frutos secos fora de época pode ser observado no Centro de Experimentação Agrária de Tavira. O agrónomo, em vésperas de partir para reforma, mostra a maior colecção do país em árvores de fruto – cerca de mil variedades – a cargo da Direcção Regional de Agricultura do Algarve. Só de alfarrobeiras existem 43 espécies, sem contar com mais de 300 variedades de citrinos. Um património em risco de desaparecer por falta de pessoal e interesses imobiliários.

As alterações climáticas trocaram as voltas às estações do ano. As alfarrobeiras apresentam-se num estado vegetativo que faz lembrar o mês de Julho. As amendoeiras, a indiciar um florir precoce, vão pelo mesmo caminho. Mudaram-se os tempos, mas as políticas agrícolas repetem os modelos do passado. O Algarve, uma região cada vez mais árida, assiste todos os dias a uma acentuada perda de biodiversidade. “Recuperámos centenas de variedades de árvores de fruto em risco de se perderem”, destaca o director regional de Agricultura do Algarve, Pedro Monteiro, lembrando que as raças de animais autóctones – a vaca, cabra e a ovelha churra – também estão ameaçadas. “Só temos sete exemplares da vaca algarvia”, exemplifica.

O Ministério da Agricultura, na região algarvia – tal como no resto do país –, está a perder o contacto com as pessoas que metem as mãos na terra. “Vou partir”, diz João Costa, a acariciar as folhas de uma alfarrobeira, carregada de frutos. As árvores não falam, mas parecem ouvir as palavras do agrónomo, num adeus sem gestos. “Hei-de cá voltar”, promete, deixando cair umas gotas de saudade. Os colegas, António Marreiros e José Tomás, reconhecem-lhe a “carolice e a paixão” com que se entregou, há cerca de 12 anos, a esta causa – a recolha de espécies autóctones, muitas delas em vias de extinção. Gostaria de ter “feito escola”, confidencia. Mas dificilmente vai ter seguidores. “O Armindo Rosa [colega] vai, também, meter os papéis para a reforma”, anuncia. Está a chegar ao fim uma geração que viu nascer os Centros de Experimentação Agrária, numa altura em que o Ministério da Agricultura apostou na descentralização para valorizar a identidade de cada região.