Agrociência Vinha & Vinho

A vitis vinifera e as suas potencialidades

Vitis vinífera: folhas e frutos

O paradigma atual, cada vez mais, apela a um reposicionamento globalizado e sinérgico, ampliando o foco de ação perante estratégias de melhoramento na gestão do potencial das culturas, num sistema ecológico, não só económico, mas principalmente, e necessariamente, biológico, sustentável, que articule diferentes setores numa demanda individual, especifica a cada um, num sentido coletivo.

〈 26/02/2021 〉

Os programas de desenvolvimento e inovação, como o contributo académico-científico acrescem à componente técnica criatividade, nas mais variadas indústrias que pretendem inovar, reinventando ou criando novos produtos e/ou potenciais, em fileiras de mercados muito competitivos que se entrecruzam.

Em Portugal, o setor vitivinícola apresenta um papel de grande importância económico-social e cultural, com expresso crescimento, cerca de 192 743 hectares de área total de vinha (IVV, 2019).

As condições edafoclimáticas favorecem as produções, mobilizando setores paralelos, que se estendem além das produções de uva e vinho, colocando a economia circular num lugar central que assume extrema relevância e preponderância como agente facilitador de fontes de matéria-prima ou para construção da mesma, de um modo acessível e económico; inovação; preservação ambiental e impacto ecológico.

O dinamismo do setor alimentar e os subprodutos resultantes da carga residual, estimando-se, em média, por cada 100 litros de vinho produzidos, cerca de 31,7 kg de resíduos nos vinhos brancos e cerca de 25 kg de resíduos nos vinhos tintos, constituídos por grainhas de uva, engaço, folhas e bagaço.

As indústrias alimentar, farmacêutica e cosmética identificam valor nestes subprodutos, principalmente por serem bastante ricos em compostos naturais bioativos, polifenóis, com uma gama alargada de propriedades fisiológicas relevantes, de interesse terapêutico e medicinal, trazendo benefícios para a saúde humana, consistindo algumas delas: antialérgica, anti-aterogénica, anti-inflamatória, antimicrobiana, anti-trombótica, com efeitos cardioprotetores e vasodilatadores, evidenciando-se a atividade antioxidante.

Atualmente, o aumento da procura dos consumidores vai ao encontro a novos mercados promissores que apostam em produtos funcionais, do ponto de vista nutricional.

A vitis vinifera (figura 1) é a espécie mais importante e representativa, pelo grande número de variedades, tanto em castas como em clones, que lhe conferem grande variabilidade morfológica, metabólica e genética, acrescidas da influência de vários fatores bióticos e abióticos que aumentam o potencial, biologicamente ativo, sendo uma das espécies mais ricas em compostos fenólicos, elevando a sua valorização na investigação, alargada a diferentes setores e indústrias afirmadas, e outras ainda em aberto, que tornam esta espécie, ainda mais significativa no contexto socioeconómico regional.

De nome científico vitis vinífera L. (figura 1) e com nomes vulgares como videira, parreira, pertence a família botânica das Vitáceas.

É uma planta vivaz ou perene. Arbusto com caule sarmentoso e crescimento trepador, possuindo gavinhas. Na maior parte das variedades e clones, o sistema radicular vai até cerca 60 cm de profundidade. A parte aérea compreende um tronco ou caule, também designado por cepa, que se subdivide em ramos ou braços e estes, em varas. No estado herbáceo, os ramos são denominados pâmpanos ou brotos. Enquanto, no estado lenhoso, sem folhas, são denominados de bacelos.

Figura 1. A vitis vinifera

As folhas (figura 2) são compostas de limbo e pecíolo, dispondo-se alternadamente nos ramos, palmatilobeadas largas, cordiformes, com cinco lóbulos sinuados dentados, glabras na parte superior e tomentosas na parte inferior. Variam no tamanho, forma, cor, com ou sem pelos.

As gavinhas são órgãos inseridos no lado oposto da folha, alternando-se no ramo com as inflorescências dando sustentação à planta.

As flores pequenas, de cor branco esverdeado, reunidas em inflorescências, paniculadas, chamadas de cachos. Hermafroditas ou unissexuadas. Têm cinco estames, inseridos na base da flor, ovário, estilete e estigma cobertos pela corola de cinco pétalas únicas, no ápice.

Figura 2. Vitis vinífera: folhas e frutos

O fruto (figura 2) são bagos reunidos em cachos com um eixo principal e outros laterais, designados de engaço. Os bagos são constituídos por uma película de cor e espessura variáveis, tendo no seu interior a polpa e uma a quatro sementes, dependendo da variedade. Algumas cultivares não têm sementes.

Nativa da Europa Meridional e Ásia Ocidental, é cultivada em todas as regiões temperadas quentes principalmente nos climas tipo mediterrânico.

A orientação das vinhas deve ser conforme o tipo de insolação: sol e calor excessivos: NE (nordeste) – SO (sudoeste); sol e calor moderados: N (norte) – S (sul) ou E (este) – O (oeste).

A colheita do fruto no Alentejo (região onde a nossa pesquisa se insere), em épocas normais de vindima (dependendo das alterações climáticas), é de agosto a outubro. A folha deve ser colhida, após a vindima, porque apresenta maior concentração de compostos fenólicos.

A propagação deve realizar-se no período préfiloxera: semente, estaca ou mergulhia.

