Agropecuária Sanidade animal

O Impacto da COVID-19 na alimentação animal em Portugal e na União Europeia: Desafios e Perspetivas

Se há conclusão que podemos retirar acerca do impacto da Covid-19 na alimentação animal é que o setor é extremamente resiliente. A produção e distribuição de alimentos compostos não parou e este setor foi considerado desde logo como essencial.

〈 06/03/2021 〉

Fruto de uma notável partilha de responsabilidades, os consumidores não sentiram falta de produtos alimentares de origem animal nas suas mesas, mesmo durante a fase de confinamento geral. Evidentemente, isto não aconteceu por acaso. A criação de corredores verdes ao nível da União Europeia e a prioridade para o Mercado Interno foram fatores muito positivos e que permitiram manter a cadeia alimentar em funcionamento. No entanto, o setor teve de ultrapassar obstáculos e lidar com dificuldades algumas das quais far-se-ão sentir mais a longo prazo do que no passado ano de 2020, de má memória.

O confinamento geral e a diminuição da quantidade de deslocações que os portugueses e os europeus fizeram teve, desde logo, um impacto direto na alimentação animal.

O confinamento geral e a diminuição da quantidade de deslocações que os portugueses e os europeus fizeram teve, desde logo, um impacto direto na alimentação animal. Pode parecer surpreendente, mas o facto de a alimentação animal, ao contrário do que se possa pensar, ser já um campeão da economia circular teve, neste caso, um impacto significativo.

Algumas das matérias-primas que utilizamos para produzir são coprodutos da extração de sementes (bagaços), cujos óleos também são utilizados na produção de biocombustíveis, designadamente de biodiesel, que usamos nas nossas viaturas. Quando a necessidade de combustíveis diminui o mesmo acontece à quantidade de coprodutos gerados para serem incluídos na alimentação dos animais. Esta situação verificou-se tanto a nível nacional como a nível europeu, o que fez aumentar a pressão sobre o preço das matérias-primas.

Em todo o caso, em Portugal, no primeiro semestre do ano, a procura manteve-se relativamente em linha com a procura em período homólogo, pois a maioria da população transferiu o seu consumo para produtos alimentares na distribuição de retalho. Paralelamente, a falta de turistas e as fortes restrições no canal HORECA conduziram a uma quebra nos preços à produção na generalidade dos produtos de origem animal, com a Comissão Europeia a conceder ajudas setoriais, como armazenagem privada, e outras, no quadro de medidas nacionais ou no âmbito do Desenvolvimento Rural.

Naturalmente que as empresas tiveram de se reajustar e adaptar à procura, quer no mercado interno, quer nas exportações. Por exemplo, na suinicultura, a continuidade das exportações para a China e de leitões para Espanha, permitiu travar maiores perdas, com um final de ano particularmente difícil para toda a Fileira da produção animal, com custos da alimentação em alta.

Desde muito cedo se tornou evidente que a Europa iria necessitar de um Plano de Recuperação Económica robusto (consubstanciado no “Próxima Geração UE” e no Quadro Financeiro Plurianual) e que essa recuperação económica iria estar alinhada com as já conhecidas orientações do “Pacto Ecológico Europeu” e das Estratégias “Do Prado ao Prato” e da “Estratégia para a Biodiversidade”.

Temos, assim, uma componente de proteção ambiental e de biodiversidade na economia como nunca tivemos no passado.

“A falta de turistas e as fortes restrições no canal HORECA conduziram a uma quebra nos preços à produção na generalidade dos produtos de origem animal, com a Comissão Europeia a conceder ajudas setoriais”

Temos, assim, uma componente de proteção ambiental e de biodiversidade na economia como nunca tivemos no passado, que tem de ser compatibilizada com competitividade, geradora de emprego e de riqueza para Portugal. É esta compatibilização que nos traz algumas reservas, caso da intensidade das metas relativas à redução das emissões de gases com efeito de estufa (55% de redução), da utilização de pesticidas químicos (-50%), fertilizantes (-20%), dos antibióticos (-50%) ou a promoção da agricultura biológica no horizonte 2030 (25% da área agrícola), que consideramos sobretudo aspiracionais e muito ambiciosas. Estas reservas são partilhadas quer pelos agentes da fileira da produção animal em Portugal, quer pelos Estados-membros do Sul da Europa. Receamos que venham a existir quebras na produção agroalimentar, maior dependência de Portugal e da União Europeia das importações de Países Terceiros, aumento de custos de produção e perda de competitividade dos produtos europeus nos mercados externos, ou seja, uma redução da capacidade de abastecimento no mercado global. Aguardamos, deste modo, pela avaliação de impacto das medidas propostas.

Apesar dos alertas, a IACA partilha das linhas gerais destas orientações estratégicas e quer ser parte da solução.

Por isso, assinámos recentemente a Carta de Sustentabilidade FEFAC 2030, temos projetos em curso no quadro do Alentejo 2020, estamos no GO Efluentes e lançámos, com mais 17 entidades, o Laboratório Colaborativo FeedInov, que mostra uma aposta clara na Sustentabilidade e em soluções nutricionais inovadoras que respondam aos desafios que nos são impostos pela Sociedade. No entanto, é neste contexto, de esforço acrescido, que nos deparamos com um novo aumento do preço das matérias-primas.

Apesar dos alertas, a IACA partilha das linhas gerais destas orientações estratégicas e quer ser parte da solução.

“O setor da alimentação Animal em Portugal estima fechar o ano de 2020 com uma perda entre 1 a 2 % face ao Volume de Negócios de 1,5 mil milhões de euros em 2019, ano em que registou uma produção de 3,9 milhões de toneladas”.

“A pandemia levantou ainda a questão da soberania e da segurança alimentar (food security), da dependência da Europa relativamente a outros mercados, desde logo a China, pelo que em 2021, vai estar em debate o plano de contingência em tempos de crise”.

A forte procura pela China e quebras de produção na zona do Mar Negro, além do impacto da COVID-19, pressionam os preços das matérias-primas das quais Portugal é muito dependente, nomeadamente milho, trigo, cevada, soja, colza e girassol. À manutenção desta tendência – aumentos entre 25 a 30% desde agosto – junta-se a escassez de fontes de proteína importantes como os bagaços de colza e girassol. Um cenário muito preocupante para a competitividade da Fileira durante o primeiro semestre de 2021, confrontada com custos em alta e baixos preços nos produtos de origem animal ao produtor.

O setor da alimentação Animal em Portugal estima fechar o ano de 2020 com uma perda entre 1 a 2 % face ao Volume de Negócios de 1,5 mil milhões de euros em 2019, ano em que registou uma produção de 3,9 milhões de toneladas. A nível europeu, a retração em média situa-se nos 2,2%, mas para além da pandemia temos o fenómeno das crises sanitárias como a peste suína africana ou a gripe aviária que afetam países relevantes como a Polónia, Alemanha, Roménia ou Holanda. O que impacta negativamente a produção pecuária, tendencialmente, tem impactos a montante, caso da alimentação animal. A pandemia levantou ainda a questão da soberania e da segurança alimentar (food security), da dependência da Europa relativamente a outros mercados, desde logo a China, pelo que em 2021, vai estar em debate o plano de contingência em tempos de crise. Irão afirmar-se os stocks estratégicos?

“O acesso a proteína, da maior relevância geopolítica, é um tema que estará em cima da mesa em Portugal e na União Europeia nos próximos 10 anos”.

Por esta razão, dentro da flexibilidade que a Comissão nos “concede” e apesar das recomendações, conhecidas a 18 de dezembro, o PEPAC (Plano Estratégico da PAC que deverá ser implementado em 2023) poderá ajudar com políticas públicas coerentes e incentivadoras de uma transição para uma economia verde de forma justa e que permitam manter as especificidades de cada país, a soberania alimentar e a relevância da agropecuária no equilíbrio do território e da paisagem, travando o abandono e a desertificação, e fixando os jovens no espaço rural. Promotor de uma PAC verdadeiramente inclusiva e sustentável.

Artigo completo publicado na edição de janeiro 2021.

Autoria:

  • Jaime Piçarra
  • Engº Agrónomo e Secretário-Geral da IACA
  • Representante da FIPA no Conselho de Acompanhamento da PAC