Hortofruticultura Inovação

“Quem fica e quem entra agora nesta atividade fá-lo de forma cada vez mais empenhada e profissional”

Ao longo dos últimos dez anos o fruticultor português tem passado por inúmeros desafios, obrigando-se a uma maior profissionalização.

Por isso, quando questionada para lhe traçar um perfil, a Secretária-Geral do Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional – Centro de Competências, Maria do Carmo Martins, define-o como “cada vez mais profissional, mais preocupado com o impacto da sua atividade no ambiente, bastante resiliente, e com mais alto nível de conhecimento”. E mais, “os desafios e as exigências que se colocam hoje à produção têm empurrado para fora da atividade muitos pequenos produtores, que por falta de apoio técnico e dimensão, não têm conseguido acompanhar todo um leque vasto de exigências. Por isso, quem fica e quem entra agora para esta atividade fá-lo de forma cada vez mais empenhada e profissional”.

E hoje os desafios que se colocam ao setor tocam essencialmente as restrições e limitações provocadas pelas alterações climáticas. “A adaptação dos sistemas produtivos para a mitigação dos efeitos dos fenómenos extremos e o desenvolvimento e estratégias de gestão dos diversos recursos é fundamental

Também a ameaça à competitividade é algo constante, principalmente num cenário de maiores restrições ao nível no uso dos diversos fatores de produção, nomeadamente a disponibilidade de água e o preço elevado da energia.

Entretanto, o COTHN-CC, a PortugalFresh e a Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas produziram a Estratégia Nacional para Fruticultura que foi o “pontapé de saída” para a Agenda de Inovação e Investigação, que está a ser ultimada.

Esta Agenda encontra-se estruturada em quatro eixos estratégicos: para a produção primária, para a conservação e manipulação, para a comercialização e para o consumo. Dentro de cada um destes eixos são apresentadas áreas de investigação orientada, tendo por base os objetivos estratégicos da fileira e que passam por uma maior orientação para o mercado com o objetivo de equilibrar o poder negocial da produção e a balança comercial; pela criação de valor da fileira hortofrutícola através de uma maior diferenciação de produtos (DOP e IGP´s) e modos de produção cada vez mais competitivos, económica e ambientalmente, recorrendo também à criação de novos produtos baseados na valorização dos resíduos e desperdícios, tendo sempre como horizonte as tendências de consumo. Ainda desenvolver e potenciar o aumento do consumo dos produtos hortofrutícolas e a sua valorização tendo por base o seu valor intrínseco, o aumento da sustentabilidade da produção nacional, através da diminuição dos custos de produção, valorização do modo de produção sustentável (pegada de carbono, pegada hídrica e resíduo zero), fazendo recurso das tecnologias no âmbito da agricultura de precisão e ainda a minimização dos desperdícios ao longo do processo produtivo, e claro, a adaptação e minimização dos impactos das alterações climáticas.

A inovação permite trazer soluções de apoio à decisão com base nas reais necessidades do campo e desta forma poder-se atuar preventivamente ao nível da proteção de culturas e assim utilizar menos quantidade de produtos fitofarmacêuticos. A inovação traz a robotização que pode levar à minimização do uso de combustíveis fósseis e desta forma minimizar a pegada de carbono. A inovação traz tecnologia que nos permite medir com maior exatidão a nossa pegada hídrica e carbónica e, simultaneamente medir o nosso contributo em termos de sequestro de carbono. Desta forma podemos demonstrar que o setor frutícola, provavelmente tem um contributo altamente positivo no balanço do carbono.

Não há inovação sem investigação e nos últimos anos os Grupos Operacionais vieram trazer alguma dinâmica ao setor, e do ponto de vista de Maria do Carmo Martins, numa primeira análise, o que já se pode enumerar, relaciona-se com o envolvimento direto dos produtores e das suas estruturas no processo de inovação. “Tem sido muito interessante ter a produção diretamente empenhada na inovação, não só porque permite que a transferência de conhecimento ocorra de forma mais direta, mas também permite à investigação ir ajustando as atividades de forma a contemplar a realidade das explorações agrícolas”.

Como os Grupos Operacionais partiram de necessidades e/ ou oportunidades identificadas pela produção, espera-se que os resultados possam ter um impacto positivo no setor. E, a maioria dos GO em que o COTHN-CC se encontra envolvido, centram-se precisamente nos desafios que a estratégia do “Farm to Fork” apresenta ao nível da otimização no uso dos fatores de produção, à sustentabilidade ambiental das explorações agrícolas até à diferenciação pela qualidade, que se pretende que as novas técnicas possam trazer à produção.

“Durante 2021 serão produzidos imensos manuais práticos e operacionais com os resultados do GO, e esperamos por isso que o impacto possa vir a ser muito positivo, a médio e longo prazo”

“Importa sublinhar também que a inovação é o caminho para a sustentabilidade, quer ambiental quer económica das explorações agrícolas nacionais. A inovação traz mais conhecimentos e novas tecnologias que podem e devem ser utilizadas pelos produtores nacionais, para conseguirem ser mais eficientes na sua atividade produtiva”.

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.