Agrociência Vinha & Vinho

MEDCLIV – Ecossistema Climático Mediterrânico da Vinha e do Vinho

Desafios Climáticos do Ecossistema português da vinha e do vinho

〈 13/12/2020 〉

Autoria: Luísa Pinto Ferreira e Filipa Carlos Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

O cultivo da vinha tem raízes históricas profundas, fazendo parte da paisagem agrícola e do património cultural das comunidades, e desempenhando um papel económico central. Isto é particularmente verdade na região do Mediterrâneo, onde se concentram os principais países produtores de vinho no mundo e onde Portugal se inclui.

O Mediterrâneo é também um dos contextos geográficos onde o impacto das Alterações Climáticas será mais evidente ao longo do tempo, com tradução em fenómenos climáticos extremos que começam a ser cada vez mais frequentes: precipitação intensa, ondas de calor, seca, eventos extemporâneos de geadas e queda de granizo, ventos fortes ou incêndios.

A conjugação destes dois factores, a importância económica da vinha e do vinho na região mediterrânica e a forte incidência do impacto climático, apela à tomada de acção, efectiva e concertada, de adaptação e minimização dos impactos sócio-ambientais.

Uma abordagem sistémica e participativa para o desenho de soluções

Esta é a proposta e o objectivo do projeto MEDCLIV, dinamizar o ecossistema nacional da Vinha e do Vinho para a adaptação e resiliência às Alterações Climáticas. Reconhecendo que muitos são os desafios relacionados com aspectos técnico-científicos no sector da vinha e do vinho, para os quais já se encontram em desenvolvimento projectos de investigação, interessa que para a resolução de problemas complexos e com uma multiplicidade de perspectivas haja o apoio ao desenvolvimento de soluções que integrem o conhecimento existente e que sejam desenhadas em colaboração com os agentes do sector que efectivamente serão responsáveis pela sua implementação. Isso significa adoptar um olhar mais abrangente e sistémico sobre a realidade do sector, estimulando múltiplas soluções, complementares entre si e que respondam às diferentes necessidades dos agentes.

Para atingir este objectivo o MEDCLIV irá promover eventos participativos temáticos de acordo com as necessidades identificadas pelos vitivinicultores, estimulando o trabalho conjunto entre os diferentes perfis do sector (vitivinicultores, técnicos agrários, enólogos, decisores, investigadores, entre outros). Irá também desenvolver uma plataforma online que permita a subscrição destes perfis, para que acedam à informação produzida no âmbito do MEDCLIV e outros projectos parceiros, com o intuito de facilitar a disseminação do conhecimento e estimular a partilha de informação.

Conhecer o sector e as suas principais necessidades

O primeiro passo para preparar o espaço de intervenção do MEDCLIV dá-se através de um questionário dirigido a todos os vitivinicultores dos seis países envolvidos, para caracterizar o sector no que diz aos principais desafios impostos pelas Alterações Climáticas e efeitos já sentidos.

O questionário inclui questões sociais e técnicas, cobrindo áreas como o tipo de apoio a que os vitivinicultores recorrem para a tomada de decisão, alterações nas técnicas aplicadas (ao nível das vinhas e/ou adegas) ou a sua percepção geral dos efeitos das alterações climáticas, e passa por questões mais específicas de interesse fitossanitário, disponibilidade de recursos (com especial incidência na água e energia) e relativas a alterações químicas e organolépticas do vinho.

Os resultados do questionário (que à data de produção deste artigo ainda se encontra na fase de recolha de respostas) permitirão identificar prioridades de ação, para as quais o MEDCLIV contribuirá com o contexto colaborativo, através dos eventos participativos.

No evento de apresentação pública do MEDCLIV, realizado no passado dia 9 de Outubro, foi possível apresentar alguns resultados preliminares para o contexto português, onde se percebe que o sector relata já alterações nas suas práticas (figuras 1 e 2).

Ainda fruto da sessão participativa realizada nesse evento foi possível auscultar as instituições face ao que pensam ser os principais desafios e bloqueios que o sector enfrenta para se adaptar às Alterações Climáticas e tornar-se mais resiliente no longo prazo. Foi constatado que muitos dos desafios se prendem com aspectos processuais e de articulação no sector, deixando para segundo plano aspectos de cariz ambiental ou de sustentabilidade. Em particular questões relacionadas com “Conhecimento” foram as mais referidas, percebendo que é necessária mais sensibilização (awareness) e transferência para a prática, mas acima de tudo reconhecendo que muito conhecimento já existe e que o que é necessário é promover a sua comunicação, partilha e disseminação para que este seja mais facilmente acessível e aplicado na prática (figura 3).

Próximos passos

Através dos resultados obtidos via questionário e sessão participativa serão preparados os eventos participativos de âmbito territorial, onde serão desenvolvidas actividades de ideação e co-criação de ideias e soluções para os problemas específicos identificados.

A articulação entre os eventos participativos localizados, a plataforma online e as acções de dinamização do ecossistema permitirão assim contribuir para a capacitação dos agentes do sector, para que no final do projeto os ecossistemas nacionais sejam chamados a operar de forma autónoma, através da participação em iniciativas e projetos conjuntos, facilitando o acesso a financiamento público e/ou privado e contribuindo para acelerar os processos de inovação no sector.

Sobre: O MEDCLIV é um projecto que decorre em Portugal, Espanha, França, Itália, Eslovénia e Chipre e é financiado pelo EIT Climate-KIC. Em Portugal é liderado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

Caso pretenda mais informações, poderá consultar o site português em https://sites.fct.unl.pt/medcliv/, seguir o MEDCLIV nas redes sociais MEDCLIV – Vinha, Vinho & Alterações Climáticas ou entrar em contacto com a equipa através do e-mail filipacarlos@fct.unl.pt.

*Escrito ao Abrigo do Anterior AO

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.