Agroalimentar Hortofruticultura

Circuitos Curtos Agroalimentares, novas formas de relação entre produtores e consumidores

Circuito Curto Agroalimentar é definido pela Rede Rural Nacional como um modo de comercialização dos produtos agroalimentares que se efetua por venda direta do produtor ao consumidor ou por venda indireta através de um único intermediário. Associa-se ainda uma proximidade geográfica entre produtores e consumidores.

Com a pandemia por Covid19 foi público o aumento pela procura deste tipo de comercialização em que se consegue identificar a origem dos produtos, com o consumidor a ganhar maior apetência para comprar o que é nacional e apoiar os pequenos produtores locais. Mas, por outro lado, importa encontrar respostas para um conjunto de oportunidades e dificuldades que irão surgir no pós-Covid-19, no sentido de reforçar a criação e/ou dinamização de sistemas agro-alimentares locais cada vez mais sustentáveis.

É esta a leitura que faz Cláudia Bandeiras em nome do Projeto PROVE e que desde 2006 materializa este conceito de Circuito Curto de Comercialização, inicialmente com dois núcleos, um em Palmela e outro em Sesimbra, constituídos respetivamente por dois e três produtores, e com um total de cerca de 30 consumidores em cada local de entrega. Atualmente a Rede PROVE estende-se de Norte a Sul do País e é constituída por 21 Entidades Dinamizadoras que dão apoio a 97 núcleos, 141 explorações agrícolas divididas por 12 distritos e 3.787 consumidores registados, a maioria com entrega de cabaz semanal.

Voltando ao início, importa referir que o PROVE nasce da constatação de um problema que afeta muitos milhares de pequenos produtores hortofrutícolas que se viram afastados dos circuitos de comercialização. Em grande parte devido aos processos de globalização e importação de produtos agroalimentares, e à concentração da da comercialização em três a quatro grandes cadeias de distribuição, somando-se ainda as limitações fiscais e legais impostas à comercialização e transformação que vieram reforçar a tendência de exclusão do mercado de muitos pequenos produtores.

Por outro lado, os produtores apresentam produções desajustadas e por vezes com uma apresentação pouco cuidada, assim como uma reduzida iniciativa económica, fracos conhecimentos de gestão e marketing, e uma fraca leitura do mercado, que resultam na dificuldade de escoamento dos produtos.

Já os consumidores manifestam uma insuficiente consciência das vantagens de adquirir produtos locais através de processos de comercialização de proximidade, bem como falta de tempo, falta de sensibilidade ética e social, desconhecimento de variedades hortofrutícolas locais, sua produção e utilização, e um fraco conhecimento da importância do trabalho dos pequenos produtores.

Pequenos núcleos de produtores todas as semanas reúnem as suas produções e preparam um cabaz que entregam diretamente ao consumidor final

Sensibilizados para estas questões, um conjunto de parceiros da região da Península de Setúbal, decidiu desenvolver um projeto que refletisse sobre estas questões e encontra-se soluções para as problemáticas identificadas e foi assim que nasceu o projeto-piloto PROVE.

Através do PROVE são constituídos núcleos de agricultores, normalmente compostos por três ou quatro elementos, que, todas as semanas reúnem as suas produções e preparam um cabaz de hortofrutícolas que entregam diretamente ao consumidor final a um preço fixo, sem a interferência de intermediários. Os agricultores tornam-se assim empresários, donos de um negócio que começa na produção agrícola e termina no contacto direto com o consumidor. A adesão dos produtores tem sido muito positiva porque percebem que o PROVE pode ser uma alternativa para o seu negócio e para o escoamento dos seus produtos. O facto de terem uma Rede Nacional implementada confere-lhes confiança e credibilidade no processo.

Já para o consumidor, são assumidos como ponto positivos o facto de ter acesso a produtos locais de qualidade, frescos, colhidos no próprio dia e a preços justos. Além disso, tem acesso a informação sobre a origem do produto, o seu modo de produção e as suas especificidades (cor, sabor, variedade agrícola, forma de utilização, etc.) e o fluxo de comunicação entre produtores e consumidores permite criar confiança mútua e diferenciar os produtos locais dos restantes.

