Hortofruticultura

A poda das figueiras

Figura 1: Figueiras formadas em vaso clássico

Introdução

A cultura da figueira é tradicional no nosso país, quer para a produção de figos para consumo em fresco, quer para a produção de figos secos para consumo humano ou animal, ou ainda, para destilar originando assim o álcool e a aguardente.

〈 06/03/2021 〉 

No passado, a figueira foi uma cultura importante nas regiões do Algarve, Moura, Torres Novas e Mirandela. O principal destino da produção era o figo seco, em que este era colhido do chão depois de já ter perdido alguma humidade e em seguida colocado ao Sol em tabuleiros de madeira ou em esteiras para terminar a secagem. Este tipo de produção “obrigava” a que a copa das figueiras fosse alta para que os tratores e as alfaias passassem por baixo destas para fazerem os terreiros de modo a facilitar a colheita e a secagem. A colheita dos figos era e continua a ser manual.

Com a falta de mão de obra e com o aumento do preço da mesma, o figo seco deixou de ser interessante para a indústria (destilação), assim como para o consumo animal. Devido às propriedades nutritivas do figo e aos efeitos benéficos para a saúde, a cultura da figueira está a voltar a ser economicamente interessante. No entanto, a cultura terá de ser feita com o mínimo de mão de obra e os figos terão de ser colhidos diretamente da figueira sem passar pelo chão. A necessidade de mão de obra é principalmente para a poda e colheita, pelo que, a forma de condução das figueiras e a altura das mesmas são fatores muito importantes para a redução dessa necessidade.

A forma das figueiras

Na cultura tradicional da figueira, a forma de condução é o vaso clássico, num compasso muito largo (10 x 10 m, 8 x 8 m, 8 x 6 m), com pernadas inseridas a 1,2 m a 1,5 m acima do solo e cada uma com 4 a 5 m de altura o que origina figueiras com copas muito largas e altas, incompatíveis com a colheita dos figos diretamente da figueira (Figura 1).

Devido à necessidade de se reduzirem os custos de produção, as máquinas agrícolas terão de passar ao lado das figueiras e não debaixo destas. Assim, para formar um vaso baixo a inserção das pernadas terá de ser aos 0,5 – 0,6 m acima do solo e o topo das mesmas terá de ter uma altura máxima de 2,5 m. No mesmo sentido, da redução da mão de obra, o compasso de plantação terá de ser mais estreito (4,5 a 5 m x 2,5 a 3 m) para que o tempo “morto” de deslocação do colhedor / podador entre figueiras seja mínimo e o número de figos colhidos seja máximo (Figura 2).

Figura 2: Figueiras formadas em vaso baixo

Formação das figueiras no primeiro ano

Nas novas plantações de figueiras, com a forma de condução em vaso baixo, preconiza-se que após a plantação das figueiras e a rega de plantação das mesmas, estas sejam cortadas a 0,5 – 0,6 m acima do solo devendo o primeiro gomo abaixo do corte ficar voltado para o vento predominante. É importante referir que para que o figueiral comece bem, este corte a 0,5 – 0,6 m, deve estar concluído até meados de fevereiro. Esse corte deve ser ligeiramente inclinado, para que a água da chuva escorra facilmente, devendo ainda ser protegido com pasta cicatrizante para evitar que a água se “infiltre” na madeira da figueira. O centro da madeira (xilema) da figueira é esponjoso.

Em meados de abril selecionam-se os 5 a 6 rebentos que estão na parte mais alta da figueira e que estejam mais bem distribuídos e eliminam-se todos os restantes (Figura 3).