Atualmente o bacelo enxertado, sobre porta-enxertos híbridos resistentes à filoxera com instalação de novas vinhas no primeiro ano, colocam-se no local definitivo porta-enxertos híbridos, e no segundo ano, a enxertia faz-se com os garfos ou varas. Os porta-enxertos mais utilizados no Alto-Alentejo são 99 Richter (R99), 110 Richter (R110), 140 Ruggeri (140 RU), 1103 Paulsen (1103P).

É uma cultura bastante sensível a podridão negra (Guignardia bidwellii), ao míldio (Plasmopara viticola), ao oídio (Erysiphe necator), a podridão cinzenta (Botrytis cinerea), a cigarrinha da flavescência dourada (Scaphoideus titanus) e a traça da uva (Lobesia botrana).

Em agricultura biológica e proteção integrada aplica-se a utilização de enxofre, calda bordalesa (cobre). Sebes para fixação de auxiliares: roseiras bravas, madressilvas de amora silvestre, sabugueiros, alecrim e medronheiro. Nas entrelinhas semeia-se trevo ou deixam-se crescer as ervas autóctones para, posteriormente, serem cortadas.

Os resíduos resultantes, como da poda, ficam no terreno. Os animais, também ajudam a manter o equilíbrio da vinha, as galinhas (galinheiro móvel) esgravatam e as ovelhas comem a erva.

A sua produção destina-se ao consumo alimentar, medicinal, terapêutico e cosmético como o vinho, o vinagre, as uvas de mesa, as uvas desidratadas, as folhas e o óleo de grainhas de uva, como exemplos de uma infinita utilização.

Os subprodutos mais importantes no conceito de economia circular são o bagaço, as folhas, as sementes ou grainhas e o engaço.

Na área da fitofarmacognosia os principais princípios ativos são os frutos e sementes (grainhas), o ácido tartárico, as vitaminas A, B1, B2 e C, a glucose e frutose, a pectina, o bitartarato de potássio e de cálcio e as sementes ricas em óleo, remicelulosas e procianidinas. Óleo sementes: 20 a 25% de ácidos gordos insaturados e ácidos saturados sob a forma de glicéridos; fitosteróis e tocoferóis. Folha: taninos (hidrolisáveis e condensados, procianidinas oligoméricas); flavonoides, 4 a 5% (derivados glucosilados de campferol e da quercitina); antocianidinas; estilbenos (resveratol e viniferinas); oenósido (estrutura glucídica com propriedades corantes); derivados antociânicos; taninos; vitamina C e flavonoides.

Baseando-nos nas propriedades terapêuticas é considerado um bom venotónico, fortalece os capilares sanguíneos, com ação espasmolítica, especificamente circulatória, descongestionante pélvico. Antioxidante, anti-inflamatório, anti fadiga, principalmente pelos efeitos fisiológicos do resveratrol, quercetina, catequina e outros compostos fenólicos que oferecem atuações funcionais em várias patologias, como na profilaxia e tratamento em desordens metabólicas e degenerativas. O óleo das sementes, também tem caraterísticas antioxidantes, hidratantes, regeneradoras e de manutenção da pele, favorece o aumento do colesterol HDL, diminuição do LDL e triglicéridos, prevenindo os riscos das doenças cardiovasculares.

As principais utilizações das folhas (principalmente castas uvas tintas), efeito venotónico, adstringente,varizes, alterações da circulação venosa, alterações tróficas dos membros inferiores, fragilidade capilar, prostatite, hemorroidas, coadjuvantes nas hemorragias uterinas e intestinais. Hepatoprotetor pelas antocianinas. Ação diurética. Nos frutos com grainhas são utilizados nas chamadas curas, principalmente indicadas para a gota e alterações cardiorrenais, especialmente na época da Primavera e início do Verão, na forma de sumos para tonificar e desintoxicar. Os frutos têm ação reconstituinte pela riqueza em vitaminas e minerais. As sementes, ação antioxidante e vasoprotetora pelas procianidinas e pelo óleo. No caso do óleo (sementes), hipolipemiante, antioxidante e ainda tratamento e prevenção da arteriosclerose e hiperlipidemias.

São desconhecidos as contraindicações, efeitos secundários e toxicidade.

Em termos de produção, as formas galénicas mais utilizadas e posologia médica para profilaxia: frutos e sumos, óleo de sementes, folhas, extrato fluido, comprimidos (pó micronizado do vegetal seco, ou com o extrato), nebulizado em cápsulas. Na infusão, uma colher de sobremesa de folhas por chávena, três chávenas por dia, depois das refeições. Extrato fluido de sementes (1:1): 50 gotas, uma a quatro vezes por dia. Extrato seco (5:1): 300 mg, uma a quatro vezes por dia. Óleo de sementes (grainhas): uma a duas colheres de sopa por dia, ou cápsulas com 500 mg de óleo, duas por dia. Resveratrol isolado: 15 a 20 mg por dia, em cápsulas. Quercetina isolada: 500 mg por dia, em cápsulas.

Bibliografia consultada: Amaro, P. (2003). A Proteção Integrada. Ed. ISA/Press. Salgueiro, J. (2005). Ervas, Usos e Sabores. In: Plantas Medicinais no Alentejo e Outros Produtos Naturais (3ª ed.). (pág. 188-189). Ed. Colibri. Marca – ADL.

Autoria: Lorena, A. 1 & Cordeiro, A.I.2

. 1 Naturopata

. 2 Departamento de Ciências Agrárias e Veterinárias. Instituto Politécnico de Portalegre.

Artigo completo publicado na edição de dezembro 2020.