Principais objetivos e benefícios do PROVE:

  • Para os produtores porque conseguem garantir a venda dos seus produtos e ter o reconhecimento do seu trabalho, melhorando a sua autoestima e o seu rendimento familiar.
  • Para os consumidores porque têm acesso a produtos frescos e saborosos com uma excelente relação qualidade/preço, o que proporciona o aumento do consumo de produtos mais saudáveis.
  • Para os territórios porque ocorre o aumento da competitividade das zonas rurais e uma maior interação entre o espaço rural e urbano, com o desenvolvimento de diversas atividades geradoras de riqueza. De salientar ainda que o consumo de proximidade implica a diminuição da distância entre o local de produção e o local de consumo, o que origina benefícios ao nível ambiental e de segurança alimentar.

O PROVE é dinamizado por entidades locais, em especial Associações de Desenvolvimento Local que apoiam os produtores no processo de produção e comercialização.

Já recebeu diversas distinções por parte de instituições nacionais e europeias merecendo destaque a referência como projeto do mês por parte da Rede Rural Europeia, a nomeação de iniciativa de elevado potencial de empreendedorismo social por parte do IES – Social Entrepreneurship Institute e exemplo de boa prática de sustentabilidade pelo Observatório para Sustentabilidade da Área Metropolitana de Lisboa.

Iniciativa km0 está a ganhar terreno no Alentejo Central

Mais recente mas com objetivos bem parecidos a iniciativa km0 nasceu no âmbito de um projeto e investigação europeu coordenado pelo MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, o projecto SALSA – Small farms, small food businesses and sustainable food security. Este projeto envolveu 16 parceiros, maioritariamente europeus, mas também africanos. Tinha como objetivo avaliar o papel no sistema alimentar regional, das pequenas empresas agroalimentares, de produção, transformação e distribuição. Para essa avaliação o projeto SALSA desenvolveu uma abordagem transdisciplinar, multi-escala, que combinou diversos quadros teóricos e analíticos, e que incluiu métodos quantitativos, qualitativos e consultivos. Em Portugal foi criado um grupo consultivo que juntou agricultores e representantes de produtores, representantes de unidades de processamento, associações dos mesmos, elementos da administração local e regional, entre outros. Com uma vontade firme de dar visibilidade à pequena agricultura familiar, e inspirados por um projeto piloto implementado no concelho vizinho – Montemor-o-Novo, este grupo elegeu como bandeira a promoção do conceito Km0 no Alentejo Central. Juntaram-se à Universidade de Évora, a Associação Comercial do Distrito de Évora, a Câmara Municipal de Évora, a Entidade Regional de Turismo, o Núcleo Empresarial da Região de Évora, mas também a SlowFood Alentejo, a GESAMB – Gestão Ambiental e de Resíduos, EIM e a Fundação Alentejo.

Estas entidades assinaram um protocolo de colaboração em março de 2019, comprometendo-se a investir na concretização da iniciativa km0, de acordo com as competências de cada entidade.

O conceito Km0 Alentejo foi definido, regionalmente, como a oferta em restaurantes, cantinas, lojas e bancas do mercado de produtores, de produtos alimentares que foram produzidos, ou produzidos e transformados a uma distância até 50 quilómetros do local de consumo. Foi criado um referencial de certificação, uma marca registada que obriga a uma utilização criteriosa do conceito e um logo. O conceito inclui e certifica toda a cadeia alimentar: desde produtores de hortofrutícolas, ovos, carne, mel, transformadores de queijo, compotas, pão, vinho, e restaurantes, cantinas, lojas e bancas dos mercados de produtores que vendem ao consumidor final. O conceito inclui ainda a ideia de circuito curto, pelo que garante que não existe mais do que um intermediário entre o produtor e/ou transformador e o consumidor final. Desta forma, pretende-se proteger o rendimento dos produtores/transformadores e a sua viabilidade económica.

De acordo com a equipa do projeto, a adesão dos produtores tem sido positiva. No concelho de Évora, a autarquia financia a certificação dos produtores na fase inicial, durante 2 anos, para que estes tenham oportunidade de comprovar as vantagens em aderir à iniciativa. Já outros concelhos ponderam a sua adesão e avançar com este apoio na primeira fase, mas os modelos de implementação e as necessidades podem variar de concelho para concelho. As regras do referencial é que têm de ser respeitadas, para dar garantias aos consumidores que procuram por produtos Km0 Alentejo e dar credibilidade a todo o processo(…). »