Figura 3: Reação ao corte após a plantação

Figura 8: Tubo em forma de círculo para ajudar a inclinação das pernadas

Em finais de maio devem-se eleger 3 a 4 ramos que vão formar as futuras pernadas sobre as quais se vai desenvolver a copa das figueiras (Figura 4). Nestes ramos, os que tiverem um comprimento superior a 0,50 m parte-se, manualmente, o gomo terminal para que a futura pernada engrosse e forme ramos laterais (se guarneça) (Figuras 5, 6 e 7). Nos restantes, que nesta fase ainda não atingiram os 0,50 m, será efetuada a mesma operação logo que atinjam esse comprimento. Até final de julho, em cada pernada, e sempre que esta cresça 0,30 m – 0,40 m após a ultima retirada do gomo terminal, elimina-se novamente o gomo terminal. Os ramos laterais das pernadas (antecipadas) que se dirigem para o interior da copa devem ser eliminados para não provocarem ensombramento no interior da copa. As futuras pernadas devem ficar com uma inclinação próxima dos 45º e bem distribuídas de forma a formarem um “círculo” pelo que, por vezes, é necessário colocar um arame / tubo, em forma de círculo, para ajudar na inclinação e na distribuição das mesmas (Figura 8). Estas intervenções em verde são fundamentais para ajudar as figueiras a formar a copa rapidamente tal como pretendemos, evitando-se assim que formem madeira onde não é necessária. Não devemos esquecer que os cortes efetuados na poda de inverno estimulam a formação de nova madeira abaixo do corte que fizemos, pelo que, por vezes, ainda desequilibram mais as árvores. Se tudo correr normalmente as intervenções no inverno são mínimas, resumindo-se à definição da extremidade das pernadas. Devemos ter presente que os utensílios de poda (tesoura e serrote) antes de utilizados devem ser afiados, para que os cortes fiquem lisos, lubrificados para ser mais fácil a sua utilização, e desinfetados com álcool a 70º para evitar a disseminação de doenças nomeadamente o vírus do mosaico.

Formação das figueiras no segundo ano

Um ano após a plantação, ou seja cerca de 15 dias antes do abrolhamento, pode ser necessário efetuar incisões em algumas pernadas que estejam mais desguarnecidas (falta de ramos laterais). Estas incisões são efetuadas cerca de um centímetro acima do gomo a partir do qual pretendemos que se forme um ramo lateral, devendo-se por isso dar preferência aos gomos laterais das pernadas. Os ramos orientados para o interior da copa não nos interessam porque provocam sombra, e os voltados para fora também não interessam porque alargam a copa em demasia e ensombram os ramos laterais. As incisões são efetuadas unicamente na casca com a ajuda de uma navalha ou da lâmina do serrote (Figuras 9 e 10).

Figura 9: Resposta à incisão acima do gomo Figura 10: Efeito da incisão

Na formação da copa das figueiras cada pernada deverá ter ramos laterais mais finos do que ela e os ramos da base devem ser mais grossos e mais compridos dos que estão acima destes. Tem de haver uma hierarquia de baixo para cima. As pernadas terminam num único ramo até chegarem à altura pretendida (Figura 8). Quando esta é atingida fazemos um atarraque sobre um ramo lateral que esteja voltado para fora da copa (Figura 11). Assim, durante o segundo ano o controlo do crescimento dos ramos é efetuado, também em verde, através da eliminação manual dos gomos terminais nos ramos que estão a crescer em demasia ou através da desramação (eliminação total do ramo com corte em bisel) dos ramos que estão a ficar demasiadamente grossos em relação à pernada. O corte em bisel permite que os gomos que estão dormentes na base do ramo cortado, despertem, dando origem a novos ramos, mas mais fracos. As desramações efetuam-se até meados de junho. Tendo-se a estrutura da copa da figueira formada, a poda feita a seguir depende da cultivar e da finalidade da produção: produzir figos lampos ou produzir figos vindimos.

A produção de figos lampos desenvolve-se na extremidade dos crescimentos do ano anterior (Figura 12). Devido à diminuição da temperatura e da luz solar no final do ciclo vegetativo (outubro) os ramos param de crescer assim como os figos. Quando a temperatura e a luz solar começam a aumentar, em março, os figos reiniciam o crescimento até atingirem a maturação em final de maio, junho, dependendo da cultivar e da região.

A produção de figos vindimos desenvolve-se nos crescimentos do ano. A partir dos gomos mistos formam-se ramos nos quais, a partir de final de abril, início de maio, se começam a desenvolver figos nas axilas das folhas, que vão amadurecer no final de julho, início de agosto, dependendo da cultivar e da região do país.

Produção de figos lampos

Para a produção de figos lampos, a poda baseia-se principalmente em intervenções em verde a seguir à colheita dos figos lampos. No inverno as intervenções são mínimas e ponderadas, porque cada ramo que eliminamos estamos a perder produção. Devemos ter presente que, dependendo da cultivar, cada extremidade de um ramo pode produzir 2 a 4 figos lampos. Assim, a seguir à colheita (final de junho), nos ramos mais vigorosos, eliminamos a extremidade do ramo com um atarraque, deixando unicamente 4 a 6 folhas (Figura 13). Não devemos esquecer que as folhas para além de “fabricarem” o alimento para a planta também a protegem do calor, pelo que, deveremos ter algum cuidado nesta intervenção em verde.

Figura 13: Atarraque nos ramos mais vigorosos (final de junho)

Em finais de agosto, começam a surgir novos ramos abaixo dos cortes (atarraques) que fizemos em final de junho. Devido aos dias começarem a ficar mais curtos e a temperatura a descer os figos formam-se mas não se desenvolvem, ficando hibernantes a aguardar o aumento da temperatura e dos dias. Com esta poda em final de junho substituímos uma ponta de um ramo por 3 ou 4 ramos fazendo assim com que a produção duplique ou triplique (Figura 14). Quanto maior for o crescimento desses ramos na fase final do ciclo maior será a quantidade de figos lampos razão pela qual a rega e a fertilização moderada, são importantes nesta fase do ciclo.

Produção de figos vindimos

Relativamente à poda para a produção de figos vindimos, no inverno (fim de janeiro) eliminamos os ramos demasiadamente grossos, com cortes em bisel (Figura 15), estes vão originar novos ramos nos quais se vão formar figos vindimos. Os ramos mais fracos não sofrem qualquer intervenção no inverno. Em meados de junho selecionamos os ramos de forma a que o topo da copa fique fechada mas que permita a entrada de luz até ao interior. Deve-se privilegiar os ramos mais fracos e eliminar pela base (desramação), com corte em bisel, os mais fortes. A manutenção da copa no inverno seguinte baseia-se em atarraques sobre ramos laterais (ramos demasiadamente altos são cortados acima de uma ramo que está direcionado para o lado) e em desramações para que cada figueira ocupe unicamente o espaço que lhe está destinado. Num figueiral plantado num compasso de 5 x 3 m (666 figueiras/ha) cada figueira ocupa 15 m2, ou seja, pode ter ramos no sentido da linha com um comprimento de 1,5 m e no sentido da entrelinha ramos com 1,3 m para que fique 2,4 m para a passagem das máquinas agrícolas. Os ramos de duas figueiras vizinhas não se devem cruzar para que não ocorra ensombramento (Figura 16). Os ramos para serem produtivos necessitam de luz solar, assim como os figos para terem qualidade.

Devido à necessidade de produzir muito e com qualidade e a baixo custo já se estão a implantar pomares de figueiras com compassos mais apertados (1580 figueiras/ha) e com formas de condução mais estreitas, quer para a produção de figos lampos como de figos vindimos. Esperamos brevemente descrever como se fazem estes pomares.

Figura 16: Aspeto do vaso em final de junho

Autoria:

  • Rui M. Maia de Sousa
  • INIAV, I.P.
  • Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade
  • 2460-059 Alcobaça – Portugal
  • e-mail: rui.sousa@iniav.pt

Artigo completo publicado na edição de janeiro 2021.