Bio Hortofruticultura

Aumentar área de cultivo de figueira em modo de produção biológico

Jovem fruticultor pretende aumentar área de cultivo de figueira em modo de produção biológico e com resíduo zero

A experiência de Filipe Carcau na área agrícola começou em contexto prático de trabalho na exploração agrícola da sua família, cuja principal cultura é a figueira. Depois de ter aprofundado conhecimentos tem hoje objetivos bem definidos para o projeto que está a desenvolver.

Inspirado na experiência adquirida na exploração agrícola familiar, Filipe Carcau ingressou na Licenciatura e mestrado em Engenharia Agronómica e a paixão que nutre pela figueira levou-o a investir na cultura consciente de que em Portugal esta sofreu um retrocesso, consequência da baixa modernização do sistema produtivo, da sua exigência em mão de obra, e da entrada de forte concorrência externa no mercado nacional do figo.

Os conhecimentos técnicos adquiridos na formação, alicerçados nos anos de experiência de acompanhamento dos pomares já existentes na sua exploração agrícola familiar levaram-no a avançar e o projeto prevê a instalação de 17 hectares de figueiral, em São Pedro de Vale do Conde (Mirandela) em modo de produção biológico, sendo o investimento de aproximadamente 270 mil euros.

Esta ideia surge como continuação da expansão da sua exploração agrícola familiar que conta atualmente com 16 ha de figueiral já instalados, dos quais Filipe Carcau é o gestor responsável.

Atualmente está na fase de preparação dos terrenos e pretende-se que as plantações sejam realizadas em três anos consecutivos, iniciando-se em fevereiro de 2021, “de forma a conseguir adquirir plantas e cultivares certificadas pelos viveiristas, planear as operações de preparação do solo (ripagem cruzada, drenagem e despedrega), corrigir os níveis nutricionais do solo e pH, fazer a piquetagem, instalar as condutas principais de rega, construir os embalses de água e por fim proceder à plantação das figueiras”.

“Seleção das variedades a instalar é um dos pontos fulcrais para atingir as metas produtivas da exploração agrícola”

De acordo com o técnico, a seleção das variedades a instalar é um dos pontos fulcrais para atingir as metas produtivas da exploração agrícola, devendo estar perfeitamente adaptadas ao local e às suas características edafoclimáticas, terem potencial produtivo elevado, com frutos de calibre, firmeza, brix e sabor, e não menos importante instalar as variedades que o mercado procura, “pois não adianta produzir e não vender”. A pensar em todos estes fatores as variedades a instalar são “Pingo de Mel”, “Bêbera Preta” e “Três no Prato”. A plantação da última variedade deve-se à necessidade de no início da colheita, início de agosto, ter (também) disponível para venda variedades de figo preto. A maior aposta na variedade “Pingo de Mel” justifica-se por ser a mais produtiva e a mais procurada quer nos mercados abastecedores quer pela indústria. A variedade “Bêbera Preta” surge por ser mais tardia e o seu pico de produção coincidir, normalmente, com a diminuição de produção da variedade “Pingo de Mel”, conseguindo-se assim manter uma regularidade de oferta de figo.

O escoamento da produção está totalmente assegurado por uma carteira de clientes que operam nas áreas metropolitanas do Porto e Lisboa, em fresco e seco

Para cumprir o propósito da inovação, Filipe Carcau vai proceder à instalação de sensores de monitorização remota: sensores de solo (humidade e pH), sensores meteorológicos (temperatura do ar, humidade do ar, radiação solar e pluviosidade) e programadores de rega e fertirrega. Com estas ferramentas será possível avaliar o stress hídrico das figueiras, gerir a água da exploração e intervir na programação de rega e fertirrega, poupando tempo e custos. Prevê também a utilização de sistemas de condução das plantas que permitam a entrada de luz e assim obter frutos de melhor qualidade, com melhor cor e maior equilíbrio entre ácidos e açúcares.

Pretende igualmente instalar um sistema que permita avaliar o desempenho dos trabalhadores durante a colheita do figo, com atribuição de prémios aos que apresentarem melhores desempenhos. Todas estas ações, além da introdução de inovação tecnológica por si só, “visam maior racionalidade na gestão dos recursos, minimização dos custos e com isto a melhoria da rentabilidade económica da exploração”.

Filipe Carcau pretende modernizar o seu modelo de produção ao longo dos anos, tornando-o cada vez mais tecnológico, sustentável e com maior eficiência energética, ao serviço da transformação digital e do e-commerce

Para atingir os seus objetivos Filipe Carcau continuará a frequentar congressos e feiras da área (nacionais e internacionais), bem como aumentar a rede de contactos dentro do cluster agroalimentar.

Esta foi aliás uma das principais mais-valias retiradas da participação na Academia do Centro de Frutologia da Compal, onde viu o seu projeto entre os três vencedores. Além da formação ao longo de dez semanas que lhe possibilitou aprofundar e adquirir novos conhecimentos, e reforçar a rede de contactos, o valor da bolsa vai possibilitar-lhe um arranque mais rápido dos investimentos.

E a intenção para o futuro é crescer em área de cultivo de figueira em modo de produção biológico e com resíduo zero, na conquista de mercados de nicho “seguindo as novas tendências de consumo e respondendo de igual forma aos players internacionais cuja demanda dos produtos biológicos tem aumentado exponencialmente”.

Enquanto jovem, fruticultor e com formação superior agrícola, a opinião de Filipe Carcau sobre o estado da fruticultura em Portugal é que o modelo produtivo tem evoluído nos últimos anos, principalmente na área da monitorização das culturas, fertilização, rega e controlo de pragas e doenças e infestantes, aliado ao maior nível de qualificação dos responsáveis pela gestão dos pomares. “No futuro é necessário aumentar a competitividade da fruticultura portuguesa, adotar modelos de produção mais sustentáveis e sempre que possível optar pelo modo de produção biológico, visto que o mercado é deficitário em fruta biológica. Em suma é necessário impulsionar uma fruticultura mais inteligente, amiga do ambiente, tecnologicamente mais avançada e promover a transformação digital do negócio agrícola”.

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.