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A brucelose

A brucelose, também conhecida como “febre de Malta”, é uma zoonose associada a uma bactéria intracelular, transmissível ao homem por várias espécies animais (pequenos e grandes ruminantes, suínos e cães são os vetores de transmissão do bacilo para os humanos)

〈 11/02/2021 〉

A infeção é causada pelas bactérias Brucella melitensis (a mais patogénica e cujos reservatórios são as cabras e as ovelhas), Brucella abortus, (presente no gado bovino) (ver figura 1), Brucella suis e Brucella canis (transmitidas pelos suínos e pelos cães, respetivamente), embora existam mais espécies de Brucela spp.

Nos animais, a brucelose é uma infeção crónica, cuja localização das bactérias nos órgãos reprodutores é responsável pela esterilidade dos animais e por abortos.

No ser humano, esta doença pode expressar-se de várias formas, aguda ou crónica, sistémica ou localizada.

Normalmente, as pessoas afetadas recuperam em duas a três semanas, na forma aguda da doença, mesmo sem serem sujeitas a tratamento. Noutras, porém, podem surgir complicações e evoluir para as formas subaguda, intermitente ou crónica da doença. As complicações desta doença não são comuns, mas podem incluir endocardite, meningite, encefalite, orquite entre outras.

A sua sintomatologia pode manifestar-se entre dias a semanas após o contacto com a fonte de contaminação (a média são duas semanas) e começa por um início repentino de calafrios e febre alta, que pode persistir de forma intermitente e por dois a quatro dias. Pode haver remissões da febre ao longo de meses ou anos, sendo tida muitas vezes como “febre de origem desconhecida”. Causa ainda dores articulares e na nuca, cefaleias, diarreia e mal-estar geral, incluindo instabilidade do humor.

A brucelose pode mesmo ser fatal, embora numa percentagem inferior a 5%, sobretudo em casos graves que incluam endocardite e complicações do sistema nervoso central.

As vias de transmissão desta doença para o ser humano ocorrem por contacto indireto (por via digestiva) ou direto (75% das transmissões) com os animais.

As bactérias encontram-se maioritariamente em produtos animais, como o leite, a urina ou produtos do aborto em animais que estejam infetados. Por tal, esta patologia tornou-se uma doença ocupacional – acomete os veterinários e os produtores agropecuários, trabalhadores dos centros de abate e os técnicos laboratoriais, em grande escala.

No ser humano, afeta mais o sexo masculino (podendo causar-lhes orquites e infertilidade) e a faixa etária entre os 55 e os 64 anos. Aparentemente, segundo alguns autores, tem carácter geográfico (incide mais nas áreas rurais) e caráter sazonal, pois a declaração de casos de doença ocorre mais frequentemente entre abril e junho (coincidindo também com o aumento dos partos de animais e a maior disponibilidade de leite cru para consumo e transformação).

Outras vias de transmissão da brucelose para o ser humano são as secreções, através de soluções de continuidade cutâneas ou através da ingestão de produtos não pasteurizados (ver figura 2), sobretudo lácteos crus. A ingestão de carne é uma fonte de infeção menos comum, até porque não é frequente que se consuma carne crua e o número de bactérias neste produto é baixo. Menos prováveis ainda são outras vias de transmissão como a ingestão de vegetais ou água contaminados por fezes ou urinas de animais ou a transmissão inter-humana.

Como medidas de prevenção e face a estas vias de contaminação, recomenda-se que os alimentos sejam cozinhados (a brucela é destruída a 72º C em 15 segundos e a 62-63º C (pasteurização) durante 3 minutos. Abaixo dos 5º C, o crescimento e multiplicação bacterianos são inibidos, mas podem persistir mesmo a temperaturas mais baixas e até de congelação. O leite deve ser pasteurizado, também como medida de prevenção da brucelose.

De igual modo, e ainda ao nível da prevenção da doença, as pessoas que lidam com animais ou carcaças eventualmente infetados devem usar equipamento de proteção, como óculos e luvas para proteção dos olhos e da pele, respetivamente.

Não existe vacina humana, mas a vacinação dos animais é recomendável (figura 3), quando as autoridades sanitárias entenderem que fatores de ordem sanitária o justificam.

Esta doença está identificada em todo o mundo e, de acordo com a OMS, a sua incidência poderá ser muito superior ao que sugerem os números oficiais.

É uma doença de declaração obrigatória, com implicações socioeconómicas e cuja distribuição geográfica acompanha a endemia animal, sendo possível estar a par da sua incidência nas diferentes localidades, precisamente devido ao diagnóstico laboratorial que, na Região Autónoma da Madeira, se realiza no Laboratório Regional Veterinária e Segurança Alimentar (LRVSA).

O teste efetuado neste laboratório é um teste simples de sero-aglutinação, denominado Rosa Bengala (ver figura 4), de rápida execução e com resultados quase imediatos.

O princípio do teste consiste na aglutinação antigénica bacteriana para a deteção (qualitativa e semiquantitativa) de anticorpos anti-brucella. Trata-se de um teste com elevada sensibilidade e uma especificidade diagnóstica de 100%.

O serodiagnóstico desta doença torna-se um recurso laboratorial essencial, sobretudo numa das zoonoses bacterianas mais importantes para o ser humano e tantas vezes subdiagnosticada, mesmo em países desenvolvidos ou em desenvolvimento. E daí a importância da utilização deste teste de triagem com um antigénio “brucélico” corado com Rosa Bengala, para pesquisa de anticorpos em soros de animais.

Desta forma, e através da ação do LRVSA, é possível fazer o controlo desta patologia salvaguardando a saúde pública e o desenvolvimento socioeconómico da nossa Região.

Autoria: Sílvia Vasconcelos
Laboratório Regional Veterinária e Segurança Alimentar
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural