Hortofruticultura

Maçã e pera com quebra generalizada de produção

Floração longa que coincidiu com um período de chuva, picos de calor, mas também a falta de frio e no Norte a ocorrência de granizo, tal como a saída de substâncias ativas do mercado são algumas das razões apontadas para a produção ter diminuído.

〈 06/03/2021 〉

Apesar do ano completamente atípico o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional – Centro de Competências – entendeu que deveria dar continuidade aos Balanços de Campanha que habitualmente realiza no final do ano, ainda que obviamente, em moldes diferentes.

Assim, foi online e conduzido pela secretária-geral do COTHN – CC, Maria do Carmo Martins, que os vários representantes da produção de pomóideas deram a conhecer os resultados das campanhas da pera e da maçã, no caso da última a partir de diferentes pontos do país, mas com resultados semelhantes, isto é, uma generalizada quebra de produção.

Genericamente, as razões para a quebra de produção de maçã foram uma floração longa e errónea e que coincidiu com um período de chuva, não permitindo intervenções, picos de calor, mas também a falta de frio e no Norte a ocorrência de granizo. A própria saída de substâncias ativas do mercado está a fazer surgir alguns problemas. Alguns técnicos presentes na sessão deixaram mesmo a ideia de que se não tivesse havido um aumento da área de pomares nos últimos anos a quebra seria muito mais gravosa.

Na pera houve uma redução de 27% em relação ao ano anterior

No caso da pera Rocha, coube a Domingos Santos, presidente da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha apresentar os dados da campanha que teve início a 17 de agosto, com ligeiro atraso em relação aos anos anteriores. Os números da colheita de pera dos associados da ANP (cerca de 90% do total nacional ) foram na ordem das 120 mil toneladas, o que representa uma redução de aproximadamente 45 mil toneladas em relação ao ano anterior (menos 27%), e, extrapolando para o total nacional a produção deverá ter sido um pouco superior a 134 mil toneladas. Em contrapartida, na Europa registou-se um aumento de produção na ordem dos 12%, o que tem reflexos na componente comercial.

Mercado online veio trazer uma nova perspetiva aos produtos frescos

A organização do evento convidou também Pedro Pimentel, da Centromarca, para abordar a tendência de mercado online nos produtos frescos, que o mesmo determinou com um antes e um depois de março passado porque, até então, em 100 euros de compras (de supermercado), apenas 1 a 1,5% era feito por via digital.

Em março, com o confinamento, para muitas pessoas o online passou a ser a única alternativa, embora com muitas dificuldades iniciais, dado o volume de encomendas e a logística de entrega implicada.

Em dezembro, eram um pouco menos de 5% as compras de supermercado feitas online. “É pouco, mas é o triplo do que acontecia até março”, sustenta Pedro Pimentel.

E no futuro, vai manter-se assim? Partindo do princípio de que vamos voltar à normalidade, para o responsável é de crer que a escolha pelo online vai manter-se, mas nos produtos não frescos, “mas irá dar um novo impulso na área de frescos dos supermercados, porque esse vai ser o elemento distintivo entre as várias cadeias de retalho”.

Pedro Pimentel acredita que esta situação vai criar oportunidades para lojas diferentes, mais parecidas com as mercearias tradicionais, sem menosprezar outras formas de venda, como já vai acontecendo com os cabazes, resultando da organização entre produtores.

Tanto em Alcobaça como em Armamar a maçã é de excelente qualidade

De acordo com Susana Costa, em nome da Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça, esta foi uma campanha bastante diferente, “mas com o profissionalismo de todos os intervenientes, decorreu sem qualquer tipo de incidentes a nível de COVID”.

A Associação, a entidade gestora da IGP “Maçã de Alcobaça”, é constituída por 22 membros associados e tem priorizado o mercado nacional, operando com uma marca coletiva. Dentro da Associação foi criado o Clube dos Exportadores, que reúne 10 dos seus 22 membros.

Em 2020 a produção desses produtores foi de cerca de 40 mil toneladas. Em relação a 2019 (que registou a maior produção de sempre) a quebra foi na ordem dos 27% e resultou essencialmente de condições climatéricas adversas. Mas, diz a responsável, “à exceção de dois dias de calor extremo, o ano foi excelente para obter frutos de qualidade (sabor e consistência), os calibres apresentaram-se mais pequenos que os anteriores e a fruta tem bons níveis de açúcar”. Praticamente não se registaram problemas fitossanitários, resultado de uma produção e proteção integrada bem sedimentada nos pomares dos membros há mais de duas décadas, assim como um elevado número de lotes com resíduos próximos do zero.

Na área de intervenção da Associação de Fruticultores de Armamar verificaram-se alguns fenómenos climáticos extremos, nomeadamente queda de granizo (31 de maio) que afetou 80% do concelho, mas também picos de calor nos meses de junho, julho e agosto. Natércia Ribeiro, técnica da AFA, avança que de uma forma geral, em termos quantitativos, a campanha de 2020 representou quebras entre 40 a 60% (devido a alternância e geada) relativamente a 2019 e em termos qualitativos as quebras foram de cerca de 70 a 75% (devido a granizo, escaldão …).

Em relação à produção e à semelhança de anos anteriores, a “maçã apresentou bom grau brix, dureza elevada, boas propriedades organoléticas (…) resultando no cumprimento dos vários parâmetros de uma maçã de qualidade, característica da região”.

Produtores associados à Beyra Douro Fruits poderão atingir as 50 mil toneladas de maçã

A Beyra Douro Fruits é uma sociedade composta por seis empresas com um longo histórico de produção. Criada em 2018 está agora a trabalhar em pleno, com objetivo de promover a fileira das maçãs da região da Beira Alta e Trás-os-Montes.

Envolve 370 produtores (cerca de 1400 hectares) e uma área geográfica bastante vasta onde, esclarece o seu representante, José Teixeira, nos últimos anos plantaram-se mais de dois mil hectares de macieiras.

A produção de 2020 foi na ordem das 30 mil toneladas, mas que não traduzem a expressividade da região, “que nos últimos anos tem sido fortemente afetada por granizos destruidores”. Acredita que num ano sem grandes alterações, será possível a este grupo atingir as 50 mil toneladas.

Como principais problemas na produção identifica calibres ainda desajustados à procura do mercado, ‘bitter-pit’ em algumas variedades (…), “embora na generalidade a maçã apresente bons padrões qualitativos”.