Hortofruticultura Inovação

Avaliação sensorial do Figo de Torres Novas

Torres Novas é uma região tradicionalmente produtora de figo, sendo de referir a especial adaptação de duas variedades: o figo Preto de Torres Novas (característico da região e único) e o figo Pingo de Mel.

Na base da proposta de melhoria do figueiral de Torres Novas esteve a discrepância observada entre a falta de figo no mercado nacional e a existência de vastas extensões de figueiral abandonado ou mal rentabilizado na mesma região.

Para aproveitar a oportunidade há que apostar decididamente no aumento da produtividade dos pomares e na melhoria da qualidade dos frutos, através da modernização das técnicas utilizadas e da eficiente utilização da água. Foram estes os objectivos básicos do projecto GOFIGO.

Uma equipa dedicada, composta por técnicos muito conhecedores, tem vindo a desenvolver um conjunto de experiências relacionadas com a alteração dos processos de condução, de rega e de fertilização das figueiras da região, sempre com o cuidado de marcar árvores que sirvam de testemunha para os diversos processos de alteração em curso.

Têm também vindo a ser medidos os efeitos destes procedimentos na dimensão, peso, calibre, quantidade produzida, teor de açúcar e outros, em amostras significativas de figos obtidos.

Para que as comparações possam ser úteis, há também que avaliar eventuais alterações sensoriais nos figos obtidos já através dos novos ensaios de regas, fertilização e condução.

Houve que esperar dois anos após o início das novas práticas culturais para que os eventuais efeitos pudessem ser verificados.

Realizando-se o Dia Aberto no fim de Agosto de 2020, aproveitou-se a presença de pessoas da região para que pudessem efectuar uma avaliação desinteressada de 4 lotes de figos (das duas variedades, frescos e secos), provenientes, em ambos os casos, de árvores sujeitas às novas práticas de condução.

Para esta avaliação, pediu-se aos produtores que colhessem alguns figos das duas variedades e que trouxessem, igualmente, duas porções de figos secos das duas variedades.

Pediu-se, ainda, que as amostras não fossem objecto de escolha particular nem de remoção de figos considerados como pouco perfeitos.

1. O figo de Torres Novas e as memórias dos provadores

Pretendia-se comparar os produtos apresentados com as memórias de cada um dos presentes sobre o produto (e, saliente-se, que os presentes eram em número limitado, face à situação de pandemia de todos conhecida).

A avaliação que se pretendeu fazer não foi a vulgar dicotomia “produto bom // produto mau”, ou “gosto muito // gosto pouco” mas sim avaliar se cada “provador” encontrava diferenças entre os produtos apresentados e o que tinham na sua memória de infância ou na sua memória recente.

Elaborou-se uma ficha de avaliação e pedia-se a opinião do provador em relação a tamanho, forma, cor e aroma externos e cor, aroma, aspecto, sabor e consistência da polpa. Em relação aos figos frescos era ainda questionado o estado de maturação e em relação aos figos secos, se o grau de secagem se aproximava pouco ou muito em relação às memórias dos provadores.

Pedia-se que cada amostra fosse considerada, numa escala de 1 a 10, sendo 1 “Nada Parecido” e 10 “Muito Parecido”.

Os resultados das avaliações feitas pelos participantes da região obtidos podem sintetizar-se no quadro a seguir.

Este quadro permite concluir que os provadores da região acharam os figos provados sempre muito parecidos com as suas memórias, sendo o valor mais baixo o da semelhança em 71% relativo ao aroma externo do figo Pingo de Mel fresco e o mais alto o de 93% em relação à cor externa do figo Preto de Torres Novas, fresco.

Parece poder concluir-se que as 4 amostras de figos provados correspondem bastante ao padrão da memória dos provadores, não parecendo haver diferenças significativas nos diversos parâmetros avaliados.

Em relação aos figos frescos questionou-se, ainda, o estado de maturação e em relação aos figos secados, o grau de secagem, os valores apurados foram os seguintes:

Já na avaliação destes parâmetros há desvios significativos entre as amostras apresentadas e as memórias dos provadores. O figo Pingo de Mel fresco estaria num estado de maturação menos semelhante ao das memórias do que o figo Preto. Já em relação aos figos secos a conclusão seria contrária.

2. O figo de Torres Novas apreciado por quem não o conhece

Como alguns dos presentes nada tinham a ver com a região nem com o produto, aproveitou-se a oportunidade para pedir que fizessem uma prova dos produtos em prova, avaliando a “qualidade” do produto, em si mesma.

Os valores obtidos foram os seguintes, devendo ter-se em conta que os não residentes eram sensivelmente um terço dos residentes.

Os provadores não residentes classificaram bastante bem os figos provados, sendo curioso verificar que, em quase todos os parâmetros o figo seco – fresco e secado – obteve pontuação superior ao figo Pingo de Mel.

Em relação aos figos frescos questionou-se, ainda, o estado de maturação e em relação aos figos secados, o grau de secagem. Os valores apurados foram os seguintes:

Quanto ao estado de maturação, o figo Preto de Torres Novas foi o mais apreciado. Já quanto ao estado de secagem, foi mais apreciado o Pingo de Mel de Torres Novas.

3. Conclusões deste exercício de avaliação

Tendo em conta as condições condicionadas em que decorreu este exercício e o pequeno número de “provadores” envolvidos, as conclusões não podem ser consideradas como seguras. No entanto, mesmo com estas reservas, não será ilegítimo concluir que:

a) Os ensaios feitos ao longo de dois anos em termos de melhoria da protecção dos solos/mais eficiente uso da água/melhoria da protecção em relação a pragas e doenças/forma de condução das árvores parece não terem efeitos negativos nos diversos parâmetros qualitativos dos figos – quer do Preto de Torres Novas, quer do Pingo de Mel, frescos ou secados – quando avaliados por pessoas da região

b) As mesmas amostras, avaliadas por pessoas de fora da região, obtiveram uma “pontuação” muito positiva, em qualquer dos parâmetros avaliados

c) Há que repetir este exercício nas suas duas facetas – memória e apreciação geral – e, se possível, comparar as amostras obtidas com os novos modos de rega/ condução/protecção com amostras obtidas com os métodos correntes na região

d) As conclusões de tal exercício e o cotejo com as conclusões das análises físicas e químicas, entretanto efectuadas permitirão obter dados importantes para a caracterização física, química e sensorial do Figo de Torres Novas, indispensável para a qualificação deste nome – tendo em conta que o mesmo nome tutela as duas variedades cultivadas e a apresentação comercial em fresco e secado.

Autoria: Ana Soeiro Directora Executiva da Associação QUALIFICA/oriGIn Portugal Escrito ao abrigo do anterior AO

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.

Autoria: Ana Soeiro Directora Executiva da Associação QUALIFICA/oriGIn Portugal Escrito ao abrigo do anterior AO